Um ótimo relato da histórica visita de Dom Pedro Segundo a Santa Luzia, há 140 anos

Um ótimo relato da histórica visita de Dom Pedro Segundo a Santa Luzia, há 140 anos
A chegada do imperador a Santa Luzia, no registro da Revista Illustrada, em 1881. Fonte Biblioteca Nacional

Beto Mateus, Luzias

Há exatos 140 anos, a população de Santa Luzia se agitava em torno de um dos maiores eventos na cidade, após a Revolução Liberal de 1842. Depois de 39 anos, a cidade teve que se movimentar para receber as maiores autoridades do país, ninguém menos que o imperador Dom Pedro II e a imperatriz Teresa Cristina, acompanhados de grande comitiva, composta de funcionários do serviço imperial, conselheiros e jornalistas.

Na época, Santa Luzia, que havia se emancipado há pouco mais de 20 anos, contava com alguns núcleos de povoamento, onde se destacava a parte alta da cidade, atual centro histórico, e a parte baixa, nas imediações da ponte sobre o Rio das Velhas.

O desenho de Santa Luzia feito pelo imperador Dom Pedro II em seu diário de anotações. Acervo Museu Imperial

A visita do imperador à cidade constou de dois momentos. No primeiro, no dia 06 de abril de 1881, a comitiva aportou no atual bairro da Ponte, às 11h15, sendo recepcionada por várias pessoas que aguardavam, com expectativa, o soberano brasileiro. De cima da ponte de aroeira, construída pelo engenheiro Henrique Dumont – pai de Santos Dumont -, os cronistas chamam atenção para o grande número de mulheres presentes – “na ponte havia mais de duzentas moças, e posso dizer sem receio de errar, que talvez não houvesse cinquenta homens. É a terra das mulheres em maioria” – é que saudavam a comitiva imperial, viajando pelo rio das Velhas, na barcaça Cônego Santana.

O meio de transporte foi o escolhido pela comitiva para cumprir o trajeto entre Sabará e Santa Luzia. Até então, já tinham se utilizado do trem da viagem do Rio de Janeiro a Barbacena, e de tropas de muares e serviço de liteiras.

Imperador fez a viagem acompanhado da imperatriz Teresa Cristina. Foto: Fundação Biblioteca Nacional

Como na comitiva estavam vários jornalistas do Rio de Janeiro, então capital do Brasil, alguns detalhes da visita nos chegaram pela cobertura publicada na imprensa nacional. Entre esse material, encontra-se um desenho feito pelo jornalista, ilustrador e chargista Angelo Agostini para a “Revista Illustrada”, de sua propriedade. Na ocasião, dentre os desenhos que Agostini assinou com o pseudônimo de José Códea, está um representando a chegada da comitiva à Santa Luzia, que estava enfeitada com arcos de bambus e flores.

Na cidade, Dom Pedro II almoçou em uma residência no bairro da Ponte, que estava movimentado com a nobre visita. O comerciante Vicente Gonçalves, em depoimento dado em 1922, relembrou o fato: “Quando o imperador passava todos tiravam o chapéu. Tinha povo na rua como cascalho. Todos acompanharam D. Pedro II até a beira do rio”. De volta ao barco, Dom Pedro II continuou a viagem até o então Recolhimento de Macaúbas, onde teve a rara oportunidade de se encontrar com as recolhidas e as jovens que estudavam no colégio feminino, com fama em todo o país.

Em Macaúbas, conta a história oral, que Dom Pedro II se hospedou em um sobrado, localizado nas imediações do recolhimento. No dia seguinte, o monarca atravessou o rio e foi a Lagoa Santa, onde pode conhecer os locais pesquisados pelo paleontólogo Peter Lund (1801-1880).

Almoço do imperador na chegada a Santa Luzia aconteceu no bairro da Ponte. Foto: acervo Ítalo Massara (foto de 1910)

Ao longo de toda a viagem, Dom Pedro II teve contato com personalidades locais, que exerciam grande influência no cenário político luziense, como o médico Modestino Carlos da Rocha Franco; o barão do Rio das Velhas, Francisco de Paula Fonseca Viana; o capelão de Macaúbas, padre Joaquim José de Oliveira Lana, e o desembargador Antônio Roberto de Almeida, irmão da, na época já falecida, baronesa de Santa Luzia.

O segundo momento da viagem de D. Pedro II em terras luzienses aconteceu três dias depois. Após visitar a região de Lagoa Santa, o imperador retornou no dia 9 de abril, dessa vez no centro da cidade, onde conheceu a Igreja Matriz de Santa Luzia, a casa da Câmara e Cadeia, o Hospital de São João de Deus e o solar dos barões de Santa Luzia( o sobrado da Rua Direita de onde avista o hospital), onde pode encontrar as autoridades locais. Observador atento, o imperador anotou suas impressões em seu diário, inclusive criticando padrões de construção das edificações.

Sobrado onde o imperador teria pernoitado em Macaúbas. Fonte: Plambel/Fundação João Pinheiro

Mas, a viagem do imperador D. Pedro II legou a Santa Luzia alguns registros preciosos da paisagem da cidade. Além dos relatos publicados no diário do imperador e na imprensa nacional, que nos ajudam a reconstituir aqueles dias históricos, Santa Luzia tem o orgulho de possuir um desenho de parte do seu centro histórico feito pelo próprio imperador, que as avistou de dentro da barcaça Cônego Santana. Uma raridade que poucas cidades podem ostentar.

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