Crônica de Déa Januzzi publicada no Estado de Minas: Adeus, dona Ephigenia!

Crônica de Déa Januzzi publicada no Estado de Minas: Adeus, dona Ephigenia!
Dona Ephigenia,,cercada pelos filhos Gustavo(E) e Mário Werneck. Foto: acervo de família

Déa Januzzi

Ah, desculpe-me dona Ephigenia, por não ter ido à sua última despedida. Não, não queria vê-la nesse lugar tão frio, tão diferente dos almoços de domingo, em que a senhora reinava absoluta em sua casa acolhedora e confortável de Santa Luzia, na Região Metropolitana de BH, junto com suas crias já crescidas. Não, dona Ephigenia, me perdoe por não ter participado do solene momento da despedida. Só consigo vê-la apontando para as galinhas no quintal rodeadas de pintinhos. Foi a primeira vez em muito tempo que revi essa cena da mãe protegendo a ninhada.

Jamais vou me esquecer do respeito e do cuidado de seus filhos. Da alegria de Gustavo ao presenteá-la com uma fonte para o jardim. Ele percorreu a cidade toda em busca da fonte perfeita, que jorrasse a água pura da vida. O jorro da união entre os filhos, da mãe que agrega, orienta, preserva o melhor de cada um.

Ah, dona Ephigenia, a senhora sempre me passou a energia de ter os sete filhos, todos de parto normal. Não se usa mais, não é? As mulheres de hoje, dona Ephigenia, não dão conta mais da dor. Mas a senhora, com a altivez de uma dama, deu conta. A senhora manteve os filhos unidos com seu poder de mãe, de educadora e de advogada. A senhora foi mãe de todos, até dos amigos de seus filhos. E estava sempre de bem com a vida em sua realeza. Ninguém jamais vai se esquecer da professora, da mãe, da avó, daquela que festejou as datas comemorativas, que empunhou a bandeira da sabedoria, que mexeu comigo o caldeirão das mulheres, que me dizia que seu nome era com ph e sem acento, que mandava para os colegas de redação do filho pratos com salgados e bolos, cobertos por panos bordados.

Ah, dona Ephigenia, me desculpe por não tertido a coragem de ir a sua última despedida em Santa Luzia. Mas sei que o Centro Histórico ficou lotado, uma fila de crianças, adolescentes, adultos, idosos se uniram em torno da mestra, da figura do bem que sempre esteve pronta a ajudar.

A bela crônica de Déa

Olha que coincidência, dona Ephigenia, a senhora partiu no Dia de São Geraldo, o santo de devoção, e foi velada na capela que ajudou a construir. O lustre ofertado pela senhora à capela deve ter jogado a intensa luz do amanhecer sobre todos os presentes.

Sua última despedida, dona Ephigenia, foi uma festa como a senhora sempre gostou, e padre Daniel, da igreja matriz, destacou tão bem. Todos estavam lá e, por incrível que pareça, felizes por terem convivido com uma senhora tão especial.

Seus filhos, dona Ephigenia, vão continuar pela senhora, com dons herdados de uma mulher culta, educada, inteligente e sempre à frente de seu tempo. Eles estão mais tristes, porque lhes falta um pedaço, a raiz, o vento da árvore, a copa que dava sombra e serenidade, mas eles vão continuar tecendo os fios da existência com capricho e alegria, heranças da mãe.

Para a senhora, dona Ephigenia, deixo as minhas lágrimas. Já chorei por dona Clara, sua amiga que partiu antes. Chorei por minha mãe, Amélia, que também se despediu em 2008. Mas deixo para a senhora as imagens do Centro Histórico de Santa Luzia totalmente repleto de emoção e solidariedade. Deixo o prato de pudim de pão que deveria fazer para retribuir e preencher o que a senhora me mandou comum pedaço de bolo de um dos muitos aniversários na sua casa. Deixo a dor deu ma filha que também ficou sem mãe e sem rumo. Deixo a vontade de voar para os lados do paraíso e constatar que hoje ele tem uma legião de mulheres guerreiras, fortes.

Dona Ephigenia nasceu em Belo Horizonte. E foi criada no Rio. Veio recém-casada para Santa Luzia

Ah, dona Ephigenia, o pior é que a senhora deixa um vazio, um buraco no peito da gente. Deixa um jeito de receber que só a senhora sabia. Eleva tanta coisa boa, tanta receita que não consegui copiar. Leva os almoços festivos que enchiam a casa do Bairro São Geraldo, deixa a facilidade que a senhora tinha de conviver como diferente, sem julgar e sem nem mesmo comentar. Deixa no ar o silêncio, mas também coisas boas como uma tarde de sol inteira para reverenciá-la, para aquecer seu corpo, para dar abrigo à sua vida. Adeus, dona Ephigênia!

Crônica publicada pelo jornal Estado de Minas, em 10 de outubro de 2010.

Leia também de Déa Januzzi a crônica “Órfãos da Ternura” sobre Dona Clara Santana

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