Chega ao fim a restauração de muro histórico do Mosteiro de Macaúbas

Chega ao fim a restauração de muro histórico do Mosteiro de Macaúbas
Junto a autoridades do município, madre Maria Imaculada faz o agradecimento pela recuperação do muro histórico. Foto: Marcos Ikeda

Gustavo Werneck, Estado de Minas

Dia de festa no Mosteiro de Macaúbas, em Santa Luzia, na Grande BH. Neste domingo o arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, dom Walmor Oliveira de Azevedo, participou da cerimônia de conclusão do restauro do muro de proteção da construção colonial de mais de 300 anos e considerada uma das mais importantes do interior do Brasil.

Também na manhã de hoje, dom Walmor celebrou, na capela do convento, missa em ação de graças pela beatificação da Madre Maria de Carmen Lacaba Andía e por 13 freiras mártires espanholas da congregação das concepcionistas à qual pertencem as irmãs de Macaúbas.

OBRA É UM PRESENTE
A celebração religiosa se completou com um evento cultural. Às 11h, foi aberta a exposição sobre o cotidiano de oração e trabalho das freiras. As fotos são assinadas por Marcos Ikeda e Rubens Melo. Na manhã de ontem, a abadessa, madre Maria Imaculada de Jesus Hóstia, que leva adiante a campanha Abrace Macaúbas em parceria com a Associação Cultural Comunitária de Santa Luzia, mostrou o andamento dos serviços. “Estamos muito felizes, pois esse muro é fundamental para preservar esse patrimônio.

“A obra representa um presente”, disse a religiosa, ressaltando que ainda falta recuperar a parte elétrica e a descupinizacão do prédio. Depois de citar o incêndio da Catedral de Notre-Dame de Paris, alvo de muitos recursos para a reconstrução, ela pediu a ajuda de outros beneméritos brasileiros para a campanha que começou em 5 de setembro de 2017.

O restauro da estrutura de adobe, exemplar único na cidade, resulta do entendimento entre o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), por meio do promotor de Justiça da comarca Marcos Paulo de Souza Miranda, a Prefeitura de Santa Luzia e um empreendedor luziense que custeou os R$ 105 mil empregados na intervenção, com duração de três meses. O projeto de restauro foi oferecido pelo Memorial da Arquidiocese de BH. No lançamento da campanha, foi assinado um termo de compromisso entre o MPMG e a municipalidade para garantir a intervenção.

A missa celebrada pelo Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Walmor Oliveira de Azevedo. Foto: Marcos Ikeda

TRÊS SÉCULOS DE HISTÓRIA
Conhecer o Mosteiro de Macaúbas, como é carinhosamente chamado o recolhimento das religiosas concepcionistas, representa experiência única: ali estão 16 freiras, roseiras para fazer vinho, muitas orações e trabalho duro. Na entrada principal, onde se lê a palavra clausura, vê-se em destaque a pintura de um personagem fundamental nesta história tricentenária: o eremita Félix da Costa, que veio da cidade de Penedo (AL), em 1708, pelo Rio São Francisco, na companhia de irmãos e sobrinhos.

Demorou três anos para chegar a Santa Luzia, onde construiu uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição, de quem era devoto. Mas, antes disso, bem no encontro das águas do Velho Chico com o Rio das Velhas, na Barra do Guaicuí, em Várzea da Palma, Região Norte do estado, ele teve a visão de um monge com hábito branco, escapulário, manto azul e chapéu caído nas costas. “Ele se viu ali. Foi o ponto de partida para a fundação do Recolhimento de Macaúbas”, conta a madre superiora, explicando que o quadro e uma estátua de Félix da Costa foram feitos no século passado por uma irmã concepcionista.

No século 18, quando as ordens religiosas estavam proibidas de se instalar nas regiões de mineração por ordem da coroa portuguesa, para que o ouro e os diamantes não fossem desviados para a Igreja, havia apenas dois recolhimentos femininos em Minas: além de Macaúbas, em Chapada do Norte, no Vale do Jequitinhonha.

Conforme os estudos, tais espaços recebiam mulheres de várias origens, as quais podiam solicitar reclusão definitiva ou passageira. Havia, portanto, uma complexidade e diversidade de tipos de reclusas, devido à falta de estabelecimentos específicos para suprir as necessidades delas. Assim, os locais abrigavam meninas e mulheres adultas, órfãs, pensionistas, devotas, algumas que se estabeleciam temporariamente, para “guardar a honra”, enquanto maridos e pais estavam ausentes da colônia, ou ainda como refúgio para aquelas consideradas desonradas pela sociedade da época.

A bonita capela do Mosteiro decorada para a ocasião – Foto: Marcos Ikeda

Na época do recolhimento, Macaúbas recebeu figuras ilustres, como as filhas da escrava alforriada Chica da Silva, que vivia com o contratador de diamantes João Fernandes. A casa na qual Chica se hospedava fica ao lado do convento. Como parte do pagamento do dote das filhas, Fernandes mandou construir, entre 1767 e 1768, a chamada Ala do Serro, com mirante e 10 celas (quartos para as religiosas). Em 1770, o mestre de campo Ignácio Correa Pamplona assinou contrato para construir a ala da direita da sacristia (Retiro), igualmente dividida em celas. A construção tem ainda as alas da Imaculada Conceição, Félix da Costa (a mais antiga) e a de Santa Beatriz, onde se encontra o noviciado do mosteiro.

Em 1847, o recolhimento passou a funcionar também como colégio, tornando-se um dos mais tradicionais de Minas. Essa situação durou até as primeiras décadas do século 20, quando a escola entrou em decadência, devido à chegada de congregações religiosas europeias com grande experiência na educação de meninas. O tempo passou até que, em 1933, a construção passou a abrigar o mosteiro da Ordem da Imaculada Conceição.

Nessa história, um dos principais nomes é o da irmã Maria da Glória, que ficou mais de duas décadas doente sobre uma cama e morreu em 21 de janeiro de 1986. Muitos católicos atribuem à intercessão da freira diversas graças alcançadas. Em 1965, a extinta revista O Cruzeiro, dos Diários Associados, documentou momentos do cotidiano no mosteiro: as irmãs lavando roupas ou caminhando pelo pátio e a imponente construção colonial em meio ao coqueiral. Muito tempo depois, o Estado de Minas registrou a irmã Maria da Glória, enferma, acompanhada de outra religiosa.

Muro tem terra de formigueiro
O serviço de restauração esteve a cargo do Instituto Yara Tupynambá, que trabalhou com mão de obra local na produção de cerca de 1,2 mil tijolos de adobe artesanais para 150 metros lineares da estrutura. “Usamos o sistema construtivo da época, com barro, capim e terra de formigueiro”, conta o presidente da entidade, José Theobaldo Júnior. “Há partes muito danificadas, outras faltando os tijolos. No final, revestimos com reboco natural, toda a superfície do muro”, explicou.

O histórico muro, no alto, à direita, finalmente, pronto. Foto: Marcos Ikeda

Para garantir a segurança da equipe e o sucesso da empreitada, os trabalhadores passaram por treinamento e capacitação profissional, além de aprendizado sobre técnicas de prevenção contra incêndio. O secretário de Cultura de Santa Luzia, Ulisses Brasileiro, apoiou a iniciativa e lembrou que se trata de uma reivindicação antiga da comunidade luziense, e que outros projetos de preservação estão nos planos da atual administração.

já o presidente da Associação Cultural Comunitária de Santa Luzia, Adalberto Mateus, destaca a imponência da construção. “Trata-se de um muro de adobe assentado sobre um grande alicerce de pedras encaixadas e com acabamento na cobertura em beira-seveira – exemplar único na cidade. Sem dúvidas, é um importante testemunho das técnicas construtivas do período colonial e que ajuda a contar a nossa história”, destacou.

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