Começam estudos para retirar o asfalto da Rua Direita e restaurar calçamento antigo

Começam estudos para retirar o asfalto da Rua Direita e restaurar calçamento antigo
Os trabalhos de remoção da densa camada de asfalto em frente ao solar da Baronesa. Foto: Marco Aurélio Fonseca

Gustavo Werneck, Estado de Minas

Janela aberta para a história, a preservação do patrimônio e o resgate de uma antiga tradição das cidades coloniais mineiras. Em cumprimento à lei de 15 de abril de 2013, que aprovou o Plano Municipal de Cultura, a Prefeitura de Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, começou, ontem, a retirar camadas de asfalto da Rua Direita, no Centro Histórico, para revelar o calçamento de pedra original. Os trabalhos são feitos sob supervisão de uma arqueóloga, com acompanhamento de equipe do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha-MG) e da Secretaria Municipal de Cultura. “A retirada do asfalto deveria ter ocorrido até o fim do ano passado, em cumprimento à lei, por isso instauramos o procedimento para que a prefeitura tome as providências”, disse ontem o promotor de Justiça da comarca, Marcos Paulo de Souza Miranda.

A retirada de trechos do asfaltamento feito originalmente no início da década de 1960 começou com recortes de dois metros por um, para prospecção. Segundo o representante do MP, a remoção da camada que cobre parte da história da cidade nascida no Ciclo do Ouro será gradativa. Além de valorizar os casarões dos séculos 18 e 19, igrejas barrocas e capelas, o calçamento deverá fortalecer o turismo e valorizar o acervo. “A Rua Direita é uma das mais bonitas de Minas. Há cidades, como Diamantina, que preservaram o calçamento – e, nesse caso, a cidade do Vale do Jequitinhonha se tornou inclusive patrimônio da humanidade”, destacou o promotor de Justiça. Ressaltando que a camada poderá ser retirada na totalidade ou em trechos específicos, Souza Miranda disse que a iniciativa servirá para frear o excesso de velocidade dos carros que trafegam naquele trecho do Centro Histórico.

Acompanhando a primeira intervenção, que deixou parte do calçamento à vista em frente ao Solar da Baronesa, o secretário municipal de Cultura, Ulisses Brasileiro, contou que ver a rua sem a camada de asfalto é sonho antigo. “A cidade tem um conjunto arquitetônico admirável, e esse tipo de pavimentação asfáltica não combina com a arquitetura. Temos uma arqueóloga na nossa secretaria e, com os estudos a serem ainda realizados, acreditamos que o calçamento vai retornar”, disse o representante da prefeitura. Ele adiantou que, na sequência, serão abertas outras “janelas” ou prospecções em quatro pontos: em frente à Capela do Bonfim, à Igreja do Rosário, à Escola Estadual Modestino Gonçalves e ao Santuário de Santa Luzia e Casa de Cultura, na Praça da Matriz.

Veja as pedras escondidas embaixo da densa camada de asfalto. Foto: Marco Aurélio Fonseca

ESCAVAÇÃO

A arqueóloga da prefeitura local, Giuliana Castiglioni, explicou que foi retirada uma camada de asfalto com espessura de nove centímetros. “Nosso objetivo é verificar se há calçamento mais profundo, por isso, dividimos a área de dois metros por um metro em três seções iguais. Na primeira estão as pedras, na segunda encontramos a terra e, na terceira, vamos descer mais fundo para tentar achar outro calçamento”, disse Giuliana, que faz seu primeiro trabalho em centro urbano. A partir dos estudos iniciais serão feitas as próximas prospecções.

Ao lado, a arquiteta Helena Alves, da Gerência de Projetos e Obras do Iepha-MG, explicou que serão realizados estudos sobre a viabilidade de remoção do asfalto em toda a extensão da Rua Direita, a mais importante do Centro Histórico de Santa Luzia, tombado pela instituição desde 1998 e também sob proteção do município. Se houver pavimentação de pedra muito abaixo da superfície, as equipes e autoridades terão que avaliar com critério a situação, tendo em vista a base das construções, garagens e outros acessos às casas e sobrados. O arqueólogo do Iepha Fabiano Lopes de Paula também vai integrar a equipe que faz as escavações.

Para o presidente da Associação Cultural Comunitária de Santa Luzia, Adalberto Andrade Mateus, o serviço é mais do que oportuno. “A maior crítica dos visitantes e pesquisadores que vêm aqui recai sobre a incompatibilidade entre o asfalto e as edificações. Outro problema sério está na velocidade dos carros”, acrescenta. Ele esclarece que há trechos, como diante do Solar da Baronesa, da década de 1930; bem anteriores, do início do século 20, perto da Rua do Bonfim, conforme fotos de 1905; e do século 19, no entorno da Praça da Matriz.

A Rua Direita calçada com pedra, no trecho próximo ao Solar da Baronesa

Moradora da Rua Direita, a aposentada Luzia Vieira se lembra da pavimentação poliédrica na década de 1930, quando era prefeito Emílio Bernardo Zeymer. “Mas em outros trechos não havia pedra, era tudo cascalho mesmo. Eu mesma morava em um pedaço da rua que não tinha calçamento”, afirma a senhora, que foi testemunha fundamental na elucidação de um caso célebre, ocorrido há 16 anos: a recuperação de três peças do século 18, pertencentes à Matriz de Santa Luzia e que iriam a leilão no Rio de Janeiro (RJ). “Estou achando tudo ótimo”, comemorou.

A volta do calçamento, no entanto, não agrada a todos. Com escritório a poucos metros do trabalho arqueológico, o advogado Adolfo Silva Júnior, luziense, considerara “ruim” o projeto. “Vejam o caso de Ouro Preto, onde os carros têm uma série de problemas devido às pedras. E mais: o trânsito pesado já está deteriorando o Centro Histórico e causando trincas nas casas. O poder público não fez nada para proibir isso”, ressaltou.

Para conscientização, o promotor de Justiça Souza Miranda não descarta uma reunião com os moradores do Centro Histórico para explicar a iniciativa. “A volta do calçamento não é um retrocesso, pelo contrário. Estamos cumprindo a lei, pois a retirada do asfalto foi contemplada no Plano Municipal de Cultura, em 2013”, reiterou.

Com o asfalto, a principal rua do Centro Histórico perdeu muito da sua identidade original

Banhada pelo Rio das Velhas, Santa Luzia tem mais de 300 anos de história e foi palco de episódios importantes na história do Brasil, como a Revolução de 1842. O último combate se deu no local denominado Muro de Pedras, e opôs tropas do Exército, chefiadas por Luís Alves de Lima e Silva (1803-1880), o Duque de Caxias, e os liberais sob o comando do mineiro Teófilo Otoni (1807-1869).

Um dos pontos de prospecção em busca do antigo calçamento será a Praça da Matriz, onde fica o prédio da Casa da Cultura/Museu Histórico Aurélio Dolabella, que, conforme pesquisas recentes, teria sido hospital para os feridos no conflito de 1842. Como parte das celebrações cívicas da revolução, que terminou em 20 de agosto, haverá amanhã, das 10h às 12h, na sede do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (IHGMG), em BH, a mesa-redonda “Revoltas Liberais de 1842, em São Paulo e Minas Gerais”, sob coordenação do desembargador Marcos Henrique Caldeira Brant e palestras do presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Sorocaba (SP), Adilson Cezar, do promotor de Justiça Marcos Paulo de Souza Miranda e do também integrante do IHGMG Adalberto Mateus. O instituto fica na Rua Guajajaras, 1.268, no Bairro Santo Agostinho, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte.

Caminho trilhado por Santa Bárbara

Assentamento de pedras na região central da cidade de Santa Bárbara. Foto: Beto Novais/EM/DA Press – 9/2/09

As ruas calçadas de pedras são um charme a mais no Centro das cidades mineiras de passado colonial, a exemplo de Ouro Preto, Mariana, Tiradentes, Diamantina e outras de destaque do Circuito do Ouro. Em 2011, o então prefeito de Santa Bárbara, na Região Central, Toninho Timbira, concluiu um projeto de requalificação do núcleo central, iniciado havia três anos, com o objetivo de que a cidade recuperasse sua beleza e tornar a história mais viva. O projeto contemplou ainda a restauração das praças da Matriz e da Igreja do Rosário e ainda a troca de todo o calçamento no entorno da Praça Cleves de Faria (em frente à prefeitura e à Matriz de Santo Antônio) e ruas Governador Valadares, Conselheiro Afonso Pena, Rabelo Horta, Estação e a que fica atrás da cadeia.

No resgate de suas características originais, o Centro Histórico de Santa Bárbara recebeu uma série de ações que demandaram investimentos, em valores da época de R$ 3,5 milhões, divididos entre a prefeitura e o governo federal. Entre as intervenções houve a construção de nova avenida para receber o trânsito pesado, já que a circulação de caminhões e outros veículos agredia e estava abalando a estrutura dos principais monumentos, como a Igreja Matriz de Santo Antônio, a Casa da Cultura, o prédio da prefeitura, a Igreja do Rosário, o Hotel Quadrado e outros imóveis de relevância.

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1 Comentário

  • Tania satiro
    30 de agosto de 2019, 17:50

    Que ideia maravilhosa!

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