Marilu Tibúrcio, mulher extraordinária – uma luziense muito à frente do seu tempo

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  • 4 de junho de 2018
Marilu Tibúrcio, mulher extraordinária – uma luziense muito à frente do seu tempo
Filha de poeta, ela foi uma espécie de embaixadora da cultura de Santa Luzia - Foto: Luiz Fernando Ferreira

Luzias

Neste domingo, 3 de junho, Santa Luzia lembrou com tristeza os seis anos da morte de Maria Luzia Tibúrcio de Oliveira, ou Marilu, como era chamada por todos que tiveram o privilégio de conhecê-la. Marilu nasceu em 28 de fevereiro 1941, filha do professor Francisco Tibúrcio de Olveira, educador, poeta e um dos mais ilustres intelectuais de Santa Luzia, com sua prima, D. Hilda Tibúrcio Henriques, ambos descendentes de tradicionais famílias luzienses.

Durante os anos de magistério, Marilu foi responsável por introduzir centenas de pequenos luzienses ao mundo da escrita e da leitura. Na área cultural, foi uma espécie de embaixadora de Santa Luzia, defendendo com fervor as tradições da cidade ao mesmo tempo em que ajudava a divulgá-las para o resto do país.

Como funcionária da Secretaria de Cultura, quase sempre cabia a ela explicar aos jornalistas os meandros da Revolução de 1842, contar histórias sobre a baronesa Maria Alexandrina e descrever os centenários rituais da Semana Santa.

Marilu era querida em toda a cidade e deixou marcas profundas em quem conviveu com ela, principalmente nos que ela alfabetizou. A seguir, o depoimento que seu ex-aluno e jornalista luziense Carlos Magno Almeida escreveu quando foi surpreendido pela notícia da morte da antiga professora durante uma viagem a Londres, em junho de 2012.

Com Ana Luiza, uma das duas queridas filhas

Minha eterna professora se foi

Carlos Magno Almeida

Aprendi a ler com minha mãe na base do bê-á-bá. Assim, quando ingressei no ‘Modestino Gonçalves’ tive que ir pra sala dos repetentes, que já tinham alguma noção de leitura. A professora era D. Marilu. Aos sete anos, não tinha ideia de como aquela mulher baixinha, enérgica e, ao mesmo tempo, capaz de uma doçura infinita, iria mudar completamente o rumo da minha vida. Gostei dela já no primeiro dia de aula. E ela, de mim.

Como já lia correntemente e tinha certa facilidade em aprender aritmética, D. Marilu foi, aos poucos, me usando como uma espécie de monitor da turma. Tudo com muita sutileza, do jeito que só ela sabia fazer. Esse pequena deferência fez toda a diferença na minha formação. Passei a querer aprender mais e mais depressa para ensinar aos colegas. D. Marilu me ensinou a querer saber e essa ânsia de aprender me move até hoje.

A ela devo também parte do gosto que tenho pela escrita. Minha casa sempre teve livros, muitos livros, e muito cedo aprendi a gostar deles. Mas foi minha primeira professora que despertou em mim a vontade de escrever. Às vezes – acho que para ficar livre das minhas traquinagens na sala de aula – ela me mandava escrever poesias na biblioteca. Foi o castigo mais benevolente que tive na vida.

Fazendo excursão com algumas das centenas de crianças que foram alunas dela

D. Marilu me ensinou também a ler em público, o que me seria extremamente útil anos mais tarde, quando trabalhei na BBC de Londres. Muitas vezes, de tanto ensaiar com ela, acabava decorando os poemas e saudações. Sim, ela sempre me escolhia para fazer as saudações nas datas festivas. E, claro, me escolheu presidente do Clube de Leitura. Minha escola, pública, tinha Clube Leitura. Minhas composições – hoje, redações – voltavam sempre encimadas por um ‘dez’, acrescido de um comentário elogioso e exclamativo. D. Marilu jamais me daria menos do que dez.

Ao fim do primeiro ano da escola primária, então chamada grupo escolar, eu já estava completamente apaixonado por ela. E comecei a temer o próximo ano, com uma professora nova e desconhecida. A ideia de perder D. Marilu me assombrou durante as férias escolares e só não entrei em pânico porque tinha a companhia de Emília, do Visconde e de D. Benta, meus melhores amigos da infância, gentilmente apresentados a mim por D. Dulce Vianna, outra figura que marcou muito meus primeiros anos de vida.

Aí veio a boa notícia – a professora do segundo ano seria D. Marilu. E assim tive por mais um ano, o privilégio de tê-la perto de mim todo dia.

Com Ítalo Massara, outra grande figura da cidade – Foto: Luiz Fernando Ferreira

Nos meus aniversários, ainda que a festa fosse mixuruca, D. Marilu sempre vinha com um presentinho, mesmo quando não era mais minha professora. No aniversário dela, no último dia de fevereiro, eu também levava uma lembrancinha pra ela. Isso durou muitos anos. E ao longo do tempo, depois de várias professoras e professores, era sempre ela que me vinha à cabeça quando me deparava com novos desafios e aprendia coisas novas. E assim continua sendo. Para mim, ela se tornou sinônimo de aprendizado.

É claro que, além de professora, D. Marilu foi também uma mulher extraordinária. Filha de família tradicionalíssima, desafiou com brio e elegância as convenções sociais. Era uma mulher livre que, sem alarde e com a maior dignidade, vivia bem à frente de seu tempo.

Sua contribuição para a cultura luziense só vai poder ser devidamente avaliada pelas futuras gerações. Falava de história com uma intimidade invejável. Quando se referia à baronesa de Santa Luzia, era como se tivesse acabado de tomar chá com ela. E ao descrever a batalha final da Revolução Liberal de 1842, parecia que tinha estado ombro a ombro com Teófilo Otoni nas trincheiras do Muro de Pedras.

Nos tempos em que lecionava no Grupo Escolar Modestino Gonçalves

Mas pra mim, D. Marilu será eternamente minha professora. O que ela me ensinou pertence só a mim e a ela, seja lá em que dimensão for. A cumplicidade que nos uniu nos primeiros anos da minha vida vai comigo para onde eu for por uma razão óbvia: ela foi uma das pessoas que me moldaram da forma como sou. Ou seja, um pouco dela vive em mim.

Hoje, 3 de junho de 2012, Santa Luzia estremece cheia de emoção. Minha alma, também.

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3 Comentários

  • nenez
    4 de junho de 2018, 19:05

    Muito bem lembrado!!!! Merecido…….

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  • Paulo
    4 de junho de 2018, 21:27

    Cumprimentos ao Luzias por lembrar com tamanha delicadeza nossa querida Marilu. Eu era apenas mais um de seus admiradores. Me penitencio por não lhe ter confessado, pessoalmente, minha alegria ao ouvir suas narrativas. Mas, não me ocorrera que pessoas especiais nos deixam prematuramente.

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  • Décio Araújo Filho
    7 de junho de 2018, 13:17

    Amiga Marilu, boa tarde. Plenamente convicto de que vc recebe neste instante estas singelas palavras de alguém que te admira e que sempre te admirou, agradeço pelo seu sorriso que sempre emoldurou suas saudações quando nos encontrávamos. O mesmo sorriso das suas fotos, transmitindo um muito da enorme alegria que emana de teu ser, apesar de todos os aprendizados que a vida lhe impôs para crescimento de teu próprio sorriso. Ele fez diferença não apenas para mim, mas, com certeza para todos que partilharam da tua caminhada sobre este chão. É evidente, principalmente para aqueles que conhecem a história de nossa Santa Luzia, que você não é somente uma luziense, mas, verdadeiramente Luzia.

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