Recuperação do teatro de Sabará nos faz lembrar com pesar da nossa grande perda

Recuperação do teatro de Sabará nos faz lembrar com pesar da nossa grande perda
Iniciada em 2016, restauração da casa de espetáculos, que recebeu a visita de dois imperadores, chega à fase final e deve se concluída em até quatro meses

Luzias

A restauração da Casa da Ópera – Teatro Municipal de Sabará merece aplausos de todos os brasileiros e dá uma pontinha de saudade em muitos luzienses da velha guarda. E de boa cepa, claro. Afinal, nossa cidade teve uma casa de espetáculos também em estilo elisabetano, construído no século 19 pelos barões de Santa Luzia e destruído no início da década de 1960. Se as máscaras do teatro são a comédia e o drama, nessa história há mesmo só a tristeza de termos perdido um patrimônio tão valioso e que teria sido fundamental para fomentar a cultura. E atrair visitantes.

A frase emblemática escrita em latim no teatro, que se traduz por “útil e agradável ao mesmo tempo”, ficou gravada na memória de gerações e gerações. Atores profissionais e amadores subiam ao palco para contar histórias, interpretar os textos e encantar a plateia. Estavam lá Tinho de Dona Carmelita, Marta Caixeta, dentre outros.

Há uma conversa que ainda ecoa em Santa Luzia: a de que, depois de ter salvo o chamado “teatrinho” de Sabará, o governador Israel Pinheiro (de 1966 a 1971) teria dito: “Agora, vamos recuperar o de Santa Luzia”. Infelizmente, o nosso já havia se transformado no Cine Santa Cruz, também de saudosa memória e que estreou com um filme do impagável Mazzaropi.

Convite para a peça O Transviado, no velho Teatro Trianon. Veja o nome dos atores e atrizes

O tempo passou e o prédio entrou em decadência – virou quase um cenário de guerra: lixo, água podre, entulho, mato, fezes, morcegos e outros desagradáveis fatores tornaram o espaço impraticável. Depois foi reconstruído, embora sem charme e glamour de outras épocas. De todo jeito, vamos bater palmas para nossos vizinhos de Sabará…e que sirva de lição para garantirmos o que ainda está de pé. Do contrário, serão apenas um monumento localizado “em algum lugar do passado”.

O lamentável é que até hoje ninguém tenha encontrado uma foto sequer do interior do nosso teatro. E olha que não faltou gente para procurar nas casas e perguntar às pessoas. Quem sabe uma hora aparece…vamos abrir as cortinas da nossa história.

Imagem do interior do teatro de Sabará. Foto: Gladyston Rodrigues/EM

Leia a reportagem de Gustavo Werneck, publicada pelo Estado de Minas, sobre a revitalização do bicentenário teatro de Sabará:

Os tapumes foram retirados hoje cedo, mas, esticando o olhar para apreciar a fachada e visitando o interior do prédio, dá para ver que a bicentenária Casa da Ópera – Teatro Municipal de Sabará – ficou mesmo “um espetáculo”. Depois de três anos fechado para restauração, o equipamento cultural do município vizinho à capital será reaberto nesta quinta-feira à noite, Dia Nacional do Teatro, com mais conforto para o público, espaço adequado aos atores nos camarins, acessibilidade para quem precisa e, claro, segurança fundamental para valorizar as artes cênicas.

Na tarde de ontem, uma equipe de serviços gerais da prefeitura local, junto de operários da empreiteira responsável pela obra e técnicos de som, deram os retoques finais para a cerimônia de reinauguração marcada para as 19h30. “Lindo, lindo! Vai ser ótimo para nossa cidade, nossa história”, disse a funcionária Leonice Belisário Pinto, que limpava as cadeiras de palhinha, ao lado de Sandra Maria Pimentel e Maria Onésia Faria. “Lustrando a cultura”, brincou Sandra Maria.

Trabalhador dá os últimos retoques no interior do teatro, verdadeiro tesouro. Foto:EM

Com obras iniciadas em outubro de 2016 e valor total da intervenção estimado em R$ 2,6 milhões – recursos do PAC Cidades Históricas, do governo federal – o bem tombado desde 1963 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) recebeu uma série de intervenções como recuperação do piso, pois muitos barrotes estavam podres; imunização da madeira, tendo em vista o ataque de cupins; substituição do forro de palhinha; restauro de portas e janelas e adequação da acessibilidade. Nesse último aspecto foram instaladas duas plataformas, tanto no acesso do público como no fundo do palco, para ligá-lo ao camarim.

“Trata-se da primeira obra do PAC que entregamos em Sabará, uma cidade com um sítio urbano muito importante”, disse, ontem, a superintendente do Iphan em Minas, Célia Corsino. Satisfeita com o resultado da obra, ela disse que o objetivo é que o teatro seja do povo de Sabará, destinado, portanto, à música, ao teatro, à dança e, de modo muito especial, ao convívio das pessoas. “Muito mais do que um prédio, é um espaço para práticas culturais”, disse Célia Corsino, que estará na cerimônia de reinauguração ao lado da presidente do Iphan, Kátia Bogéa, e do diretor do Departamento de Projetos Especiais/Iphan, Robson Almeida.

Palhinha – O público terá à disposição banheiros com acessibilidade, da mesma forma que os atores que ocuparem os camarins. Na terça-feira, em visita ao teatro, inaugurado em 2 de junho de 1819 e localizado na Rua Dom Pedro II, no Centro Histórico, o prefeito Wander Borges (PSB) explicou que a administração ficará a cargo da Secretaria Municipal de Cultura, também responsável pela programação ao longo do ano. “Será elaborado o regulamento da casa, que terá como prioridade a apresentação de peças, concertos e outros espetáculos dessa natureza”, afirmou Borges, lembrando que foi entregue à população em abril, após uma década de espera, o Cine Bandeirante, de 500 lugares, agora com o nome de Centro Cultural José da Costa Sepúlveda.

Embora os recursos sejam “100% federais”, conforme ressalta Célia Corsino, Borges explicou que a prefeitura deu sua contribuição, no valor de R$ 120 mil, para a recuperação das cadeiras de jacarandá com palhinha, de meados do século passado, outras peças de mobiliário e troca de telhas. “Foram reformadas 146 unidades, e há 20 cadeiras com braço e 58 sem braço para conserto. Além disso, temos bancos também antigos para acomodar maior número de pessoas.” Com três andares para camarotes, o prédio está protegido contra o período de chuvas, pois foram trocadas as telhas, numa área de 720 metros quadrados, colocando-se as do tipo colonial na cor cerâmica, conforme aprovado pelo Iphan.

Sob olhares do prefeito de Sabará, Wander Borges (de blazer), e do pesquisador José Bouzas, funcionárias davam os toques finais nas tradicionais cadeiras de palhinha
(foto: Gustavo Werneck/EM/D.A Press)

Segundo a coordenadora do PAC em Sabará pela prefeitura local, arquiteta Milene Cristine Pinto, tudo foi feito para manter as características originais da edificação, incluindo técnicas construtivas originais e decoração em madeira, a fim de preservá-la ao máximo. Cada detalhe chama a atenção e, desta vez, as cortinas realmente vão se abrir e elas são na cor azul-escuro, que combina com o colonial das janelas, colunas, portas e barrados da fachada branca.

IMPORTÂNCIA Quem também esteve no teatro, cheio de entusiasmo, foi o pesquisador da história local, José Bouzas. “Esta casa não é importante apenas para Sabará e Minas, mas sim para o Brasil”, afirmou, lembrando que o local sempre foi o palco de arte e cultura e também de fatos políticos importantes, “em especial no período da abolição”, diz. Com experiência por mais de 20 anos como ator – “participei de 25 peças, de 1971 a 1992”, orgulha-se –, Bouzas espera que o espaço volte a fortalecer a cultura de Sabará e o convívio das pessoas”. “Num período, funcionou ali o Cine Borba Gato, que deixou casos memoráveis.” No seu tempo como ator, ele integrava o Grupo de Teatro do Conselho de Arte de Sabará, hoje Cena Aberta.

Quem já assistiu a um espetáculo na Casa da Ópera, um dos teatros mais antigos em funcionamento do país, sabe que o espaço é obra de arte genuína, tanto que recebeu a visita dos imperadores dom Pedro I (1798-1834), em 1831, e dom Pedro II (1825-1891), em 1881 – a sala tem forma de ferradura, com vasto palco elevado e ótima visibilidade. Conforme os relatos e pesquisas, há detalhes que enriquecem a história: “As portas de entrada pertenceram à antiga cadeia. A cortina do pano de boca foi pintada pelo conhecido pintor alemão George Grimm, que veio ao Brasil em 1874 e foi professor por algum tempo na Academia de Belas-Artes, no Rio de Janeiro”. As pinturas do pano de boca, no entanto, desapareceram com o tempo.

Em 1971, o teatro recebeu o espetáculo Morte e vida severina, primeira montagem do grupo de teatro do Conselho de Arte de Sabará – (foto: Arquivo pessoal/Divulgação)

Nesse ambiente, em que a equipe concluiu os serviços, os moradores têm orgulho em dizer que, nesse palco, com “uma das melhores acústicas da América”, se apresentaram artistas renomados, a exemplo de Paulo Gracindo, Ítala Nandi, Arthur Moreira Lima, Belchior, Roberto de Regina, Nelson Freire, Clementina de Jesus, Jackson Antunes, Felipe Silvestre, Marco Antônio Araújo e Maria Lúcia Godoy. Placas na entrada indicam reformas em 1970, 1983 e 1996 e informam que, há 32 anos, a propriedade do prédio passou do estado para a prefeitura.

“Em meados da década de 1960, a atriz Maria Della Costa (1926-2015) esteve em Sabará e ficou alarmada com o estado precário do teatro. Então, falou com o governador Israel Pinheiro (1896-1973), que tomou as providências e o salvou da destruição”, contou Bouzas. O projeto do restauro concluído em 1970 foi assinado pelo arquiteto Luciano Amedée Peret, de 91 anos.

Visita do imperador – De acordo com as pesquisas, a antiga Casa da Ópera de Sabará é considerada “um dos mais interessantes edifícios de Minas, principalmente por ser o teatro um programa pouco comum na época de abertura”. Em 1831, viveu grandes momentos com a visita do imperador dom Pedro I.

Sabe-se que o teatro foi erguido em terreno pertencente ao alferes Francisco da Costa Soares, com a constituição de uma sociedade anônima da qual o povo participou e reuniu recursos para a obra. Diz um documento que, “aos poucos, os cotistas proprietários do teatro foram doando suas ações à Santa Casa de Sabará, que mantinha a maioria das cotas na ocasião de seu tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 1963.

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