Decadência da estação ferroviária expõe o grande descaso com o nosso patrimônio

Decadência da estação ferroviária expõe o grande descaso com o nosso patrimônio
Prédio da Estação de Santa Luzia: descaso vem desde o incêndio, em 2012. Telhado foi reconstruído graças às cobranças do Ministério Público

Beto Mateus, Luzias

Nem tudo são flores no caminho do trem em Santa Luzia. Apesar de sua importância histórica, como mostrado pelo Luzias nesta semana (Leia: Estação ferroviaria: verdadeira jóia do patrimônio de Santa Luzia) e pelo recente programa divulgado pela Rede Minas, a memória ferroviária na cidade está ameaçada sob vários aspectos. Seja em termos documentais, de memória ou ainda das suas construções, a cidade ainda não conseguiu estabelecer uma política séria para que todas as histórias relacionadas com a ferrovia sejam preservadas e difundidas para a população, principalmente para as novas gerações. Assim, aos poucos, os luzienses vão perdendo o bonde, ou melhor, o trem da história.

Um dos pontos mais visíveis desse descaso, na área central da cidade, é a Estação, no bairro da Ponte, local que, há tempos, vive no abandono. A degradação parece ter desembarcado de vez na região do prédio construído pela Estrada de Ferro Central do Brasil e inaugurado em abril de 1893. A última intervenção no local foi por volta de 2013, quando o telhado, destruído parcialmente por um incêndio criminoso em 2012( Veja, no final da matéria, vídeo sobre o incêndio), foi reconstruído graças às cobranças do Ministério Público e da comunidade.

Interior da estação: sujeira e abandono desde 2012. Na imagem é possível perceber que a placa que homenageava os ferroviários não se encontra no local. Foto: Beto Mateus

Desde então, só promessas povoam os discursos dos gestores da cultura no município. Por enquanto, de ação efetiva, somente a capina realizada na área, o que é pouco para a importância do cartão postal. Se no centro da cidade o cenário é esse, bem pior poderá ser encontrado nas demais estações localizadas no município.

SINAIS DE DEGRADAÇÃO E ABANDONO
No bairro da Ponte, por todos os lados são visíveis os sinais da degradação e do abandono na praça da estação, restaurada integralmente somente uma vez, no ano de 1990. Desde a sua inauguração como centro cultural, o que só aconteceu com os esforços conjugados da Associação Cultural Comunitária e da Prefeitura Municipal de Santa Luzia, a estação já acolheu os ensaios de uma banda de música (a extinta Banda Municipal Antônio Tibúrcio Henriques), os ensaios da companhia de artes cênicas Sonho & Drama (que incluíam apresentações do grupo e intercâmbio com a cena cultural nacional), exposições de arte e artesanato, além de uma área de convivência externa com vários bancos construídos no entorno dos prédios, cercados por área ajardinada. Mas, com o passar dos anos, a estação foi perdendo a sua utilização e sua referência na política cultural luziense e como espaço de interação social.

Aos poucos, a memória ferroviária luziense perde as suas referências. Letreiro com o nome da cidade está apagado há anos

O desleixo com o prédio da estação é tanto que até o letreiro que ostenta o nome da cidade está apagado. Assim, a história vai vendo sua importância ficar invisível aos olhos das novas gerações, que não experimentaram os tempos de efervescência do movimento da Central do Brasil, depois da Rede Ferroviária Federal (RFFSA), extinta em 1996. Por todos os lados, em todos os componentes do complexo ferroviário, é possível constatar um triste cenário de decadência e falta de cuidado com o espaço. E é bom que se diga, um abandono de vários anos, de várias administrações municipais sucessivas, em que a vocação do espaço sequer foi discutida entre os agentes culturais da cidade.

As caixas d’água que alimentavam as marias-fumaças (locomotivas a vapor) estão muito corroídas, indicativo da falta de pintura que as protejam dos efeitos do tempo. Uma delas, é sede de uma moradia improvisada em sua base. O prédio da estação está sem as janelas e algumas das portas desde o incêndio de junho de 2012. No seu interior, a sujeira e o mal cheiro dominam tudo e até mesmo a placa que registrava o nome dos antigos ferroviários desapareceu. Muitos dos bancos da praça já não existem mais e o piso de pedras portuguesas está completamente comprometido e desfigurado, abrigando um imenso formigueiro. À noite, a situação complica muito, deixando inseguros os que precisam passar pelo local. O único sinal de cuidado ali parece estar no prédio do armazém que abriga, de forma improvisada, o acervo da Biblioteca Municipal Professor Francisco Tibúrcio de Oliveira.

Caixa d’água que ‘alimentava’ as marias-fumaças, locomotivas a vapor, denuncia o abandono

ESTAÇÃO DE CAPITÃO EDUARDO: MODERNIZAÇÃO INADEQUADA
Bem escondido dos olhares de quem passa pela Avenida das Indústrias (na altura da empresa Cifarma), está a localidade de Capitão Eduardo, que se desenvolveu ao longo de uma única rua, entre o rio das Velhas e a linha do trem. As primeiras casas construídas no entorno da estação ferroviária de Capitão Eduardo apresentam a data de 1950, o que sugere a data de construção do prédio que, a partir de então, passou a ser a primeira parada do trem em em território luziense de quem vinha da capital.

Das estações localizadas em Santa Luzia, Capitão Eduardo é a única que ainda tem funcionamento de unidade administrativa ligada à ferrovia. Na década de 1990, funcionava como base da Companhia Vale do Rio Doce. Atualmente, serve à VLI Logística, arrendatária do ramal férreo desde 1996, por meio da Ferrovia Centro-Atlântica. A Estação de Capitão Eduardo, que não é tombada em nível municipal, é patrimônio cultural de todos os brasileiros, uma vez que, a memória ferroviária do país está a cargo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN.

Estação de Capitão Eduardo já não exibe mais o letreiro que a identificava. Foto: Beto Mateus

Desde a promulgação da lei federal nº 11.483, de 31 de maio de 2007, cabe ao IPHAN “receber e administrar os bens móveis e imóveis de valor artístico, histórico e cultural, oriundos da extinta RFFSA, bem como zelar pela sua guarda e manutenção”. As medidas legais pressupõem uma forma especial de acautelamento e proteção para o acervo de bens oriundos da extinta RFFSA. É bom lembrar que o valor universal do Patrimônio Cultural Ferroviário está em sua representatividade, dentre outras, enquanto testemunho de atividades históricas, dos processos de ocupação do território, da implantação das redes ferroviárias e de seu valor simbólico e social, como parte do registro da vida de homens e mulheres comuns, dando um importante sentido da identidade.

A estação de Capitão Eduardo, até mesmo por seu funcionamento nos dias atuais, apresenta pátio limpo, prédio bem pintado e conservado. Mas, o que os olhos da preservação não esperavam encontrar é a substituição das janelas e portas originais de madeira por fechamentos em vidro espelhado, em nada condizentes com a originalidade do prédio, e a ausência do letreiro que identificava a estação.

ESTAÇÃO DE CARREIRA COMPRIDA: PLATAFORMA INTERROMPIDA

O telhado invertido, chamado de “borboleta”, é uma das marcas do modernismo na estação Carreira Comprida, inaugurada em 1961. Foto: Beto Mateus

Uma das situações mais angustiantes na preservação da memória ferroviária em Santa Luzia pode ser encontrado na estação de Carreira Comprida, localizada no bairro de mesmo nome, também conhecido por Frimisa. O ramal férreo, de grande capacidade para movimentação de composições, foi isolado por um muro, construído exatamente sobre a plataforma da estação, tornando o prédio incomunicável com o motivo de sua origem, a linha do trem.

A estação de Carreira Comprida é muito interessante e importante sob o ponto de vista arquitetônico, com seu telhado invertido (tipo borboleta). Para os estudiosos da arquitetura, trata-se de um interessante exemplar modernista, que na cidade são raros. Inaugurada em 1961, a estação foi construída bem próxima aos Frigoríficos Minas Gerais (Frimisa) e reflete, assim como o complexo que hoje é sede administrativa municipal, o desenvolvimento econômico do estado de Minas Gerais.

Já a estação de Ribeirão da Mata, última parada do trem de passageiros nos limites da cidade de Santa Luzia, não existe mais. Por volta de 1990, a Rede Ferroviária afirmava que o prédio não tinha utilidade para seu funcionamento como estação. As mudanças no trecho ferroviário e o péssimo estado de conservação da construção levaram à sua demolição, restando no local uma plataforma construída em pedra.

UM DOS TERMINAIS MAIS IMPORTANTES DO PAÍS

Instalado na região da Vila Íris, o Terminal Integrador é um destaque nas operações do segmento de siderurgia da VLI. Foto: Divulgação VLI Logística

Um dos aspectos da história recente ligada ao ramal férreo que passa por Santa Luzia foi a construção do Terminal Integrador Santa Luzia, na região da Vila Íris (antiga Farinha Boa). O terminal, também administrado pela VLI Logística, foi responsável, em 2016, pela movimentação de 125 mil toneladas de produtos siderúrgicos e 210 mil toneladas de minério de ferro, por mês. O terminal, que se insere na história recente da ferrovia em Santa Luzia, é considerado muito importante para a siderurgia no Brasil por atuar como centro avançado de clientes do setor para distribuição de produtos siderúrgicos em Belo Horizonte e interior de Minas Gerais, São Paulo, Vitória (ES), Marabá (PA) e região Sul do país. De acordo com a empresa, o terminal centraliza a movimentação de cargas que antes eram distribuídas em diversos terminais, permitindo ganhos em produtividade e agilidade para a logística da região.

É preciso que a comunidade luziense novamente se articule em torno da preservação da memória ferroviária de Santa Luzia, como o fez na década de 1990. Já são poucos os ferroviários da cidade que podem testemunhar a história que marcou o desenvolvimento econômico local e perdemos, a cada dia, a oportunidade para realizar esses registros. Ações integradas, inclusive com a VLI Logística, são necessárias para que esse capítulo de nossa história não saia dos trilhos.

Veja a reportagem sobre o incêndio que consumiu boa parte da estação, na madrugada de 21 de junho de 2012:

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1 Comentário

  • Cristiano Lara Massara
    22 de agosto de 2020, 21:09

    Uma pena. Estamos perdendo a memória.

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