Mercúrio e minério de ferro na lama de SL: Prefeitura faz BO contra empresa da Vale

Mercúrio e minério de ferro na lama de SL: Prefeitura faz BO contra empresa da Vale
Rua do Comércio, na Ponte: revoltados, moradores acusam empresa da Vale de ter aberto comporta. Foto: Beto Mateus

Luzias

Não bastasse o drama terrível que os moradores de Santa Luzia vêm vivendo, como consequência das enchentes do final de semana, tomamos conhecimento agora que rejeitos estocados por uma empresa ligada à Vale teriam sido levados pelas águas durante o temporal, contaminando com dois metais pesados, mercúrio e minério de ferro, a lama na cidade, sobretudo em Vila Íris. A Prefeitura acredita que houve “crime ambiental” e registrou um Boletim de Ocorrência contra a VLI, que tem a Vale como um dos acionistas mais importantes.

Leia o artigo de Mariana Nogueira, publicado pelo jornal O Tempo, nesta terça (28):

A prefeitura de Santa Luzia, na região metropolitana de Belo Horizonte, registrou um boletim de ocorrência na tarde desta segunda-feira (28) contra a VLI (empresa de logística da qual a Vale é uma das principais acionistas) devido à possível presença de mercúrio e minério de ferro na lama que tomou parte da cidade durante as enchentes da última sexta-feira (24).

Técnicos das secretarias municipais de Meio Ambiente e Saúde vão recolher lama em locais atingidos para análise. A reportagem esteve na cidade nesta segunda-feira (28) e ouviu moradores e comerciantes atingidos. Segundo eles, comportas da barragem B3/B4, da Vale, em Nova Lima, teriam sido abertas durante o temporal.

Moradores e empresários da rua do Comércio, no bairro São João Batista, amanheceram nesta segunda-feira em meio a muita lama e destruição. A água da enchente chegou a atingir dois metros em alguns imóveis.

Prefeito de Santa Luzia Christiano Xavier registrou boletim de ocorrência por suposta presença de metais pesados em lama de enchente

A reportagem questionou a Secretaria de Estado de Meio Ambiente, a Defesa Civil estadual, a Vale e a Agência Nacional de Mineração (ANM) sobre a denúncia da abertura das comportas da barragem.

Questionada se teria feito alguma análise na lama do local, a Agência Nacional de Mineração informou que checou a denúncia com a Vale e que a lama não é da barragem e, sim, de uma drenagem de uma pilha de estéril da Vale. Os demais órgãos ainda não responderam.

“Estivemos na Vila Íris, que é o local mais afetado aqui de Santa Luzia, e lá existe um Porto Seco, onde se carregam aproximadamente 300 caminhões de minério todos os dias. A gente viu que ali tem uma bacia e, com certeza, material foi carregado junto com a enchente do rio das Velhas. Existe uma lama com a característica estranha. Me senti no dever de registrar um boletim sobre esse possível crime ambiental”, afirmou o prefeito Chistiano Xavier.

A quantidade de lama na rua do Comércio e em seu entorno surpreendeu a população. Todos os imóveis foram afetados pela enchente e estão com as portas fechadas desde então.

Outro ângulo da Rua do Comércio alagada: muitos comerciantes ainda estão com as portas fechadas.

Proprietário de uma oficina mecânica, Daniel Vilarinhos, 46, disse que o nível do rio durante o temporal não acusava potência da enchente.

“Saímos daqui por volta de 17h30 e a água estava recuando lá embaixo. Ficou todo mundo tranquilo. Achamos que o pior tinha passado. Por volta de 21h veio o rio com um volume muito grande. Todo mundo está suspeitando que seja rejeito de minério, porque tem um cheiro muito forte de minério, poeira, as coisas estão enferrujando rápido, não é uma lama comum. O nosso problema não é chuva. Já choveu muito mais do que isso e não deu essa enchente. É uma lama de minério”, afirmou.

Vilarinhos calcula um prejuízo de R$ 100 mil. “Perdemos o elevador, compressor, balanceador de pneu e bastante ferramenta que sumiu na lama. Vamos ver agora se conseguimos recuperar. Não vai ser fácil porque é um prejuízo muito grande. Apesar de a chuva ser forte, não tinha previsão de que poderia acontecer o que aconteceu. Acho uma falta de responsabilidade muito grande. Não só questão de prejuízo, mas as mortes que tiveram na região. Tinha que ter avisado. Mesmo se tivesse que soltar a barragem, tinha que avisar com antecedência. Aproveitaram a calada da noite, a chuva e soltaram? Uma falta de respeito”, afirmou.

O gerente de um sacolão Marcelo Pereira da Silva, 38, também viu a lama levar todos os produtos do estabelecimento e se surpreendeu com enchente. “A gente não esperava que fosse atingir da forma como atingiu. Surpreendeu a todos e viemos a perder tudo, tanto em produto como em maquinário, verduras, computadores, tudo. Alerta mesmo, de fato, não tivemos. Na parte da tarde as chuvas diminuíram, o volume de água diminuiu, e a noite veio pegando todo mundo de surpresa. Não teve como fazer mais nada. Encontramos um cenário catastrófico, horrível, desolador. Todo mundo em desespero, sem ter acesso. Não teve como fazer mais nada. Agora é lavar, limpar e recomeçar. Não tem como nem precisar o prejuízo, é imenso, perdemos tudo. Estamos muito preocupados com a barragem”, disse.

Águas barrentas tomaram conta da Rua José Tófani, que termina na Rua do Comércio

Morador de Santa Luzia desde que nasceu, o aposentado Vander Gonçalves, 60, estava ajudando o amigo, Roberto, que perdeu tudo e calcula um prejuízo de R$ 80 mil, a limpar a lama da enchente. “O rio abaixou, aí de repente subiu de uma vez só porque abriram as represas lá em cima na Barragem, em Nova Lima. A água veio de repente, não deu para fazer mais nada. Pegou todo mundo de surpresa. Tivemos a enchente de 1997 e agora a de 2020. Em 60 anos é a terceira vez que vejo isso. Ninguém falou nada com a gente, foi surpresa mesmo. Agora é ajudar os amigos. Não adianta ser amigo só de boca, tem que ser de obra também”, contou.

Os principais pontos que estariam com os rejeitos são os bairros Vila Íris, Pantanal, Córrego Frio, Moreira, Morada do Rio e a rua do Comércio.

A reportagem também procurou a Polícia Civil e aguarda o posicionamento.

Em nota, a VLI diz que “não foi registrada movimentação atípica de materiais ou produtos armazenados no terminal de Santa Luzia”, e diz ainda que a empresa já está em contato com a prefeitura para prestar os esclarecimentos necessários.

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1 Comentário

  • Tamiris
    29 de janeiro de 2020, 20:26

    Tenho certeza que alguma coisa aconteceu, na noite do dia 24 a não ser a chuva.
    Pois o nível do rio estava realmente abaixando..de repente acabou com tudo.
    Tenho uma empresa próxima ao rua do comércio.
    Perdi praticamente tudo.

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