Um raro relato de uma luziense sobre a gripe espanhola que matou 50 milhões

Um raro relato de uma luziense sobre a gripe espanhola que matou 50 milhões
Memórias de Lygia Teixeira são fundamentais para se recordar a gripe espanhola em Santa Luzia

Beto Mateus, Luzias

Graves crises são acompanhadas de momentos de dúvida que levam as pessoas ao passado, em busca de seus registros e da memória coletiva. É como se a humanidade buscasse, pela comparação, parâmetros para o seu comportamento diante a situação vivenciada. A pandemia do novo coronavírus, em 2020, imediatamente levou a sociedade, os pesquisadores e a imprensa de volta ao ano de 1918, quando o mundo viveu as incertezas e o medo da morte provocados pelo vírus Influenza. Apelidada de gripe espanhola, embora não tenha se iniciado na Espanha, a pandemia matou, de acordo com cálculos da Organização Mundial da Saúde, 50 milhões de pessoas entre os anos de 1918, fim da Primeira Guerra Mundial, e 1920. No Brasil, foram cerca de 35 mil pessoas.

A gripe espanhola, que teria seu primeiro caso registrado no Brasil em setembro de 1918, logo se espalhou por todo país, alcançando seu pico de contágio entre os meses de outubro e novembro. A gripe chegou à Santa Luzia e um raro depoimento sobre a epidemia e seus reflexos na cidade foi dado por Lygia Teixeira Vianna Santos (1902-1986), que deixou o seu relato no livro Rua Direita: Memórias. Contando com 16 anos em 1918, Lygia deixou registrados os momentos de aflição vividos por sua família e por boa parte dos luzienses durante a epidemia.

A Matriz enchia-se todas as noites
Em uma época de poucos recursos de comunicação, Lygia informava que as notícias da 1ª Grande Guerra Mundial (1914-1918) só chegaram à cidade devido à participação do médico luziense José Camilo de Castro Silva (1892-1977) na missão médica brasileira que foi ao conflito. Outras notícias esparsas chegavam por jornais publicados no Rio de Janeiro. Já com a gripe espanhola foi diferente. Devido à sua gravidade, logo suas notícias chegaram à Santa Luzia. “Nas escadas da igreja da Matriz, na venda de João Maria, na farmácia Castro Silva, formavam-se as reuniões para comentar as desgraças. Era comum ouvir-se essa informação: – Vocês não conhecem o Zezinho, filho do Custódio Alves, que mora em Barbacena? – Sim. – Pois, morreu de gripe”, escreve Lygia.

“Santa Luzia mobilizou-se. Em primeiro lugar, preces a Deus. A Matriz enchia-se todas as noites de fiéis que pediam ao Salvador para resguardar a cidade. E os dias iam correndo, à medida que o pavor crescia. Alguns velhos, conformados com a sorte que os esperava, exclamavam: – ‘Ora, também, já vivi muito’. Os mais moços, presos à vida, lançavam mão de todos os recursos para se livrar da terrível moléstia. As notícias de Belo Horizonte amiudavam. Mortes e mais mortes, inclusive de alguns luzienses que lá residiam”, relembra em suas memórias.

Santa Luzia sofria também com varíola e impaludismo
Mas, não só a gripe espanhola afligia os luzienses naquele ano de 1918. Na mensagem enviada, em 1919, pelo presidente do Estado Arthur da Silva Bernardes ao Congresso Mineiro, no ano anterior, Santa Luzia do Rio das Velhas (naquela época com um extensão de 8 distritos que hoje correspondem a municípios) estava no grupo das localidades que solicitaram apoio à Diretoria de Higiene do Estado para combater surtos epidêmicos de varíola, febres do grupo colityphico, trachoma, impaludismo, dentre outras, que, segundo o documento, “foram eficazmente debelados”.

Fazenda da Baronesa, no atual bairro Belo Vale, serviu de refúgio para a família de Lygia Teixeira Vianna Santos. Arquivo Foto Paradiso

Em relação à epidemia da gripe, o mesmo relatório informa que “os primeiros casos em Belo Horizonte foram notificados em 7 de outubro, o que gerou imposições de medidas rigorosas de controle, envolvendo fiscalização de habitações coletivas e a suspensão das aulas nos estabelecimentos de ensino. Mesmo assim, Belo Horizonte registrou 239 óbitos e a situação de outros municípios não é mencionada devido à falta de envio das informações à Diretoria de Higiene, que pretendia “organizar uma estatística para exposição exacta de suas occorrencias”. Assim, dados sobre a epidemia em Santa Luzia ainda são desconhecidos.

Memórias da luziense são muito importantes
Mas, as memórias de Lygia ajudam a compreender melhor os acontecimentos de quando a gripe chegou à cidade: “Um dia, a bomba estourou. Pelos lados do Campinho, nos casebres que ali se distribuem, surgiam os primeiros casos de gripe (…) A espanhola vinha subindo a rua Direita. Apertava o cerco. Uma tarde, reunimos a bagagem e partimos para a chácara”, conta ela.

Lygia registra, ainda, um episódio familiar. Durante a epidemia, o seu cunhado retornou de uma viagem. Médico de renome, suas opiniões eram acatadas por toda a família: “Ao chegar à fazenda, foi logo dizendo: – “Arranjem as malas, vamos voltar para a cidade. Ninguém conseguirá escapar à gripe. Não adianta esconder”. Diante dessa opinião, voltamos para a cidade. E foi o erro. Em breve, a nossa casa era um hospital. (…) De todos nós, a que pior passou foi minha irmã Ceci, exatamente a esposa do médico. Ficou uma semana desacordada, com febre altíssima. A minha mãe teve um parto prematuro, correndo risco de vida. A criança pereceu”.

A generosidade de membros da irmandade que ajudava no Hospital
Pelo grande número de enfermos, muitas vezes, a imprensa mineira se referia à gripe espanhola como o mal reinante. Em Ouro Preto, somente na sede, foram 74 vítimas. O jornal Ouro Preto, de 25 de dezembro de 1918, relata a força tarefa formada na cidade para socorrer os enfermos. Em todas as localidades, ações eram empreendidas no sentido de se formarem equipes para atendimento aos doentes e hospitais de campanha nas maiores cidades. Santa Luzia, que conta com o Hospital de São João de Deus desde 1840, também reforçou suas equipes. A ex-priora da instituição Beatriz de Almeida Teixeira relembra esses momentos na trajetória da casa de saúde contando com a participação dos membros da Irmandade.

“Os irmãos Adolfo e Alonso Silva, relatavam que, juntamente com alguns confrades, se mudaram para o Hospital a fim de colaborar com a equipe médica no atendimento dos enfermos. Na história do Hospital de São João de Deus é uma das maiores lições da generosidade humana”, relembra Beatriz Teixeira.

Hospital de São João de Deus foi a referência para atendimento das pessoas infectadas com a gripe espanhola em Santa Luzia. Foto: Associação Cultural Comunitária de Santa Luzia

Oito já morreram de covid-19 em Santa Luzia
Em 2020, como no passado, a cidade sofre as aflições de uma pandemia. Desta vez provocada por um vírus surgido na China, o novo coronavírus, que desde o inicio do ano vem se espalhando – já causou mais de meio milhão de mortes no mundo e infectou quase 12 milhões de pessoas.

No Brasil, foram registrados até esta terça-feira(07/07) 66.093 mortes e 1.643.539 casos de covid-19. E neste momento, Santa Luzia, de acordo com informações da Secretaria Municipal de Saúde, conta com 487 casos confirmados da doença e já registrou 21 mortes.

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