O doloroso espetáculo da decadência de Santa Luzia, aos 327 anos de história

O doloroso espetáculo da decadência de Santa Luzia, aos 327 anos de história
A Igreja Matriz, construída no ponto mais alto, é o grande símbolo da parte antiga da cidade. Foto: site imoveis.embetim.com

Maya Santana, Luzias

Nasci em 1951, poucos anos depois do término da Segunda Guerra Mundial, numa cidade histórica de Minas Gerais: Santa Luzia do Rio das Velhas, hoje, apenas Santa Luzia, fundada há 327 anos, às margens do principal afluente do Velho Chico, o agonizante Rio da Integração Nacional.

A 20km de Belo Horizonte, a cidade poderia ser mais conhecida no país, se os prefeitos, sobretudo os que assumiram nas últimas décadas, tivessem uma compreensão maior da importância desse município para a História de Minas e do Brasil.

O monumento à Revolução de 42, no Muro de Pedras, só é visitado em agosto, quando é realizada a cerimônia oficial que comemora anualmente o fim do movimento rebelde

Nenhum deles investiu no aspecto histórico de Santa Luzia, onde terminou a Revolução Liberal de 1842 – quando São Paulo e Minas se rebelaram contra o governo central, no Rio de Janeiro, por estar reduzindo o poder das províncias.

A Revolução teve início em Sorocaba(SP) e desfecho, com a batalha final nas proximidades do Morro do Tamanduá, numa localidade mais tarde denominada Muro de Pedras, no coração de Santa Luzia. Em Minas, o movimento rebelde foi liderado por Teófilo Otoni, deputado do Partido Liberal.

O então Barão – futuro duque – de Caxias recebeu a missão de esmagar a revolta e prender os líderes dos rebeldes. Embora tenha sido um importante acontecimento histórico do início do Segundo Reinado, só um punhado de brasileiros ouviu falar de Santa Luzia, já que, infelizmente, sabemos todos, conhecemos pouco nossa História.

Este casarão, em frente da Igreja Matriz, serviu de quartel general dos rebeldes que lutaram contra Caxias

Há pouco tempo, o promotor da cidade, Marcos Paulo de Souza Miranda, estudioso da história, escreveu um longo texto sobre a relevância da “Revolução de 42”. Neste trecho, ele fala do que ocorreu depois da vitória das tropas legalistas:

“Tomado o Arraial de Santa Luzia, cerca de 300 prisioneiros foram feitos por Caxias, entre eles os principais líderes revolucionários, que decidiram não empreender fuga. No dia seguinte eles foram enviados a Ouro Preto para posterior julgamento, incluído Teófilo Ottoni. Pela coragem e tenacidade com que lutaram os rebeldes no palco derradeiro da Revolução Liberal de 1842, os integrantes do movimento insurgente passaram a ser chamados de “Luzias”, expressão que se transformou, desde então, em sinônimo de destemor e bravura.”

Da cidade em si, o poeta Olavo Bilac escreveu esse lisonjeio: “Santa Luzia é uma tradição viva da bravura mineira”. Enquanto outro poeta, e historiador, Antônio Augusto de Lima Junior, dedicou-lhe estas singelas palavras: “Quando Minas revê seus melhores títulos com que se honra entre seus irmãos na Federação Brasileira, o nome da risonha cidade que se debruça às margens do Rio das Velhas entre o arvoredo dos seus quintais e as palmeiras macaúbas, vem a todos os corações a memória do embate de 1842, nas ruas e barrancas.”

Esta foto, feita por Augusto Riedel,em 1868-1869, uma boa ideia de como era a cidade naquela época

Não é à-toa que, em seu livro “Santa Luzia: Atos de Proteção – Bens culturais tombados”, o pesquisador do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico, Iepha, Adalberto de Andrade Mateus (Beto Mateus), incentiva os luzienses a preservar a todo preço o que ainda resta da História da cidade:

“Os fatos memoráveis da história luziense, e também os do cotidiano, se desenrolaram durante um grande período temporal, perpassando mais de 300 anos desde a formação dos primeiros núcleos de povoamento. Saber reconhecer os espaços por onde se respira toda essa história é nosso dever, que cresce à medida que passamos a garantidores às gerações vindouras tudo aquilo que possa contituir-se para tais como elementos fundantes de sua identidade cultural.”

Cerimônia em frente ao antigo Grupo Escolar Modestino Gonçalves. Dá para ver como era a Rua Direita

Foi numa Santa Luzia ainda com ares coloniais que cheguei ao mundo. Seu casario emprestava altivez às ruas sinuosas. E as Igrejas Matriz e do Rosário, na Rua Direita, de frente uma para outra, constituíam marcos altivos da História local. A sacristia da Matriz serviu, inclusive, de trincheira para os revoltosos, derrotados em 20 de agosto de 1842.

Da cidade que descrevi, no entanto, resta bem pouco neste início do século 21. A partir da década de 1960 até agora, com exceção de um Prefeito, Dr. Oswaldo Ferreira, – imprimiu outra dinâmica no desenvolvimento da cidade, investiu maciçamente em cultura, arejou mentalidades -, adotado por Santa Luzia como seu filho dileto, nenhum outro merece ser reverenciado pela História. E é preciso registrar: a última leva de administradores mostrou-se um desastre para a cidade.

A velha estação ferroviária, no bairro da Ponte, hoje, abandonada

Hoje, com cerca de 220 mil habitantes, Santa Luzia é um mini-Brasil, pois reproduz em nível municipal todas as mazelas do país, inclusive no que se refere a corrupção. Recentemente, a Promotoria Pública denunciou que milhões de reais “foram desviados do município nas últimas duas décadas.” Isso explica muito da atual situação de Santa Luzia: não tem um verdadeiro hospital, nenhuma área de lazer nem parque, o salário dos professores e outros servidores é pago em parcelas, o transporte público está entre as piores de Minas Gerais. O índice de violência é altíssimo e, inacreditável, com cinco distritos industriais, a taxa de desemprego cresceu acima da média nacional.

Como se fosse um castigo imposto à velha cidade, há cinco anos não nasce um luziense, por carência de uma maternidade. E, para tornar a situação de seus moradores mais periclitante, a Prefeitura anunciou há poucas semanas que, caso rompa uma das barragens da mineradora Vale em Macacos,perto de Belo Horizonte, ou em Ouro Preto, em 13 horas a lama terá alcançado Santa Luzia.

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7 Comentários

  • Toninho reis
    18 de maio de 2019, 01:41

    Ótima matéria.. parabéns..Maya Santana..

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  • Gabriel
    18 de maio de 2019, 07:24

    Sem comentários…. Mais enquanto o pacato cidadão nao fazer algo Santa Luzia ficara nas maos de pessoas que nao amem esta bela cidade.

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  • rogerio magno de oliveira
    18 de maio de 2019, 10:49

    Um triste, verdadeiro, mas acima de tudo um texto primoroso sobre a Santa Luzia atual. Falta-nos comprometimento com o coletivo de uma cidade que merece mais de todos nós. Parabéns!

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  • Rita Massote Leitao
    18 de maio de 2019, 17:29

    Essas mineradoras tem que ser fiscalizadas com mais rigor.Vidas e historia no caminho dessa lama assassina.

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  • Jaqueline
    18 de maio de 2019, 22:53

    Não sou luziense nas moro aqui há 12 ano e meu filho nasceu no João de Deus há 7 anos e é triste acompanhar a decadência de uma cidade tão bonita de quase 400 anos com tanto potencial e tanta história

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