Natal: os Massara mostram toda a sua solidariedade com famílias mais carentes

Natal: os Massara mostram toda a sua solidariedade com famílias mais carentes
Lúcia repete a histórica foto de Naninha, que começou o trabalho solidário ainda na década de 1940. Fotos: Beto Mateus

Beto Mateus, Luzias

Um dos muitos sentimentos despertados pela pandemia foi o da empatia e da solidariedade com o próximo. Mas esse espírito já está presente na Rua do Comércio, 427, há mais de 70 anos. Dando continuidade ao espírito solidário e a ação social de sua tia, Mariana de Carvalho Massara – Naninha (1910/2000), a advogada luziense Lúcia Massara organizou na manhã deste sábado(12), o Natal Solidário da família Massara.

Sempre no segundo sábado do mês de dezembro, a advogada abre as portas do centenário casarão e dá início a uma corrente de amor e solidariedade, beneficiando dezenas de famílias da cidade. “Minha tia sempre mobilizou os recursos para fazer a doação de alimentos aos necessitados. Como era muito ligada a ela, fui, pouco a pouco, com o apoio de toda a família, assumindo a organização logística da preparação e distribuição das cestas básicas”, conta Lúcia, passando os olhos em um caderno com o mapa das áreas e instituições alcançadas pelo benefício. Há mais de duas décadas ela comanda os trabalhos.

HERANÇA DE NANINHA

É importante destacar que o foco da ação está em uma distribuição direcionada a instituições e líderes comunitários, que recebem as cestas e, em seguida, encaminham às famílias necessitadas. “Santa Luzia cresceu muito. Hoje, já não consigo conhecer todas as famílias que podem receber essa assistência”, explica a advogada, que mudou-se para Belo Horizonte em 1965, mas sempre cultivou os laços com a cidade. Além da distribuição das cestas, no inverno, a família se encarrega da distribuição de cobertores, outro legado de Naninha.

O Natal Solidário sempre é realizado na chamada Casa Massara, importante exemplar da arquitetura eclética do patrimônio cultural local, onde se reúnem as várias gerações da família de Giuseppe Massara – Pepe (1882-1949), italiano radicado em Santa Luzia na virada do século XIX para o XX.

Em tempos de pandemia, um número menor de familiares e amigos se juntaram em 2020. Normalmente, são dezenas de familiares que se desdobram nos trabalhos de montagem das cestas e de distribuição

Em 2020, em razão das medidas de isolamento social, a festa foi reduzida. Mas não perdeu a importância. De acordo com o biólogo Cristiano Massara, o encontro, que antecede o Natal, une os familiares. Há foguetes e, ao final, todos participam de um almoço: “Mantemos essa herança italiana de alegria, comemoração e união. Mas é preciso termos cautela diante da gravidade do momento,” diz ele.

Já Lúcia explica que “todos da família ligaram para saber se a distribuição aconteceria. Mas, para evitar a aglomeração, montamos as cestas ao longo da semana e, hoje, poucos familiares, entre eles meu irmão Francisco, estão aqui para levar as doações a quem precisa.” Lúciaacompanha todo o trabalho, desde a compra dos alimentos, à cargo do primo Cláudio, até a etapa final, que é a entrega em diversos pontos da cidade.

UM CASARÃO DE HISTÓRIAS

Conduzidos por Lúcia ao interior do casarão, erguido em 1905, às margens da estrada ferroviária que corta o bairro da Ponte, fazemos uma viagem no tempo e sentimos o espírito de união e alegria. Na casa, nasceram os 11 filhos do casal Giuseppe e Laurinda, dentre eles América (Miquita) e Ítalo, homenagens prestadasao continente que o acolheu e ao país de origem do jovem, que chegou ao Brasil bem novo, com cerca de vinte anos de idade.

No corredor, Lúcia aponta o quarto que era ocupado pela tia, “onde eu tinha permissão para entrar.” E relembra os tempos de criança, no amplo quintal de árvores frutíferas, um verdadeiro oásis de tranquilidade em pleno centro comercial da Ponte.

Naninha Massara (1910/2000), trabalho incansável para ajudar os moradores da cidade mais carentes

Bem conservado, o casarão mostra as marcas do tempo no desgaste da soleira de pedra da porta de duas partes, comprovando que a mesma ficava sempre entreaberta. O piso original da casa não resistiu à umidade do terreno e exigiu substituição.

Na lateral, Lúcia aponta, mesmo que imperceptíveis, intervenções estruturais que foram necessárias para manter a casa de pé. Mas,o intenso fluxo de caminhões pesados abalam as pareces mais que centenárias.

COMPROMETIDA COM O PATRIMÔNIO

Recentemente, a advogada foi questionada sobre a obra que realizou na casa, o que expõe as contradições no processo de preservação do nosso patrimônio cultural. Ao conversar com Lúcia, fica muito claro o seu carinho por Santa Luzia, o seu compromisso com o patrimônio que, além de afetivo-familiar, se estende a toda a cidade.

Lúcia sempre cultivou os laços com Santa Luzia, onde viveu na juventude

O caminhão que transporta as cestas novamente estaciona em frente ao casarão, depois de uma rodada de entregas. Lúcia vem à porta, confere tudo e o trabalho prossegue. Com a entrega das cestas ainda em andamento, a advogada fala do Natal do ano que vem, quando “esperamos estarmos todos juntos”.

Na casa italiana-luziense a alegria se renova e a solidariedade, que já é parte da história da família Massara, marca, uma vez mais, a sua presença, no mais genuíno espírito natalino.

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