Reconhecido artista nacional do início do sec. 20 fez desenhos memoráveis de SL

Reconhecido artista nacional do início do sec. 20 fez desenhos memoráveis de SL
Vista da área central de Santa Luzia, na ilustração de José Wasth Rodrigues, publicada na Revista do Brasil em 1921

Beto Mateus, Luzias

A história de Santa Luzia é feita de muitos episódios, fatos, contornos e arte. E um dos traços mais preciosos da paisagem da cidade vieram das mãos de um reconhecido artista nacional. Trata-se do paulista José Wasth Rodrigues (1891-1957), que pode ter visitado Santa Luzia no início do século 20, quando teria feito alguns desenhos da cidade retratando, principalmente, o nosso patrimônio arquitetônico.

Wasth Rodrigues fez seus estudos na Europa, frequentando, a partir de 1910, as aulas da Académie Julian e da Escola Nacional de Belas Artes da França, em Paris. Retornando ao Brasil em 1914, começou a dar aulas de desenho e pintura e, a partir de 1918, iniciou estudos sobre história colonial, com destaque para a arquitetura. Suas pesquisas foram realizadas em várias cidades mineiras e brasileiras, dentre elas, Santa Luzia, onde fez registros da paisagem e de detalhes da arquitetura das casas da cidade. De acordo com o artista, em depoimento registrado na apresentação de um dos seus livros, alguns trabalhos foram desenvolvidos no próprio local e outros por meio de fotografias que recebia.

Retrato do centro histórico, mostrando as três igrejas da Rua Direita

De seus registros artísticos, desenvolvidos em aquarelas e bicos-de-pena, surgiu o convite de Monteiro Lobato para que José Wasth ilustrasse a Revista do Brasil, editada pelo escritor a partir de 1918. A revista apresentava artigos de literatos e tinha como uma das linhas de ação abordar um panorama que contemplasse as “sciencias, letras, artes, história e actualidades”.

Na edição de número 61, publicada em janeiro de 1921, em meio a um artigo sobre a colonização do interior do Brasil, foram publicadas duas gravuras da paisagem luziense. A linha editorial da revista contemplava a publicação de gravuras ilustrando paisagens brasileiras e, na mesma edição, foram também publicadas ilustrações do pico do Itacolomi, em Ouro Preto, e um chafariz em Sabará, dentre outros.

Intituladas O Velho Brasil, as gravuras, datadas de 1920, apresentam dois ângulos do atual centro histórico. A primeira é uma vista da rua Direita a partir do adro da Igreja do Rosário e, a segunda, uma vista a partir do Largo do Bonfim, retratando as três igrejas localizadas na rua Direita: Bonfim, Rosário e Matriz de Santa Luzia. A cena retratada mostra uma Santa Luzia pacata, distante no tempo, que ainda tinha o Rio das Velhas no seu nome, com ruas de terra, tropas de mulas e carneiros soltos na rua.

Desenho de Wasth Rodrigues (ao centro) registra o costume local de pintar as cortinas nas vidraças. Fotografia de 1905 (esquerda) e de 2009 (direita) comprovam pesquisa do ilustrador

As contribuições do ilustrador se estenderam ao conhecimento sobre o patrimônio cultural brasileiro. Durante o seu trabalho de pesquisa no interior de Minas Gerais, Wasth Rodrigues fez interessantes registros da arquitetura colonial, publicados em fascículos, pela primeira vez, entre 1944 e 1951, por meio da coleção Documentário Arquitetônico, anos depois transformada em livro, publicado pela Universidade de São Paulo.

Presente na série de fascículos, Santa Luzia é apresentada por Wasth Rodrigues por meio de registros de exemplares de cachorro e cornijas (estruturas do telhado e dos vãos), detalhes do Solar Teixeira da Costa – Casa de July (portada, beiral e tetos) e uma típica ornamentação de vidros, quase extinta na cidade, imitando uma cortina branca.

Um dos detalhes que chama atenção na publicação, é o que parece ser um raro registro das rótulas que compunham uma janela que existia no demolido sobrado do Rafinha, na Rua Direita. As rótulas são tramas de treliças de madeira que ajudam a manter a privacidade do interior das casas, permitindo a observação interna, a entrada de luz e a circulação de ar. Atualmente, somente a casa de nº 506 exibe a interessante herança árabe.

Em 1918, o artista José Wasth Rodrigues foi convidado por Monteiro Lobato (à direita) para ilustrar a Revista do Brasil, periódico de literatura e artes. Foto: Washt Rodrigues (Biblioteca Nacional)

As contribuições do ilustrador José Wasth Rodrigues para a memória nacional abrangem outras áreas. São referências os seus estudos sobre a história militar e os uniformes utilizados pelos soldados e ocupantes dos postos militares ao longo da história do Brasil, as pesquisas sobre o mobiliário, além de pinturas realizadas para o Museu Paulista e uma azulejaria contando a história do estado de São Paulo, que são importantes testemunhos para compreensão da nossa história.

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1 Comentário

  • Maria Elisa santana
    26 de março de 2021, 11:43

    Ótimo artigo, Beto.Belíssimos desenhos nos traz nossa preciosa história e nos ensina da importancia da preservaçao de nossa memória.

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