Incêndio no Museu Nacional é alerta para quem (não) cuida do nosso patrimônio

Incêndio no Museu Nacional é alerta para quem (não) cuida do nosso patrimônio
O prédio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, sendo consumido pelo incêndio

Luzias

O incêndio que consumiu inteiramente o Museu Nacional do Rio de Janeiro, na noite deste domingo, 02 de setembro, transformando em cinza 200 anos de História, serve de alerta para todos os responsáveis pelo patrimônio histórico e artístico no Brasil. Em Santa Luzia, temos um grande exemplo de como, durante tantos anos, as autoridades vêm negligenciando o nosso patrimônio. Basta dizer que o Museu Aurélio Dolabella, único na cidade, instalado no solar que serviu de quartel general para Teófilo Otoni e seus rebeldes, na Revolução de 1842, está fechado desde 2014. E, depois de quatro anos, não há quem saiba dizer em que estado se encontram as peças que compunham o seu acervo.

Quando teve as suas portas fechadas, em 2014, na administração de Carlos Calixto, a justificativa para a medida era que seriam realizadas obras de restauração no velho casarão do século 18, tombado em nível municipal, estadual e federal, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. As peças que compunham o museu foram retiradas e embaladas sem a presença de alguém especializado e levadas para a casa da Fazenda Boa Esperança, onde permanecem até hoje, sem qualquer manutenção.

O velho solar, construído no século 18, onde funcionava o Museu, permanece fechado

Assim que venceu as eleições de 24 de junho, o Prefeito Christiano Xavier prometeu que reabriria o museu, também conhecido como Casa da Cultura, até o final deste ano. Em entrevista que concedeu ao Luzias, o secretário de Cultura, Ulisses Brasileiro, voltou a repetir a promessa, afirmando que todos os esforços estão sendo feitos para que o Museu seja novamente aberto à população até dezembro.

Pura negligência

Difícil imaginar alguém que não tenha se emocionado ao ver as labaredas devorando o casarão que abrigava o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, inaugurado por Dom João VI, em 1818. Antes da indignação, da revolta, veio um sentimento de horror ao constatar que eram as próprias obras do acervo que alimentavam as chamas vorazes e incontroláveis. Durante horas e horas os bombeiros tentaram, em vão, debelar o incêndio. Só conseguiram de madrugada, quando praticamente tudo lá dentro já havia se transformado em carvão. O carioca, que já anda tão desassistido e assustado com o verdadeiro desmanche ocorrendo no estado, teve que engolir as explicações e pedidos de desculpas das autoridades, que sempre vêm para justificar a incompetência, ignorância e pouco caso no trato do bem público.

Luzia, o fóssil humano mais antigo das Américas, encontrado em Pedro Leopoldo

Só para relembrar a dimensão da tragédia, as chamas engoliram para sempre o primeiro dinossauro montado no Brasil e o mais antigo fóssil humano – Luzia, encontrada em 1974, em Pedro Leopoldo, não muito distante do Aeroporto de Confins -, assim como coleções de geologia, paleontologia, botânica, zoologia, antropologia biológica, arqueologia e etnologia, num total de 20 milhões de itens. Entre suas peças de valor inestimável estão a primeira coleção de múmias egípcias da América Latina e o Bendegó, o maior meteorito já encontrado no Brasil, achado no sertão da Bahia no século 18, com cinco toneladas. (Ainda não se sabe, mas pode ter sobrevivido ao incêndio). A história dos povos indígenas também faz parte do acervo do museu, inclusive uma coleção de trajes usados em cerimônias dos índios brasileiros há mais de cem anos. Não há como avaliar o que perdemos.

Veja o que restou do importante Museu Nacional

Descaso com a Cultura e a História
No caso de Santa Luzia, há um bom tempo a cidade vem perdendo sua importância política e cultural. Com Carlos Calixto, morto em janeiro de 2016, em pouco mais de dois anos, tivemos cinco prefeitos. Todas as áreas, já negligenciadas, sofreram ainda mais nesse período tumultuado da vida política luziense – saúde, educação, transporte público, saneamento, expansão imobiliária. A vida cultural na cidade, que desde o fim da administração Dr. Oswaldo nunca mais foi grandes coisas, simplesmente acabou. Esses últimos prefeitos ignoraram solenemente os anseios da população e deram uma grande contribuição para o empobrecimento de Santa Luzia, em todos os sentidos.

Será como estão as peças do Museu Aurélio Dolabella, depois de quatro anos?

A esperança de uma guinada nessa situação desoladora reside no Prefeito Christiano Xavier. Hoje, segunda-feira, 03 de setembro, completa exatamente um mês que ele fechou a Prefeitura por 120 dias “para balanço”. A população aguarda ansiosa o término desse período. Nunca Santa Luzia precisou tanto de um administrador realmente interessado em melhorar a cidade e a vida de seus moradores.

Veja o comentário do jornalista Gustavo Werneck, especialista em patrimônio público, para o jornal Estado de Minas:

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