Baronesa, bairro de Santa Luzia, agora é também o título de um filme de ficção

Baronesa, bairro de Santa Luzia, agora é também o título de um filme de ficção
Andreia é uma manicure que sonha em construir sua casa no Bairro Baronesa, em Santa Luzia

Luzias

Falamos bastante aqui no Luzias, recentemente, da Fazenda Baronesa, no bairro de mesmo nome. É que a Prefeitura de Santa Luzia, a pedido do Ministério Público da cidade, embargou as obras do conjunto habitacional Vista do Sol, erguido pela Construtora Tenda, responsável pela danificação do patrimônio histórico desta que é uma das fazendas mais antigas e importantes de Minas Gerais – chamava-se Fazenda das Lages. Tanto o bairro como a fazenda ganharam esse nome por causa da baronesa de Santa Luzia, moradora do solar, na rua Direita.

Agora,estamos falando de Baronesa, o filme, que não tem nada de histórico. Ao contrário, é uma ficção. Mas remete a uma parte importante da cidade. E já ganhou prêmios no Brasil e no exterior. A trama é construída em torno de uma moça de poucos recursos, cujo grande sonho é construir uma casa em algum canto do bairro Baronesa.

Leia o artigo de Mariana Peixoto – “Ambientado na periferia de BH, ‘Baronesa’, de Juliana Antunes, chega aos cinemas -, publicado pelo jornal Estado de Minas:

O Bairro Baronesa, em Santa Luzia, tem origem nobre. Fundado há quatro décadas, ganhou esse nome em homenagem à baronesa Maria Alexandrina de Almeida. Afilhada de dom Pedro II, ela foi casada com Manoel Ribeiro Vianna, o primeiro barão da cidade vizinha a Belo Horizonte. As ruas e avenidas do bairro periférico ( com nomes de países e continentes) levam os habitantes a uma viagem pelo globo: Europa, Oceania, França, Suécia, Espanha.

Andreia não conhece nenhum desses lugares. Já esteve em boa parte do Brasil, rodando desde criança com uma mãe que levava os filhos para onde lhe conviesse. Vivendo em uma favela do Bairro Juliana, onde está prestes a eclodir uma guerra do tráfico, ela só tem um sonho: juntar dinheiro para construir sua própria casa no Baronesa.

Estreia na direção de Juliana Antunes, Baronesa chegou na quinta-feira (14) ao circuito comercial de todo o país através do programa Sessão Vitrine Petrobras. Em BH, o filme está sendo exibido nos cines Belas Artes, Cidade e Del Rey.

Desde sua primeira exibição pública – na Mostra de Tiradentes, em janeiro de 2017, quando levou o prêmio de emelhor filme –, o longa-metragem correu o mundo em diferentes festivais de cinema. Alguns deles dedicados ao documentário, caso do Forumdoc, em BH; Reencontres Internationales de Montréal, no Canadá; Ambulante Documentary Film Festival, no México; e Punto de Vista International Documentary Film Festival, na Espanha.

Mas esqueça. Baronesa é um filme de ficção. “Queria fazer o melhor filme possível. Fui muito de peito aberto, com metade do orçamento de um longa-metragem. Nunca foi minha intenção colocar em xeque o que é verdade e mentira. Queria ser verdadeira no que estava filmando. Já a palavra final é sempre de quem vê”, afirma Juliana Antunes.

Veja o trailer:

Explica-se: Baronesa não é apenas um filme, mas um projeto de vida. O projeto consumiu sete dos 29 anos de Juliana. Vinda de Itaúna há uma década para estudar cinema na UNA, em Belo Horizonte, ela não demorou a perceber linhas de ônibus que levavam a bairros com nomes femininos. Começou a pesquisá-los, processo que a levou a um documentário para a faculdade.

Veio então a vontade de fazer um filme. Com duas colegas do coletivo Pepeka Pictures – Marcela Santos e Giselle Ferreira –, Juliana foi se aproximando do universo que queria filmar. Na Vila Mariquinha, favela entre os bairros Juliana e Jaqueline (região de Venda Nova), tentou diferentes abordagens, já que queria filmar com mulheres que viviam no local. Nada funcionou, até que, dois anos mais tarde, através de cartazes colados ao lado de um salão de beleza, o trio encontrou suas protagonistas: Leid e Andreia.

A segunda, muito reticente, “deu uma canseira” em Juliana e na equipe – condicionou sua participação no projeto a Juliana morar na favela. A diretora alugou um barraco de 30 metros quadrados onde viveu, sozinha, por seis meses.

Baronesa concentra-se no dia a dia de Andreia (Andreia Pereira de Sousa), uma manicure que quer deixar o lugar; Leid (Leid Ferreira), dona de casa, mãe de quatro filhos, que espera o marido deixar a cadeia; e Negão (Felipe Rangel), um pequeno traficante. Todos vivem à espreita de uma anunciada guerra do tráfico.

A narrativa foi construída a partir de recortes da vida dos personagens. Mulheres conversando sobre masturbação enquanto fazem as unhas; o relato do abuso sexual sofrido seguidamente durante a infância por parte do padrasto; a reação ao saber que o filho mais velho está abusando do mais novo; uma conversa regada a doses de cerveja e cocaína; um grupo de mulheres se divertindo em meio a uma coreografia de funk.

“Eu propus as cenas junto com a Andreia e a Leid, que entraram no jogo do cinema. O roteiro, nada tradicional, foi uma sacada para encontrar o filme”, conta Juliana, que utilizou elementos de sua própria história para complementar a narrativa – as fitas negras colocadas em postes que anunciam a morte de um personagem vieram da memória da infância da diretora no interior de Minas. Clique aqui para ler mais.

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