Quarentena altera as celebrações da tradicional Festa do Divino em Santa Luzia

Quarentena altera as celebrações da tradicional Festa do Divino em Santa Luzia
Mordomos e Imperadores da Festa do Divino 2020 com o pároco Felipe Lemos na Matriz

Em uma decisão elogiada, o pároco de Santa Luzia, padre Felipe Lemos de Queirós, manteve os imperadores da Festa do Divino Espírito Santo de 2020, Wellington Rodrigo Moreira e Lilian Soares da Silva, e os mordomos Angel Amantino Domingues Ferreira e Viviane Paiva Gonzaga Ferreira, à frente dos festejos no próximo ano. Todos aceitaram prontamente a incumbência. Em razão da pandemia da covid-19, a festa, que em Santa Luzia é realizada há mais de um século, teve que sofrer adaptações neste ano. Veja alguns detalhes da realização dessa tradicional festividade, que marca o calendário religioso luziense.

Beto Mateus, Luzias

Passados 50 dias do domingo da Ressurreição, a Igreja Católica celebra com pompa e tradição a festa de Pentecostes, que representa a descida do Divino Espírito Santo dos céus sobre os apóstolos. Como em todas as cidades do período colonial, Santa Luzia também celebra a festa religiosa com a presença dos Imperadores e sua corte, os apóstolos, além de representantes de diversas famílias que levam em cortejo pelas ruas da cidade histórica a bandeira vermelha com a representação da pomba do Divino Espírito Santo.

Em 2020, devido às restrições do isolamento social, todas as cerimônias da festa do Divino, incluindo a procissão, foram transmitidas de forma inédita pelas redes sociais. E, após a celebração de uma missa na manhã do último domingo (31/05), os imperadores Wellington Rodrigo Moreira Corrêa e Lílian Soares da Silva, e os mordomos Angell Amantino Domingues Ferreira e Viviane Paiva Gonzaga Ferreira acompanharam o pároco da Paróquia Santa Luzia, Felipe Lemos de Queirós, em uma carreata que percorreu as ruas do centro de Santa Luzia com a imagem representativa do Divino Espírito Santo.

Veja um trecho da carreata neste vídeo de Marco Aurélio Fonseca:

Considerada uma das festas mais populares do catolicismo, desde os seus primórdios a festa do Divino é associada à assistência aos mais carentes, que se juntam ao banquete e celebram a fraternidade. E várias tradições, ao longo do tempo, se juntaram à celebração, como os grupos das folias do Divino e as guardas de congo.

A música e as artes plásticas, sempre atentas ao seu contexto, também registraram a popularidade e a dimensão simbólica dessa grande festa interiorana, como nos mostra o professor e doutorando em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Deivid Moraes.

Deivid, que divulga em suas redes sociais expressões artísticas como a pintura e a música, destaca duas representações da festa do Divino de grandes artistas nacionais. “As pinturas de Tarsila do Amaral (finalizada em 1968) e Djanira (1960) retratam bem o aspecto popular da festividade.”

Djanira representou, em 1960, a Festa do Divino: tradição nas cidades coloniais brasileiras

“Em Djanira, por exemplo,” continua ele, “vemos uma representação bem próxima da formação que os cortejos do Divino possuem: o menino imperador com a coroa do Divino no primeiro plano e o mordomo da bandeira, com terno, ao centro do quadro”, analisa o professor que destaca ainda a presença das festas em regiões muito distintas, todas elas de origem colonial, como Paraty (RJ) e Pirenópolis (GO), sendo essa última reconhecida como patrimônio cultural brasileiro pelo Iphan.

Ao falar da Festa do Divino de Santa Luzia, os pesquisadores luzienses Edison Lopes Tibúrcio e Marco Aurélio Fonseca imediatamente relembram o protagonismo de Luísa Rosália Diniz Kentish, figura decisiva para a retomada da festa nos anos de 1980, inclusive com a participação de muitos membros da família como festeiros e imperadores. Edison volta ainda mais no tempo e destaca o relato de que seu bisavô, Antônio Marçal Ramos, teria sido peça chave no início do século 20 para a celebração do Divino Espírito Santo.

Novos comportamentos
A realização da festa do Divino em 2020 teve que atender às recomendações das autoridades de saúde pública e da própria Igreja Católica: sem aglomeração. Cada um em sua casa. Sendo assim, ao longo do trajeto motorizado, os moradores enfeitaram as portas e janelas de suas casas, reverenciando a carreata, que substituiu o tradicional cortejo. Em condições normais, percorreria as ruas do centro histórico de Santa Luzia.

Cruzeiro da Rua Santa Cruz ornamentado para a Festa do Divino. Foto: Luzias

Moradores como Rosemeire de Fátima Dias, da comunidade de São Geraldo, fizeram ainda mais ornamentando o tradicional cruzeiro do bairro Santa Cruz com as cores vermelho e branco. “Eu me emocionei bastante, mas senti muita falta das pessoas nas celebrações. Mesmo assim, pudemos sentir a força que emana do Divino Espírito Santo” – disse o imperador Wellington Corrêa.

“Foi muito bonito ver as demonstrações de fé no momento da passagem do andor pelas ruas de nossa cidade”, destacou o Imperador de 2020, Wellington Corrêa. Wellington, um dos grandes colaboradores da Paróquia Santa Luzia, também deu a sua contribuição: preparou, juntamente com amigos, um andor especialmente decorado com flores naturais nas cores vermelha, amarela e branca.

Para se prevenir de danos ao patrimônio cultural, foi utilizada uma imagem nova, no lugar da tradicional, que é do século 18. “Por precaução não colocamos o Divino antigo em cima da caminhonete”, disse Wellington que é um dos Guardiães do Patrimônio da Arquidiocese de BH.

Wellington Corrêa e Lílian Silva, imperadores do Divino em 2020: protegidos por máscaras estilizadas no tom da festa. Foto: Helena Moreira

Em Pinhões, Festa é cancelada
Já os devotos do Divino Espírito Santo que participam de tradicional festa na comunidade quilombola de Pinhões terão que aguardar o próximo ano. A Guarda de Congo Divino Espírito, organizadora dos festejos, divulgou comunicado no último dia 29 de maio informando sobre o cancelamento da festa, que seria realizada nos dias 11 e 12 de julho de 2020, em razão da pandemia do Corona Vírus. Além do cancelamento da festa, os apoiadores da Guarda de Congo já tinham amargado, também em razão da pandemia, o cancelamento do Comida de Quilombo, que vem se firmando no calendário cultural e gastronômico de Santa Luzia.

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