Mesmo com essa pandemia, viveríamos melhor se pensássemos mais nos outros

Mesmo com essa pandemia, viveríamos melhor se pensássemos mais nos outros
A praça do Boa Esperança ficava assim até há pouco tempo, com muita gente sem máscara. Os moradores reclamaram e a Prefeitura interditou o local. Foto: Fabrício Costa

Carolina Costa, Luzias

Lembro-me de minha tia, há tempos, reclamar que morar no Brasil era muito difícil, pois nós brasileiros não pensamos uns nos outros e, nesse sentido, somos muito mal educados. Na época, fiquei pensando o que poderia significar não ser bem educado. Na minha cabeça de adolescente vieram coisas do tipo jogar lixo na rua, falar alto, desrespeitar o próximo, fazer com o vizinho o que não quer que o vizinho faça com você, e até falar palavrões. Enfim, algumas coisas que eu mesma poderia fazer sem nem saber que contribuía para a falta de educação generalizada.

Durante muito tempo, fiquei com isso na cabeça. Cheguei até a pensar em morar fora, num desses países que chamam de civilizados. Como fazia aulas de inglês desde sempre, já era meio caminho andado para deixar o Brasil.

Mas vieram os ataques de 11 de setembro de 2001 contra os Estados Unidos, que mudaram tudo e marcaram para sempre a minha memória. Eu estava saindo do ensino médio e, por isso, já tinha uma visão melhor do mundo. Aqueles ataques foram o ponto de partida para a desconstrução da minha ideia de morar lá fora. E serviram para inverter meu sentimento: fiquei com uma sensação de alívio por morar no Brasil, já que nós temos nossos problemas graves, mas não disputas tão acirradas envolvendo religião e riquezas.

A partir daí, comecei a olhar o nosso país com outros olhos. Aqueles que fazem vistas grossas para nossas mazelas e exaltam nossas qualidades, a nossa riqueza: culinária, natureza, hospitalidade, liberdade religiosa, a língua e os sotaques nem se fala. Comecei a prestar atenção mais no que temos de bom, de positivo, do que nas nossas falhas. Mas preciso confessar que ainda me irrita muito a displicência, a desconsideração com que muitas pessoas tratam as outras.

Aqui, em Santa Luzia, longe do estrangeiro e dos ataques terroristas, estou dentro de casa todos os dias, o dia todo, de quarentena, e tenho bastante tempo de observar a falta de educação alheia. A primeira delas é clássica, infelizmente: o famoso “botar fogo em lote vago”, uma irresponsabilidade que só perde para as pracinhas lotadas, em plena pandemia.

Outro fato que perturba: a toda hora tenho que interromper o que estou fazendo para atender as buzinas altas de motos e de carros chamando lá fora. Lembro do meu pai apertando sempre a buzina estridente para anunciar sua chegada à casa das pessoas. Às vezes, buzinava da esquina para avisar que estava chegando. Minha irmã, com toda a sua bondade e educação, puxou ao meu pai: chega aqui em casa parecendo que o mundo está acabando, avisando a vizinhança inteira. Penso nas inúmeras vezes que eu também buzinei, por pura preguiça de ir tocar a campainha.

O pior é que em 90% das vezes que corro ao portão, a buzina é para chamar o vizinho. E eu sempre penso: o que custa a pessoa descer do carro e apertar a campainha? É verdade que a casa do vizinho não tem a danada da campainha. Só a minha. Mas ninguém usa. Tudo é tudo feito na base do grito ou da buzina estridente mesmo, sem se preocupar se está incomodando..

Estas são reflexões que faço enquanto vou realizando as intermináveis tarefas domésticas, com a garganta ardendo por causa da fumaça que vem de um lote aqui perto.E irritada com o barulho constante das buzinas. Certamente viveríamos melhor, mesmo com a pandemia e toda a incerteza que experimentamos neste momento, se não pensássemos somente em nós mesmos e levássemos sempre os outros em consideração. O nome disso é civilidade.

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1 Comentário

  • Maria Elisa santana
    12 de julho de 2020, 22:56

    Carol, penso que nem você. Na realidade, se as pessoas se respeitassem naturalmente respeitariam as outras pessoas. Enquanto isto nao acontece, cuide de sua garganta, ouvidos e tente amenizar as dores de cabeça. Sigamos.❤

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