Crônicas que Déa Januzzi escreveu sobre pessoas que ela admirava em Santa Luzia

Crônicas que Déa Januzzi escreveu sobre pessoas que ela admirava em Santa Luzia
Déa era amiga de Dona Clara, fotografada aqui pouco antes de falecer, em agosto de 2008, aos 87 anos. Foto: Luzias

Luzias

Esta crônica foi escrita por Déa Januzzi em agosto de 2010, em memória de Dona Clara Santana, falecida naquele mês, aos 87 anos. Déa, que nos deixou na quarta-feira, 4 de novembro, foi inúmeras vezes à casa da Rua Silva Jardim, 151. Nessas visitas, as duas sentavam-se na varanda que dá para o quintal e durante horas entretinham uma à outra, numa prosa sem fim. Criaram um laço todo especial de amizade.

Houve um tempo em que Déa Januzzi vinha com frequência a Santa Luzia, onde cultivava os amigos de uma vida inteira. como Dona Ephigênia Werneck, com quem também tinha enorme prazer em conversar. A crônica que Dona Ephigênia ganhou da jornalista será publicada aqui no Luzias nesse domingo(08).

Órfãos da Ternura
“Rogai por nós, dona Clara, que não temos a sabedoria de sobreviver à morte. Rogai por nós, que nada sabemos sobre os mistérios da vida”, escreveu a extraordinária jornalista nesse texto dedicado a Dona Clara:

“Rogai por nós, dona Clara, que ficamos sem seu sorriso, sua alegria, seu bom humor e sua sabedoria de envelhecer. Rogai por seus filhos que agora estão sem o abrigo de sua presença, o ninho de seus braços, o calor de seu corpo. Rogai, dona Clara, especialmente por sua filha Maya, minha irmã do coração, que voltou de Londres para ficar juntinho da senhora, em Santa Luzia. Ela agora está livre, nada a prende a lugar nenhum, mas o que ela vai fazer com a liberdade se a senhora não está mais aqui? Maya dedicou seus dias a cuidar da senhora. E o que pode fazer uma lady sem a proteção de sua rainha?

Rogai por Zeca, outro de seus 12 filhos, o primeiro a abandonar seu posto de trabalho na BBC de Londres para voltar para casa, só para estar a seu lado, para compartilhar a linguagem universal do amor. Ele sabia que não tinha uma mãe qualquer. Era a dona Clara, que esperava o filho sempre ligada nas notícias do Reino Unido. Quando voltasse, ela certamente saberia conversar com o filho, não ficaria sem assunto com ele. Sem saber que a casa da Rua Silva Jardim, em Santa Luzia, era um front, estava sempre aberta para os amigos. Às vezes, dona Clara, a gente tinha a impressão de estar em Londres, Paris, Roma, Madri, sem sair de Santa Luzia.

Dona Clara nunca arredou pé de lá, estava sempre de prontidão para receber seus filhos que iam e vinham depois de alçarem vôos maiores. Dona Clara sabia que esse era o curso natural da vida, o bater de asas dos filhos. Quantas vezes me senti súdita nesse reino encantado. Eu me sentia a pessoa mais importante do mundo quando estava ao lado de dona Clara, a mais bem tratada, a melhor de todas as pessoas, porque dona Clara era assim: sabia conjugar o verbo acolher. Às vezes, dona Clara, eu me sentia mais confortável a seu lado do que em minha própria família.

O amor era servido junto à mesa farta dos almoços de domingo. Rodeada dos filhos, genros, noras, netos e bisnetos e dos filhos dos amigos, a tarde descia morna, com conversas longas, produtivas. O mundo cabia dentro de sua casa, dona Clara, com os jardins sempre floridos e a alma regada pelo mais nobre dos sentimentos – a hospitalidade, seu jeito de receber e de estar em todos os cantos ao mesmo tempo.

Rogai por nós, dona Clara, pois quantas vezes eu e Maya sonhamos em levar minha mãe, de 91 anos, para um desses almoços. Quantas vezes falamos sobre o entardecer de nossas mães. Quantas vezes ficamos velhas, muito velhas, ao trocarmos informações sobre nossas mães. Quantas vezes dividimos nossas dúvidas, reafirmamos nossas certezas de estarmos no caminho certo, apesar de todos os tropeços.

Texto delicado, de quem tem talento superior. Foto: Heloar T. C. Vinagre

Dorme em paz, dona Clara, pois todos estão sentindo uma “tristeza feliz”, como disse a amiga de Elisa, sua outra filha, para explicar o sentimento de uma família que acabava de perder sua fonte de inspiração. Dorme, dona Clara, o sono das mulheres especiais. Dorme, sob a canção de ninar de seus filhos, que vão embalar as lembranças, nesse colo quente e amoroso da eternidade. Rogai por nós, dona Clara, que precisamos continuar, mesmo com sua ausência, com essa falta que dói no corpo todo, com uma saudade que é quase física, que se cristaliza, como disse sua filha Çãozinha, no dia seguinte à sua partida.

Tudo está no mesmo lugar, os móveis, os adornos e a pintura que Maya encomendou. Coma dignidade de uma rainha, dona Clara, a senhora posou para a artista plástica Amarilis Chaves e ficou lá, altiva, no alto da parede da sala de visitas, sorrindo para todo mundo, como se dissesse que precisava ir embora, que não dava para ficar tanto tempo longe de Duca, seu par pela vida afora, nem sem o primogênito, José Santana Filho, pois ambos partiram antes da senhora. Rogai por nós, dona Clara, que não temos a sabedoria de sobreviver à morte. Rogai por nós, que nada sabemos sobre os mistérios da vida. Quem estava presente à sua despedida secretamente reconheceu: sua luz não se apagou. Apenas está iluminando outro lugar, que pode ter o nome de céu, paraíso, cosmo.

Dorme, dona Clara, sob os acordes dessa sinfonia de sua existência que ninguém conseguirá esquecer, mesmo que a senhora não esteja mais entre nós. Suas notas musicais, dona Clara, estarão para sempre dentro de nós, como o som das estrelas e constelações do universo.

Rogai por seus filhos José Santana Filho, José Carlos, Maria Inês, Maria Izabel, Maria José, Maria Amália, Maria Helena, Maria Elisa, Maria Alice, José Fernando, Maria da Conceição e José Luiz. Rogai por nós, dona Clara, seus filhos do coração, que ficaram órfãos da ternura. Orai por nós, dona Clara, que a cada dia estamos mais sós do lado de cá!

PS: Para dona Clara Carvalho Santana, de 87 anos, que partiu no dia 17 deste mês, num domingo de sol, iluminado como ela.”

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7 Comentários

  • Gabriel Januzzi
    7 de novembro de 2020, 12:28

    Salve Déa, Dona Ephigênia e Dona Clara! O Céu está em festa.

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  • Rachel
    7 de novembro de 2020, 12:44

    Muito tocante a crônica de Dea, como sempre. E relê-la agora não só reaviva a lembrança e a saudade de dona Clara, como faz pensar que devem estar em algum lugar, em um decdo de prosa, jogando conversa fora sobre a vida em Santa Luzia, as notícias da família, as flores e as jabuticabas. Que Deus as proteja, estejam onde estiver.

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    • Alcione GONÇALVES Campos de Souza @Rachel
      8 de novembro de 2020, 20:04

      Minha querida tia Clara só deixou saudades e exemplo de generosidade a todos nós Mãe exemplar tia maravilhosa que Deus à tenha sempre ao seu lado com muita luz e paz amamos você

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  • Nenez
    7 de novembro de 2020, 17:38

    Lindo,doído, emocionante e envaidece, dor!Obrigada Déa!!!!!Esteja bem!

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  • Magda moreira carvalho
    7 de novembro de 2020, 21:06

    Lindo demais

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  • Luzia Werneck
    8 de novembro de 2020, 08:38

    Dona Clara é- sempre foi essa mulher descrita pela nossa querida Déa.
    Rumo às estrelas – Déa encontrará mutas das suas inspirações!!
    Voe em paz, querida com bons e suaves ventos e continue com as belas crônicas agudas sobre o Amor .
    Um beijo – onde quer quer você estja – desejo-lhe Luz e Paz….

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