Às vésperas da Semana Santa, SL revive tradições dos tempos da Idade Média

Às vésperas da Semana Santa, SL revive tradições dos tempos da Idade Média
Igreja Matriz, ao fundo, de onde saía a procissão, à meia noite da sexta-feira anterior à Semana Santa. Foto: Associação Cultural Comunitária de Santa Luzia

Beto Mateus, Luzias

Uma tradição muito antiga, herdada ainda dos tempos da Idade Média, voltará às ruas do Centro Histórico de Santa Luzia amanhã (12/04), na última sexta-feira da quaresma. A Procissão das Almas, também chamada de Encomendação das Almas, retorna após um período de mais de 100 anos de interrupção.

A iniciativa é do padre Felipe Lemos de Queirós, da Paróquia Santa Luzia, responsável pela realização das cerimônias mais antigas da cidade e uma das mais tradicionais de Minas Gerais. “É muito importante retomarmos as tradições em um contexto histórico como temos em Santa Luzia, e considerando que algumas já tinham se perdido ao longo do tempo”, justifica o padre que destaca que a cerimônia de Encomendação será um momento para relembrar e rezar pelos falecidos.

Mas, no século 19, o caráter macabro da procissão é que chamava atenção sendo que os mais antigos a cidade a consideravam ‘sui generis’, tanto pela hora de realização (exatamente à meia-noite) e pelas vestes dos participantes que utilizavam mantas e capuzes brancos. Realizada pela Confraria das Almas, somente os homens podiam participar do cortejo que, saindo da Matriz ou do Cemitério do Carmo, terminava na antiga Cruz das Almas, atual Praça Ari Teixeira da Costa.

A Igreja Matriz no final do século 19. Foto: Site Cidade Santa Luzia

Um silêncio pesado se fazia nas ruas desertas
O pesquisador Japhet Lima Dollabela registrou em seu livro “Santa Luzia nasceu do rio” o passo a passo da Procissão que assustava toda a cidade e destaca a contribuição do cenário para o clima que se instalava:

“Aqui, ali e acolá, a luz intermitente de um vagalume piscava na noite escura e quieta. Um silêncio pesado se fazia nas ruas desertas, onde nem um seresteiro descuidado se aventurava a uma cantiga, naquela noite. Nas casas, o povo aguardava a procissão com muito medo. Lá fora, ouviam-se apenas os passos cadenciados dos participantes do macabro cortejo, o bater das matracas, as orações rezadas em voz alta e as exortações aos mortos, anunciando a passagem da procissão”.

Antiga igrejinha dos Carvalho, onde terminava procissão, na antiga Cruz das Almas, atual Praça Ari Teixeira da Costa. Foto: Associação Cultural Comunitária de Santa Luzia

Passado mais de um século, os tempos são outros, assim como a paisagem que já ganhou o barulho dos carros e a potência das luzes de led que iluminam as ruas. Mesmo assim, a paróquia promete retomar a tradição de homenagear os falecidos em um momento propício para reflexão sobre a vida durante o período quaresmal. Segundo o padre Felipe, “a encomendação das almas é uma antiga piedade popular que veio dos nossos antepassados e da própria cultura portuguesa, sendo um momento para se rezar pelos mortos na quaresma, o que faz parte das obras de misericórdia da Igreja”.

A procissão da próxima sexta vai se iniciar no Santuário de Santa Luzia, após a celebração do Setenário das Dores, que começa às 19h30. A procissão vai percorrer as ruas da cidade em direção à portaria principal do Cemitério do Carmo, onde será encerrada.

Como a Igreja do Carmo, ao lado do cemitério, era naquela época. Foto: Associação Cultural Comunitária de Santa Luzia

Ofício de Trevas: outra tradição resgatada
Outra tradição que será retomada em Santa Luzia, em 2019, será o Ofício de Trevas, que será realizado na noite do Domingo de Ramos (14/04), às 19h30, no Santuário de Santa Luzia. De acordo com o padre Felipe, o ofício é uma “celebração noturna em que se rezam os salmos e se apagam as velas do tenebrário (um candelabro triangular que recebe 15 velas), restando somente uma acessa, lembrando Jesus”. O ofício é uma tradição muito antiga e presente nas cidades históricas em que os salmos e lamentações geralmente são cantados em canto gregoriano. Em Santa Luzia, a parte musical será coordenada pelo maestro João Carlos Rossolini.

Além da Procissão das Almas e do Ofício das Trevas, outras cerimônias entraram na programação desse ano, como a Adoração do Santíssmo na Capela do Hospital de São João de Deus e uma caminhada na madrugada da Sexta-feira da Paixão (19/04). O padre Felipe Lemos reforça o convite para participação dos fieis na Semana Santa reiterando que, pelo fato de Santa Luzia ser uma cidade histórica, “as tradições contam a história da cidade e dos nossos antepassados”.

Deixe um comentário

Mantemos a privacidade de seu e-mail. Os campos obrigatórios estão marcados com *

Cancel reply

2 Comentários

  • Carlos Novy
    11 de abril de 2019, 20:20

    A tradição Luziense faz parte de nossas vidas e este site " Luzias" vem de encontro às nossas tradições e nosso modo de ver nossa amada cidade. Obrigado, minha eterna amiga e irmã Maya por me proporcionar esse inenarrável prazer! Um grande beijo em seu coração. 😘😘

    RESPONDA
  • Cristiano Lara Massara
    11 de abril de 2019, 21:24

    Parabéns a Paróquia Santa Luzia. Devemos preservar as tradições. Linda comemoração.

    RESPONDA