Um luziense centenário ilumina a história de BH

Um luziense centenário ilumina a história de BH
Ainda na ativa e com muitos serviços para entregar, Alfredo tem ótima memória. Foto: LEANDRO COURI/EM/D.A PRESS

Gustavo Werneck

Estado de Minas

Dois tempos da história da capital  – um perdido, outro em busca de reparação – ganham as luzes da atualidade com o pacote de intervenções, prometido pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), para deixar a região central da capital mais bonita e com melhores opções de mobilidade, lazer, cultura, desenvolvimento , segurança. O primeiro tempo, o prédio dos Correios e Telégrafos, na Avenida Afonso Pena na esquina com a Rua Tamoios, saiu de cena no início da década de 1940, para dar lugar às duas torres Edifício Novo Sul América (Sulacap). Só existe em algumas lembranças e arquivos.

Com o projeto “Centro de todo mundo”, vem o segundo tempo nessa história, pois deverá ser demolido um acréscimo feito no Sulacap na década de 1970. Conforme a PBH informou ontem, a Justiça designou um perito para estimar o valor do imóvel. Repudiado por muitos arquitetos e urbanistas e considerado um corpo estranho no Sulacap, o anexo dará espaço à Praça da Independência em integração ao Viaduto Santa Tereza. Como já ressaltou, o prefeito Fuad Noman segue firme no seu propósito de demolir o “puxadinho”.  

O retrato de 1935, do acervo do Museu Histórico Abílio Barreto, mostra a beleza do prédio em estilo eclético dos Correios e Telégrafos, cuja construção começou em 1904.  De acordo com documento da Fundação Municipal de Cultura/PBH, o local onde se ergueu o Sulacap “foi pensado, originalmente, para ser a Praça Tiradentes, que, junto a mais três praças, demarcaria as arestas do Parque Municipal”. No entanto, o projeto foi posto de lado – “o Parque Municipal perdeu mais da metade da sua área verde, juntamente com as quatro praças que foram ocupadas por construções.”

MEMÓRIA DE OURO Quem se lembra dos Correios e Telégrafos é o sapateiro Alfredo Pereira de Souza, que completou neste 25 de maio 100 anos. “Belo Horizonte perdeu muito do seu patrimônio, e esse é um deles. Lembro bem dos estafetas entrando e saindo no prédio da Afonso Pena”, conta Alfredo, a lucidez em pessoa, referindo-se aos entregadores de telegramas em priscas eras.

Ainda na ativa e com muitos serviços para entregar, Alfredo teve muitos outros ofícios, além do de sapateiro, quando morou na capital entre as décadas de 1930 e meados de 1970, antes de voltar definitivamente para Santa Luzia, na Grande BH. Impressionante ver a vitalidade e ouvir as tiradas bem-humoradas do mineiro centenário, que é viúvo há 12 anos, e tem oito filhos, 17 netos, quatro bisnetos e um trisneto a caminho.

Sapateiro foi primeira profissão do senhor de cabelos fartos e longos que, na infância, catou coco para vender à Saboaria Santa Luzia, então existente no Bairro da Ponte, na tricentenária cidade vizinha da capital. Em BH, lutou judô durante oito anos, conheceu detalhadamente a cidade como taxista (década de 1950), trabalhou em fábrica de perneira, foi dono de restaurante e viu de perto cada canto. Ele cita antigos estabelecimentos como Cantina Soçaite e Garfo de Ouro e a famosa gafieira Elite. “Vi os bondes, a Praça Sete com outra forma, enfim, outros tempos da capital. Agradeço a Deus por tudo, sou feliz e peço o melhor para meus filhos e descendentes. Um dos filhos, o Roberto, me telefona todos os dias. Fico satisfeito demais!”, diz o morador da Rua Santana, no Centro Histórico, segurando, na entrada de casa, uma foto ampliada do antigo monumento de BH.

Pesquisador da história de BH, com textos e imagens disponíveis no site www.curraldelrey.com, o professor de geografia e história Alessandro Borsagli informa que a capital mineira tem essa característica de construção, demolição e reconstrução, e, nessa trajetória, perdeu muitas edificações importantes. “O antigo correio, especificamente, durou apenas quatro décadas”, diz o pesquisador atento ao processo de urbanização sob a ótica histórica.

CORTA-VENTO Não muito longe da Casa de Alfredo, está a porta do antigo prédio dos Correios e Telégrafos de BH. De madeira entalhada, com o detalhe de uma menina colocando uma carta na caixa do correio, ela pode ser vista na Igreja do Rosário, do século 18, construída pelos escravizados  e localizada na área tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha) e pelo município. O pároco e reitor do Santuário Arquidiocesano Santa luzia, padre Felipe de Lemos Queirós, explica que a peça de madeira maciça, instalada no interior do templo, logo após a entrada principal, atua como corta-vento, um anteparo comum em igrejas para proteger o ambiente das correntes de ar.

A história da porta saiu de BH e passou por Barbacena, na Região Central de Minas, até chegar a Santa Luzia. A doação à Igreja do Rosário, vinculada ao Santuário Arquidiocesano Santa Luzia, ocorreu há 21 anos, pelas mãos do engenheiro Joāo Alfredo de Castilho (1917-2002), nascido em BH e de família luziense. Quando o prédio dos Correios e Telégrafos foi demolido, um amigo, tudo indica belga (a exemplo da procedência da porta), foi à Fazenda Campo Verde, em Barbacena, para vender a peça. Se não conseguisse seu intento, pois tentara o mesmo em um museu, em BH, sem sucesso, a porta retornaria à Bélgica.

João Alfredo, proprietário da fazenda, comprou a porta, ofereceu em doação a um museu e também aos Correios, igualmente sem sucesso.  Assim, colocou-a na capelinha que construíra na Campo Verde, de onde foi retirada apenas ao vender a propriedade. Guardou, preservou e doou.

HISTÓRIA Em 1904, o espaço onde seria implantada a Praça Tiradentes – e onde hoje se encontra o Edifício Novo Sul América (Sulacap) –, foi escolhido pelo governo federal para receber o edifício dos Correios, inaugurado dois anos mais tarde. “Embora o majestoso prédio de arquitetura eclética tenha se tornado um dos símbolos da nova capital, em função da sua beleza, ele marcou, também, o início do processo de ocupação dos ‘vazios’ da nossa cidade”, conforme documento do Museu Histórico Abílio Barreto.

Entre as décadas de 1920 e 1940, BH passou por um surto de crescimento econômico, mudando o perfil da então cidade administrativa para o de polo comercial e industrial de Minas Gerais. Em consequência, iniciou-se a verticalização da área central da cidade, paralelamente ao processo de substituição das edificações, fenômeno. “A avenida Afonso Pena, um dos mais importantes eixos de articulação urbana, será alvo dessa substituição que atingiu até mesmo edificações de grande porte e de referência, como o antigo edifício sede dos Correios. Assim, em 1938, a Companhia de Seguros Sul América adquiriu em hasta pública o terreno da prefeitura, onde se encontrava edificado o palacete dos Correios e Telégrafos. Para a construção do Conjunto Sulacap-Sulamérica, projetado pelo arquiteto italiano Roberto Capello, chefe do Departamento Técnico da Sul América, foi realizada a demolição do antigo palacete. 

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TEMPO PERDIDO…

– Antigo prédio dos Correios e Telégrafos de Belo Horizonte ficava na Avenida Afonso Pena, no Centro

– A construção foi iniciada em 1904, com inauguração em 1906

– Arquitetura era em estilo eclético

– Demolido no início da década de 1940

…E EM BUSCA DE REPARAÇÃO

– No local do prédio dos Correios e Telégrafos, foi construído o Edifício Novo Sul América (Sulacap)

– Projetado pelo arquiteto Roberto Capello, o conjunto em estilo art déco foi inaugurado em 1946

– Na década de 1970, recebeu um anexo, interferindo na integração das torres com o Viaduto Santa Tereza

– Com o projeto Centro de todo mundo, a Prefeitura de BH pretende demolir o anexo, implantar Praça da Independência e trazer de volta os jardins.

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