Minas se mobiliza para proteger os seus museus, entre eles o de Santa Luzia

Minas se mobiliza para proteger os seus museus, entre eles o de Santa Luzia
Fundos do solar onde funcionava o Museu Aurélio Doabella, em frente à Igreja Matriz

Gustavo Werneck, Estado de Minas

Fogo, tristeza e, agora, busca de proteção. No dia seguinte ao incêndio que destruiu grande parte do acervo e do prédio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro (RJ), autoridades de Minas se mobilizam para evitar que o patrimônio estadual siga o mesmo caminho ou sofra com a degradação – no estado, há 430 museus, sendo 125 na Região Metropolitana de Belo Horizonte e 68 na capital. Ontem, o Ministério Público, via Coordenadoria das Promotorias de Justiça de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico (CPPC), começou a fazer um levantamento para verificar o tipo de proteção existente nas edificações que funcionam como equipamento cultural. Já o governo do estado anunciou a realização da Operação Alerta Vermelho pelo Corpo de Bombeiros, com órgãos mineiros ligados ao setor cultural, de patrimônio histórico e de meio ambiente, para fiscalizar equipamentos públicos e orientar sobre a prevenção a incêndios.

No caso da iniciativa do MP, segundo a coordenadora da CPPC, promotora de Justiça Giselle Ribeiro de Oliveira, estão sendo expedidos comunicados às comarcas para que os representantes das promotorias verifiquem a situação dos museus nas cidades e quais são as formas de proteção. A partir das investigações, promotores de Justiça vão elaborar um diagnóstico e propor medidas de salvaguarda aos gestores municipais ou de museus particulares, a fim de fomentar as ações. “Estamos todos chocados com o ocorrido no Rio de Janeiro, acho mesmo que ficamos de luto por perda tão grande”, lamentou Giselle.

No estado, conforme a Superintendência de Museus e Artes Visuais, vinculada à Secretaria de Estado da Cultura, cerca de 20% dos museus estão em situação lamentável quanto à segurança. “A maior parte deles funciona em prédios antigos”, disse a diretora de Ações Museológicas, Ana Werneck, ressaltando que os acervos mais importantes para contar a história de Minas, especificamente sobre o Ciclo do Ouro, estão na Região Central, embora haja expoentes também no Sul de Minas, como em Campanha, e no Vale do Jequitinhonha, a exemplo de Diamantina.

Os especialistas lastimam a grande perda do patrimônio arqueológico, com muitas peças oriundas da Região Cárstica, que tem Lagoa Santa como principal referência. Mas o secretário municipal de Cultura e Patrimônio de Ouro Preto, Zaqueu Astoni Moreira, lembrou que estavam no museu também uma coroa e um cetro do congado, um tambor do século 18 da Igreja Nossa Senhora do Rosário e dois anjos da Igreja das Mercês de Cima, no Centro Histórico da antiga Vila Rica.

Em Ouro Preto, o Corpo de Bombeiros vai intensificar a fiscalização em todos os locais que guardam a memória da cidade, reconhecida como Patrimônio da Humanidade. Haverá bastante trabalho. Conforme apurou o Estado de Minas, o Museu da Inconfidência, por exemplo, ficou com as contas de luz em atraso por 19 meses. O EM entrou em contato com o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), ao qual a unidade está vinculada, mas até o fechamento da edição não obteve resposta. Considerado o segundo museu federal mais visitado do país, atrás apenas do Museu Imperial, em Petrópolis (RJ), o Inconfidência recebe cerca de 150 mil pessoas/ano.

IMPACTOS No interior de Minas, os efeitos da destruição do Museu Nacional foram avassaladores. “Cortou a nossa história na raiz”, disse, com consternação, Álvaro Kelmer, coordenador do Museu Georges Bernanos, em Barbacena, na Região Central. Ele conta que o equipamento cultural, localizado no Bairro Vilela, precisa de reestruturação principalmente no telhado, e que descendentes do escritor francês (Georges Bernanos – 1889-1948), que morou em Barbacena na década de 1940, vão se encarregar dos projetos.

Quem também ficou impressionada – “Não paro de receber telefonemas desde a hora do incêndio” – foi a curadora e diretora Mônica Castello Branco, do Museu Casa Natal de Santos Dumont, em Cabangu, no distrito de Mantiqueira, em Santos Dumont, na Região Central. A casa dedicada à memória do Pai da Aviação tem três pavilhões interditados há 10 anos e está com vários projetos para recuperar o equipamento.

Já em Santa Luzia, na Grande BH, a população não vê a hora de ter de volta o Museu Aurélio Dolabella/Casa da Cultura, fundado em 1962 e há quatro anos fechado. No casarão que abrigava o equipamento cultural, na Praça da Matriz, no Centro Histórico, e que serviu de quartel durante a Revolução de 1842, há toda sorte de problemas. A expectativa é de que, a partir da conclusão dos projetos, neste mês, a licitação seja feita no mês posterior para começo das obras em novembro. O acervo incluindo armas, mobiliário, louças, documentos, quadros e outros objetos do século 19, segundo a Prefeitura, está guardado em local seguro. Clique aqui para ler mais.

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