João Carlos Giovannini, o grande Nhô Nhô Padeiro: farol na educação de Santa Luzia

João Carlos Giovannini, o grande Nhô Nhô Padeiro: farol na educação de Santa Luzia
Quando era Presidente da Câmara Municipal. Ao fundo, Dr. Oswaldo Ferreira e o irmão, Afonso

*Luzias

Amigos, luzienses, cidadãos: deem-me seus olhares, seus ouvidos, seus corações. E vejam-me, ouçam-me, e sintam-me.

Estas palavras, estou tomando emprestadas do grande William Shakespeare. São suas palavras iniciais quando escreve sua imortal peça “Júlio César”.

É no discurso proferido pelo Marco Antonio diante do corpo sem vida do grande general Gaio Julius Caesar que acabara de ser assassinado.

Iniciando com essas mesmas palavras, estou aqui para reconhecer e agradecer.

Que é nestas terras luzienses, por estas ruas mal traçadas, cheias de curvas, esburacadas e sem calçamento. Que é nessa época que por ali transitava um homem que muito me deu orgulho de também ter nascido ali. Me orgulha ainda muito mais porque ele, como eu, viveu ali. Morava na beira do rio. Poeticamente bem ao lado do Rio das Velhas.

Tinha que ser lá, pela beleza de si, pela beleza do rio, por toda a beleza do lugar. Ele era uma pessoa muito bela. Era um homem simples, “oriundi, tutti buona gente”, e não é que realmente era muito boa gente? O melhor que se poderia exigir de um ser humano. Fisicamente não era um homem grande. Mas para quê? Se tamanho mesmo tinha era o seu coração, que, sem exagero nenhum, era do tamanho da cidade, do Brasil, do mundo.

De pele morena, trazida certamente de sua descendência do sul da Itália, tinha sempre um sorriso a oferecer, e esta é a feição do seu rosto que guardo em minha memória. Ele enfrentava a dureza da vida com suavidade e extrema naturalidade. E mesmo sendo um homem que estava em permanente guerra, estava sempre sorrindo. Ele era assim, um homem sorridente e feliz. E era a arma que usava para vencer a sua luta do dia a dia. A sua guerra de vida toda.

Desde jovem, ele foi um visionário

Nem sempre era uma luta somente sua, mas também a de muitos de seus conterrâneos. As pessoas simples, humildes e necessitadas que estavam sempre a procurá-lo e a lhe pedir ajuda para alguma coisa. E alguma coisa ele sempre tinha para dar, que fosse um minuto de atenção, uma promessa e até mesmo o bem maior que uma pessoa pode oferecer a outra – o seu sorriso, e uma esperança.

Tinha uma vasta cabeleira negra que, apesar de cuidadosamente muito bem aparada, sempre restavam alguns fios que lhe caíam na testa. Era um homem calmo e pausado. Ameno, suave, cândido e gentil. Tinha uma ótima prosa. Conversava com todos sobre tudo. Pelas ruas era parado a todo momento. Era procurado por todos. A ele, todos lhe levavam seus problemas e ele, pacientemente, a todos atendia e para todos os problemas sempre achava uma solução.

Não era rico. Acho mesmo que materialmente não era de muitas posses. Tinha quase nada. Uma casa onde residia com sua família e uma simples e singela padaria, onde fazia saborosos pães. Como todo bom italiano, deveria gostar de cultura e arte, pois também tinha o cinema do bairro. Esmerava na busca dos melhores filmes para exibir em sua tela. Tenho saudades dos grandes musicais da Metro e dos faroestes de Roy Rogers e seu cavalo Trigger. E era de lá que honesta e dignamente tirava seu sustento.

O jovem casal Giovannini se casou em 1928: ela com 20 anos, ele com 26

Criou uma família numerosa e todos, como ele, se tornaram cidadãos e cidadãs respeitáveis. Todos, sem exceção, se tornaram de importância para a vida da cidade.

Foi assim nos meus inocentes 12 anos de idade que conheci este homem. Ele era assim aproximadamente aos 50 anos de idade. Ele era o João Carlos Giovannini, cidadão brasileiro, da melhor cepa, cheio de honra e de dignidade. Era um homem de escol, cheio de amor, de sabedoria e de humanidade. E sabem como o conheci? Com ele dentro de minha humilde moradia, sentado em um tosco banco de madeira.

Aliás, é bom que se diga que já pela décima vez o via ali. Já pensava que era ele um íntimo amigo de meu humilde pai. Só que não era. Muito mais que ser amigo de meu pai, ele na verdade era um amigo de toda a cidade, de toda Minas Gerais, de todo o Brasil, de toda a humanidade. Ele era amigo do conhecimento, do saber, da evolução do homem aqui na terra. E era um inimigo mortal da pobreza, do atraso e da ignorância. Era um homem que sofria muito com isso, e tinha como preocupação maior a construção de uma vida digna e feliz para todos.

E ele, quase que sozinho naquela cidade, sabia que, para vencermos a pobreza e a ignorância, tínhamos que nos armar mesmo era de muito conhecimento e saber. Mas, como conseguir isto em uma cidade em que 80% de sua população ainda residiam na zona rural, eram todos lavradores, gente simples e humilde? Poucos eram os artesãos, sem fábricas e sem nada para fabricar, com poucos comerciantes e apenas alguns fazendeiros de muito mal cuidadas fazendas. Quase nada possuía a cidade.

Com os outros três irmãos: Juquinha, Geraldo e Gerson

De riqueza mesmo somente possuía a igreja matriz dos adeptos do catolicismo. Parecia mesmo que toda a riqueza da cidade estava concentrada ali. Nessa casa de Deus sobravam ouro, opulência, fausto, luxúria e insulto à pobreza. E, de resto, era assim em todas as outras cidades do Brasil, com a quase totalidade dos homens e mulheres formando uma multidão de trabalhadores analfabetos, trabalhadores braçais e semiescravizados.

E o nosso querido Nhonhô sabia disso. Estamos falando de 1953, e de uma cidade que sequer luz elétrica possuía. E ele, quase um Dom Quixote de Cervantes desta cidade, era um vereador. Vereador que nada ganhava, a não ser a honra de ser um edil da cidade onde vivia e cuidava de atender aos mais necessitados.

Neste momento, vamos encontrá-lo em minha casa, em uma acirrada palestra de convencimento ao meu pai, de que eu era uma criança que deveria estudar. Me lembro perfeitamente dele falando que todos os pais tinham por obrigação proporcionar o estudo aos seus filhos. O meu pai resistia, pois era de seu entendimento que os filhos, após a conclusão do ensino primário, tinham mesmo era que trabalhar. Mas, para minha sorte e para a minha vida, Nhonhô venceu o meu pai. O sonho, o ideal e o conhecimento sempre vencem.

Foi a esposa, Conceição Gabrich Giovannini, quem inaugurou o Senai de Santa Luzia, que leva o nome dele

E, como na minha casa, esse homem peregrinou pelas noites adentro, nos sábados e nos domingos, nos feriados e dias santificados, nas festas de aniversários, casamentos e batizados. Foi andando, a pé e a cavalo, pelos longínquos rincões do município, pelas fazendas, sítios e lugares nunca antes visitados por alguém. Estava em busca dessas crianças, de todo conhecimento humano afastadas. O seu trabalho era este: convencer os pais daquela época a deixar seus filhos estudarem.

Foi uma luta terrível. Eu assisti à luta dele dentro de minha casa. Com as outras famílias, com os outros pais, imagino ter sido a mesma batalha. Umas mais, outras menos, mas a sua luta foi dura na busca pela concretização do seu ideal, do seu sonho. Criar um ginásio de estudo de primeiro grau. Proporcionar estudo e melhor encaminhamento para a vida aos jovens do município.

Em um trecho da ata de fundação do ginásio, lavrada pelo então Pe. Cristiano Portela, em 1.º de janeiro de 1952, encontra-se o registro de como tudo começou: “Aos 15 de agosto de 1951, iniciou-se, na cidade de Santa Luzia, o Ginásio Santa Luzia. Em preparação a este ato, destinado a deixar uma marca profunda na história desta veneranda cidade, salienta-se a ação do Sr. João Carlos Giovannini, presidente da Câmara Municipal. Há anos este espírito empreendedor tornara-se o apóstolo dessa grande causa. Dois insucessos não o desanimaram; as dificuldades que a quase todos se afiguravam insuperáveis, a João Carlos Giovannini se transformaram em estímulo para uma luta mais intensa”.

O Centro de Formação Profissional João Carlos Giovannini, na área dos colégios

Necessário era um número mínimo para atender o funcionamento inicial do colégio. Mas ele não estava só. Na chamada parte alta da cidade, ou no chamado centro histórico, à direita do rio, a responsabilidade deste garimpo de jovens ficou com um outro homem também notável: o professor Aureliano Nestor Veado. Ao seu lado, a professora Ephigênia de Jesus Werneck e um outro vereador, o sonhador e dedicado João Dolabela, conforme se lê em outro trecho da mesma
ata:

“Para a fundação deste educandário, congregaram-se Pe. Cristiano Frederico Portela de Araújo Pena (vigário da paróquia), João Carlos Giovannini (presidente da Câmara Municipal de Santa Luzia), Ephigênia de Jesus Werneck (bacharel em Ciências Jurídicas e funcionária do Departamento Nacional de Estradas de Ferro), Aureliano Nestor Veado (gerente da agência do Banco Financial S.A.) e João Evangelista Dolabela (contador da Prefeitura Municipal).”

Na parte baixa da cidade, à esquerda do rio, aí, sim, preponderou esta figura de quem estou falando: o Nhonhô Padeiro. O muito digno e honrado vereador João Carlos Giovannini. Lembrar com saudades deste homem é uma devoção, mas lembrar com reconhecimento e agradecimento é uma obrigação. Não apenas minha, por tudo que mudou em mim, na minha vida, e até na vida de minha família, mas por todos os luzienses, por tudo que, por certo, terá também mudado na vida de cada um.

É neste momento que, inspirado na figura deste grande luziense e que, sendo um fruto de seu saber, tento de todas as maneira perpetuar uma outra grande obra por ele criada. Estou falando do Estádio Dr. Ary Teixeira da Costa, que durante 93 anos vem cumprindo fielmente com os sonhos e com os ideais do nosso querido Nhonhô. Juntamente com outras figuras de proa da sociedade luziense, como José Augusto, o Zinho Turco, e seu irmão Geraldo Augusto, o Nonô, naquela época, há quase 70 anos, se empenharam de corpo e alma para dotar o clube referência e de coração da cidade de instalações próprias para a prática de esportes.

Da E para a D, Bené Leal, Luiz Novy, Mezinho, Bilé, Antônio Rodolfo, Dr. Oswaldo Ferreira, Moacir de Souza, deputado Lourival Brasil e Nhonhô

E foi nesse estádio que sucessivas gerações de jovens vindos de todas as classes sociais encontraram o ambiente certo, adequado, educado, absolutamente e restritamente esportivo para praticarem o esporte sadio, salutar, saudável e educador. Nesse estádio foram formados caráteres não apenas de força física, mas, acima de tudo, de força moral, civilizatória, religiosa e construtiva para toda a sociedade luziense. Todos os ideais de Nhonhô foram por gerações ali praticados dentro da mais absoluta respeitabilidade e de amor ao clube que era do coração de todos.

Uma outra importante obra sua, que merecidamente leva seu nome, foi a luta pela criação do SENAI da cidade. Ele se preocupava também com a formação profissional dos jovens. Como veem, o nosso Nhonhô Padeiro não se preocupava apenas com as receitas de pães, mas, principalmente, com as receitas de como formar gente, mentes, caráteres, para cada um, para a família e para a sociedade. Era um acendedor de estrelas. Por onde andava, espalhava luz, o conhecimento e o saber. Ele me ensinou o caminho, logo adiante completado pela professora Ephigênia de Jesus Werneck, que me ensinou o próprio conhecimento.

Hoje, estou sentindo muita saudade de Nhonhô. De toda a família de descendentes dele. De Carlos, Vicente e Toninho, Zé Eustáquio, todos Giovanninis. E até do grande mito Nívio Gabrich, que se tornou jogador de futebol profissional e também uma lenda desse esporte, por ter sido dos melhores do país. Muita saudade de Zinho Turco, de Nonô Turco também. E quantos outros? Uma miríade deles. Hoje ainda temos o Manuel Flávio Pena – o Su, que como eu, por mercê de Deus, permanecemos vivos.

Mas pairam no ar nuvens escuras sobre a vida dessa obra do Nhonhô. Novamente vou tomar emprestadas palavras, agora, do grande poeta romano Virgílio, que viveu há dois mil anos. E ele escreveu em seu poema épico chamado “Eneida”: “Figuras sinistras vêm obscuras, através de noites escuras e solitárias, através das sombras e das moradias mal ocupadas, vazias de alma, de mente, de religião e de Deus. Tal é o caminho que percorrem e o objetivo que buscam, que somente saem quando a lua é incerta e escura. Somente agem quando da luz maligna. Vindos das sombras dos céus, arregalam suas gargantas e engolem tudo, na certeza de que o mundo somente existe para elas.”

A família toda reunida na Capela de São João Batista para celebrar as bodas de ouro do casal, em 1978

E sobre essas nuvens escuras, saibamos nós dissipá-las, afastar para longe, bem longe, essas ameaças de extermínio, de destruição e da total extinção da obra do nosso querido e saudoso Nhonhô Padeiro, o venerável, o honorável, o respeitável e o eterno João Carlos Giovannini.

Se nada somos capazes de fazer e de construir, que saibamos pelo menos preservar o que por outros foi feito. E, assim, queridos amigos, eu conclamo. Eu vim em paz, propondo a paz, e quero deixar a paz. E junto dessa paz, eu quero deixar intacta a obra de Nhonhô. Pois bem sei que, se vivo ele estivesse, novamente com o seu sorriso que era verdadeiramente a sua imbatível arma de guerra, manteria viva e imorredoura a sua obra que nos deixou, hoje já com quase um século de existência.

Um legado inestimável. Não o destruamos. De resto, sobre tão importantes personalidades, o que muito me incomoda é a grande capacidade que nós brasileiros temos de não reconhecer nossos heróis. Deixamo-los esquecidos e anônimos para, sem nenhuma explicação, celebrarmos e preitearmos outras figuras que nada fizeram. E fico pensando por que os seus nomes não foram colocados nas obras de que verdadeiramente foram construtores.

Este era o homem Nhonhô Padeiro. E estas são as obras de Nhonhô Padeiro. Quando surgirá nesta cidade outro homem como ele? Eu não sei.

*Texto escrito porAntonio Fernando Santos, com adaptações feitas pela família de João Carlos Giovannini, o Nhonhô Padeiro.

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