Histórias esquecidas e negligenciadas de tantos bairros e lugares de Santa Luzia

Histórias esquecidas e negligenciadas de tantos bairros e lugares de Santa Luzia
Juscelino Kubitscheck (de terno preto, no centro), então Presidente do Brasil,, acompanha, no Rio de Janeiro, a chegada dos caminhões importados para o Frimisa

*Marcos Paulo de Souza Miranda

O patrimônio cultural de Santa Luzia não se resume aos imponentes casarões do centro histórico. Em cada recanto do território luziense há vestígios materiais e imateriais da rica história do município, marcas do tempo muitas vezes ignoradas, marginalizadas, esquecidas ou mesmo destruídas em razão do desconhecimento de alguns e da omissão de outros.

Há necessidade de que cada cidadão, cada associação de bairro, cada liderança comunitária procure identificar o que há de mais relevante como símbolo de sua região, de seu bairro, de sua rua, divulgando o bem escolhido, protegendo-o e requerendo providências também ao poder público, se necessário.

O melhor guardião do patrimônio cultural é o próprio cidadão. O afeto e a dedicação da coletividade em relação a um bem cultural é instrumento mais poderoso do que o próprio tombamento.

A antiga estação ferroviária de Ribeirão da Mata, que não existe mais

Defender o patrimônio cultural é tarefa de todos
É preciso garimpar a história, identificar as pepitas dos tempos passados, lapidá-las e transformá-las em objetos socialmente úteis, demonstrativos da riqueza da história do povo luziense, riqueza essa que não pode ser medida em cifrões, mas apenas sentida no mais íntimo de cada um que tem a noção de que somos apenas legatários de uma história que nos antecede, a qual temos o dever ético de transmitir aos que ainda estão por chegar.

No esquecido Distrito do Ribeirão da Mata, situado na divisa com Vespasiano, por exemplo, temos registros da existência de uma pequena capela vinculada à Paróquia de Santa Luzia desde a primeira metade do século XIX. Hoje ali existe uma singela igreja dedicada a Santo Antônio, as ruínas da antiga estação do trem (demolida) e um belo abrigo em rocha calcária utilizado para práticas religiosas. Contudo, não há nenhuma proteção sobre tais bens, verdadeiro patrimônio oculto de Santa Luzia, apesar da relevância e do enorme potencial turístico.

Na região do atual bairro Bom Destino, na divisa com Sabará, foi inaugurada, em 1896, a primeira Colônia Correcional Agrícola de Minas Gerais(Colônia Maria Custódia), em razão do fracasso da Colônia de Imigrantes que ali havia sido instalada anteriormente, trazendo para a cidade habitantes originários de diversas partes do Velho Mundo. Para além do evidente aporte demográfico constituído por estrangeiros deixado na cidade, certamente há resquícios do importante estabelecimento na região, mas poucos são os que conhecem essa história…
A foto do antigo casarão sede da Colônia sequer é uma foto na parede. Mas como dói…

No Bom Destino, a primeira Colônia Correcional Agrícola de Minas Gerais(Colônia Maria Custódia)

Em Taquaraçu de Baixo, na divisa com Jaboticatubas, temos registros da existência no local, em 1788, de uma companhia de capitães do mato destinada a caçar escravos fugidos. Também há registro, desde primórdios do século XIX, de uma Capela dedicada a São Francisco de Assis onde eram celebrados muitos atos religiosos e sociais.
Tratava-se de um povoado importante, cuja sede da fazenda mais antiga veio desabar não faz muitos anos em razão do descaso com o patrimônio cultural rural da cidade. Taquaraçu de Baixo é célula importante do organismo histórico luziense, conquanto não haja ações de reconhecimento e proteção de seu valioso patrimônio cultural.

Nem só de grandiosos monumentos é constituída a história de um povo…
Na Carreira Comprida (cujo significado é caminho reto e longo, denominação existente desde o início do século XVIII e que não tem nenhuma ligação com o Duque de Caxias e a Revolução Liberal de 1842, como afirmam erroneamente alguns), há registros históricos sobre uma antiga capela dedicada a São Bom Jesus, onde foram celebrados muitos atos religiosos envolvendo senhores e escravos da cidade. Não se tem notícias sequer de seus vestígios. Eles ainda existirão?

Na década de 1950, naquela mesma região, foi instalado o Frigorífico Frimisa, cuja inauguração contou até mesmo com a presença do presidente Juscelino Kubitscheck. O complexo arquitetônico do Frimisa, onde hoje está sediada a Prefeitura Municipal, apesar de sua enorme relevância como patrimônio cultural industrial e afetivo da cidade, sequer foi inventariado, sendo que muitos documentos e maquinários da antiga indústriajá se perderam pela omissão estatal ao longo das décadas.

Fragmentos cerâmicos e líticos recolhidos no Bairro Chácaras Santa Inês na década de 1970

Nas Chácaras Santa Inês, na década de 1970, um grande sítio arqueológico pré-histórico foi destruído, em boa parte, quando da abertura da rua Djalma Guimarães, ocasião em que foram revelados machados de pedra, pontas de projétil, potes cerâmicos, urnas funerárias e muitos outros vestígios deixados pelos primeiros povos que habitaram Santa Luzia. O material recolhido à época é muito significativo, mas poucos são os luzienses que conhecem os vestígios mais antigos dos primitivos povoadores da cidade.

Em data recente, como se sabe, a região de Chácaras foi tomada por grandes construtoras que ali estão erguendo dezenas de prédios multifamiliares sem qualquer exigência de prévia análise dos impactos ao patrimônio cultural arqueológico. É muito provável que novas perdas tenham ocorrido…

A riqueza histórica de outras áreas da cidade
Em Pinhões, comunidade formada no século XIX a partir de descendentes de antigos escravos que trabalharam, sobretudo, nas propriedades do Mosteiro de Macaúbas e da Fazenda das Bicas, verifica-se muito preconceito e desconhecimento em relação às origens do lugar. Não bastasse, a ausência de políticas envolvendo pesquisas sérias e ações de promoção da cultura do povoado tem dado espaço a distorções interpretativas graves, que não favorecem a verdade. Além do mais, verifica-se um evidente processo erosivo dos saberes tradicionais do lugar, a ponto de poucos hoje terem conhecimento de que a origem do nome Pinhões está relacionado a uma planta nativa de largo uso pelos antigos povoadores.

Batizado de filho de escrava moradora em Pinhões no ano de 1844

Por derradeiro, território cultural praticamente desconhecido das autoridades públicas de Santa Luzia é a região do São Benedito, em boa parte tomada por conjuntos habitacionais, bairros populares e ocupações clandestinas do solo urbano. Todo o território se originou de antigas fazendas coloniais, a exemplo das Fazendas Lagoa Vermelha e das Lajes (hoje conhecida como Fazenda da Baronesa), que, por pouco, escapou da destruição integral em razão da construção de um megaempreendimento imobiliário implantado no Belo Vale sem qualquer avaliação de impacto ao patrimônio cultural.

Mas, para além das reminiscências mais longínquas, mesmo os marcos identitários da região formados a partir da ocupação mais recente, como escolas, casas dos pioneiros, estruturas administrativas da COHAB, entre outros, vão se perdendo a cada dia, como se nada daquilo tivesse valor pelo simples fato de não estar situado no antigo centro histórico.

Nada mais equivocado. A história e o patrimônio de um povo não se resumem a biografias e propriedades de barões e coronéis. Eles brotam vivos a partir da contribuição dinâmica deixada ao longo do tempo por cada cidadão, independentemente de raça, cor, condição social ou econômica.

Casas experimentais de solo-cimento construídas no Conjunto Palmital

Enfim, Santa Luzia são muitas. Seus patrimônios são minas de riquezas gerais
Acima, citamos apenas alguns exemplos de lacunas importantes na interpretação e na preservação de bens culturais da cidade, verdadeiros personagens históricos marginalizados e sem rosto, que clamam por sensibilidade e atenção de todos os luzienses, do mais simples cidadão à mais proeminente autoridade.

É chegado o tempo de olhar para o futuro e de corrigir rumos com o aprendizado haurido com os equívocos que ficaram para trás, sem ressentimentos ou reprovações, pois como já nos advertiu, com profunda sabedoria, o Dalai Lama: “Podemos perdoar a destruição do passado causada pela ignorância. Agora, no entanto, temos a responsabilidade de examinar eticamente o que herdamos e o que passaremos às gerações futuras.”

*Promotor de Justiça. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais

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1 Comentário

  • Liliane
    31 de julho de 2020, 16:22

    Quanta riqueza! Que exposição perfeita. Quantas ponderações sensíveis denotando a nobreza de pensamento do autor. Sta Luzia é muita vasta, muito bem provida de fatos históricos, de costumes e origens que não poderiam inspirar nada menos que esse texto brilhante de tão destacado historiador.

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