Clube Icaraí, de história tão importante, chega aos 54 anos quase todo renovado

Clube Icaraí, de história tão importante, chega aos 54 anos quase todo renovado

Luzias, Neise Duarte

Foi em uma reunião, realizada no dia 1º de novembro de 1965, na residência do Dr. Oswaldo Ferreira, situada na Rua Direita, nº 441, que um grupo de ilustres cidadãos trataram da fundação de um novo clube recreativo em Santa Luzia. Participaram desta reunião os senhores Wilson Mariano, José Santana, Waldemar Augusto dos Santos, Luiz Novy Filho, Romeu Dias, Gerson Cândido Diniz, José Cavalieri, Amauri Martins, Ângelo Almeida Viana, Eduardo Fonseca Novy, José Vicente Satiro, José Marques, Helton Guimarães Werneck, José Soares Diniz e Aarão Silva.

O Clube Social Icaraí foi fundado como uma sociedade civil, sem objetivos lucrativos, cuja finalidade era intensificar as relações entre os seus associados, proporcionando-lhes reuniões intelectuais. Sua história está diretamente vinculada à atuação de Dr. Oswaldo Ferreira na cidade de Santa Luzia.

O Icaraí começou a ser restaurado, com a ajuda da comunidade, em 2018

Criado no primeiro mandato de Dr. Oswaldo
Dr. Oswaldo Ferreira (1928- 1986) foi um médico carioca que aportou nas terras luzienses em 1955. Por aproximadamente dois anos, residiu na casa de Duca Santana, que fica na Rua Silva Jardim, nº 151, bem na vizinhança de onde seria construída a sede do Clube Icaraí. Foi neste período que Dr. Oswaldo começou a ter contato com a comunidade da Rua Santa Cruz e seu entorno, destacando-se Dona Geralda Moreira e Romeu Dias. Uma das demandas desta comunidade chamou a atenção do jovem médico: o desejo de frequentar os tradicionais clubes sociais, que eram espaços privilegiados da elite.

O carisma e a popularidade de Dr. Oswaldo Ferreira o conduziram ao cargo de Prefeito Municipal de Santa Luzia por dois mandados, no período de 1967 a 1971 e de 1973 a 1977. A fundação do Clube Social Icaraí ocorreu, portanto, no primeiro mandado de Dr. Oswaldo como prefeito da cidade.

São os filhos de Romeu Dias, Meire e Romeuzinho, que estão à frente dos trabalhos de recuperação do clube

Icaraí: origem do nome escolhido para o novo clube
A própria denominação “Icaraí” está ligada à origem carioca de Dr. Oswaldo Ferreira. A palavra Icarahy, em tupi-guarani, subdivide-se em I (água ou rio) e Carahy (sagrado ou bento). Icaraí significa água ou rio sagrado e dá nome a um bairro da cidade de Niterói, da qual São Gonçalo (cidade natal de Dr. Oswaldo foi desmembrada no final do século XIX). Localizada no bairro de Icaraí, a praia de Icaraí é a mais conhecida de Niterói e está posicionada de frente para o Rio de Janeiro.

Um dos principais atrativos da praia é sua bela vista para o Rio de Janeiro, sendo possível ter uma ampla visão dos mais famosos pontos turísticos do Rio, como o Cristo Redentor e o Bondinho do Pão de Açúcar. Segundo Tereza Maria Ferreira, a filha mais velha de Dr. Oswaldo, foi sua mãe, Dona Nercíria Rodrigues, quem sugeriu a denominação para o clube, numa clara referência ao bairro onde residia em Niterói.

Dr. Oswaldo pediu ajuda à Frimisa
Há um documento muito interessante, datado de 16 de maio de 1966, em que Dr. Oswaldo Ferreira, já como presidente do Clube Social Icaraí, solicitou ao Diretor Financeiro do Frigorífico Frimisa o empréstimo de uma máquina de raspar tacos para realização de serviços na construção da sede do clube, que estava em fase final de acabamento.

Dr. Oswaldo argumentou no documento que “o Clube Icaraí era uma associação recreativa recém fundada, destinado a atender os reclames da classe operária mais humilde, congregando vários operários da empresa”. Também há matéria de jornal da época afirmando que pelo menos um terço do dinheiro gasto com as obras de construção veio do bolso do próprio Dr. Oswaldo.

Três integrantes da primeira diretoria do clube: Werneck, Duca e Mário Santos

Nomes que compunham a primeira diretoria do clube
Segundo informações de Rosemeire de Fátima Dias de Pinho(Meire), filha de Romeu Dias, um dos fundadores do Clube Social Icaraí, sua fundação estaria associada ao fato de que somente a elite da cidade podia frequentar o Clube Social Luziense, que funcionava na Rua Direita. Portanto, a população negra e de menor poder aquisitivo era excluída das atividades culturais que reuniam a sociedade luziense.

A primeira diretoria do Clube, eleita em 1968, era assim constituída: Presidente: Dr. Oswaldo Ferreira, vice-presidente: José Santana(Duca), 1º Secretário: Eduardo Novy, 2º Secretário: Adair Santos, tesoureiro: Batista Silveira, 2º tesoureiro: Amauri Martins, diretores sociais: Romeu Novy e Luiz Mateus Filho. o Conselho Fiscal ficou constituído por José Marques, Raimundo Marques e Aldair Machado Maia.

Duca, Geni e Neném: as três irmãs tão queridas posaram para a foto na cozinha do Icaraí

Escola de Samba Unidos do Icaraí
Embora a sede do Clube Social Icaraí tenha sido edificada na descida do “Campinho” (forma com que os moradores mais antigos se referiam ao bairro São Geraldo), onde a comunidade era predominantemente negra, o espaço em questão funcionou basicamente como local de lazer e recreação, sobretudo para a população que vivia em seu entorno. Contudo, as memórias construídas no Icaraí, desde meados da década de 1960, possuem valor para toda a sociedade luziense.

Um dos capítulos mais interessantes da história do Clube Social Icaraí foi a criação da Escola de Samba Unidos do Icaraí que, segundo informações orais, já existia no início da década de 1970 (Seria outra forma que o Dr. Oswaldo Ferreira teria encontrado para aproximar Santa Luzia do Rio de Janeiro, onde as escolas de samba eram manifestações culturais tradicionais?).

Quem não tem saudade da alegria e do sambar de Hélio?

Argemiro Moreira dos Santos foi durante anos o Mestre Sala da Escola de Samba do Icaraí. Ele conta que os primeiros instrumentos foram produzidos artesanalmente pelos próprios integrantes da Escola de Samba, que revestiam tambores e latas com o couro de animais abatidos na Frimisa. Segue transcrito trecho do texto de Maria das Dores Luz Figueiredo Lima, mais conhecida como Dorinha, que, em tom saudosista, faz menção ao casal de Mestre Sala e Porta Bandeira da Escola de Samba Unidos do Icaraí:

“Oh minha doce e querida Santa Luzia!
Só quem não viu, não tem saudades da gingas e requebros de Marilza do Icaraí, lançando graça e beleza por estas ladeiras em dias de carnaval, de Argemiro, carteiro, a transformar-se em príncipe do samba, um garboso mestre sala, arrancando aplauso na magia das mesuras.
Onde ouvir agora os lamentos dos violões e clarinetas em noites de serenatas?”

A partir da década de 1980, o Clube Social Icaraí entrou em processo de decadência, por isso sua sede foi alugada para Mercearia Paná Ltda, entre 1984 a 1989, ano no qual foi assinado entre as partes um aditivo contratual prorrogando a locação do imóvel até o ano de 1993.

A Escola de Samba Unidos do Icaraí eletrizava os carnavais em Santa Luzia

Contudo, no Carnaval de 1996, a Escola de Samba Unidos do Icaraí estampou as páginas do jornal Estado de Minas, como “a grande campeã de Santa Luzia”. A bateria do Icaraí era o grande destaque nos desfiles e sua memória permanece viva entre os luzienses para os quais carnaval e Clube Icaraí estão profundamente associados.

Início da decadência do clube e das obras de recuperação
A partir do final da década de 1990, o Clube Social Icaraí passou a enfrentar dificuldades que o tornaram praticamente inativo. Os efeitos do declínio logo se manifestaram na sua sede, que entrou em avançado processo de degradação.

Apesar desta situação, em 2008, a diretoria do Clube Icaraí se reuniu com a finalidade de aprovar um novo estatuto e tentar encaminhar providências para o resgate da estrutura física da edificação.

A campanha “Não deixe o samba morrer” mobilizou a comunidade

Em 2018, incentivados pelo Promotor Marcos Paulo de Souza Miranda, membros do Clube Social Icaraí, liderados por Meire e seu irmão, Romeuzinho, emplacaram uma campanha denominada “Não deixe o samba morrer!”, mobilizando a comunidade e colaboradores em prol das obras para reforma da sede do clube.

As obras estão avançando com os recursos angariados pela campanha: o telhado, a cozinha e os banheiros do clube já foram reformados. Eventos, como almoços e bingos, já estão sendo realizados com frequência no próprio clube para incremento da campanha.

O Promotor Marcos Paulo teve papel fundamental na retomada das obras do clube, em 2018

Sendo assim, contando com mais de 50 anos de existência, a história do Clube Social Icaraí continua sendo escrita pela comunidade valente que luta em prol da preservação da memória e de valores identitários que lhes são extremamente caros. A importância do Clube Icaraí ultrapassa a dimensão material, na medida em que se tornou espaço de confraternização, de aprendizagem, de solidariedade e de fortalecimento de vínculos afetivos.

Quando chegou a Santa Luzia, em 1955, Dr. Oswaldo foi morar na casa de José Santana(Duca de Pinha), onde permaneceu por quase dois anos. Foi nesse período que estreitou os laços com a comunidade da Rua da Cruz – Dona Geralda Moreira, Romeu Dias, Biga e tantos outros. Foto: acervo Tereza Maria Ferreira

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2 Comentários

  • M. Juscelina
    9 de agosto de 2019, 20:48

    A Meire de que fala o texto é dona do petshop da rua do Serro?

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