Tom Nascimento: Santa Luzia é um ‘mini-Brasil’

Tom Nascimento: Santa Luzia é um ‘mini-Brasil’
Tom Nascimento, 41, é a própria essência de São Benedito, onde vive desde os oito anos

Felipe Santana Rick

O Luzias escolheu o ex-superintendente de Cultura de Santa Luzia, Tom Nascimento, para entrevistar, nesse início de vida do site, porque o músico é a verdadeira essência de São Benedito, região que abriga a maior parte da população da cidade. Nascido em Belo Horizonte, Tom se mudou com a família para Santa Luzia quando completou oito anos. Passou a morar em São Benedito, de onde nunca mais saiu. Aos 41 anos, é um observador sensível não só do rico cenário artístico da região, mas das mazelas sociais dessa área super povoada, com tantas carências.

Tom mostrou pendor para a arte cedo. Aos 14 anos, já tinha platéia, tocando violão na Escola da Comunidade. Estudou violão clássico e, aos 19, recebia convites para shows em Belo Horizonte. Em 2004, veio a inesperada oportunidade de tocar na banda de black music Berimbrown. “Eles me viram em um programa de TV, junto com o Lenine, e fizemos turnê na Europa. Fomos à Alemanha, Áustria, Suiça e Itália”, conta ele.

E por que a parceria não evoluiu? Ele explica: “Como na banda eu não tinha espaço como compositor, resolvi voltar a minha carreira solo. Foi quando assumi minha carreira autoral.” Foi nessa época que gravou com Milton Nascimento, Sandra Sá e outras referências da musica negra brasileira. Mais tarde, veio o primeiro lugar no Vozes do Morro, projeto do Governo de Minas, do qual acabou se tornando diretor. Tom foi, então, convidado para o internacional Play for Change e, em 2012, lançou o CD Funks e Rocks, com a participação de Chico César. Assumiu seu primeiro cargo público em 2016, quando tornou-se superintendente de Cultura de Santa Luzia – o que lhe deu uma visão mais aprofundada das belezas e tristezas da região de São Benedito e de Santa Luzia como um todo.

Nesta entrevista, Tom fala de como os moradores do distrito de São Benedito ainda se sentem “distantes de Santa Luzia”, falta senso de pertencimento. Fala também “na potência da produção cultural e artística” dos vários bairros da região, de como vê a cidade “dividida em muitas partes” e reclama mais atenção do poder público a São Benedito, já que a maior parte dos moradores de Santa Luzia vive lá. O artista vê a complexidade da cidade como parte de “sua beleza”. É isso, no seu entender, que faz de Santa Luzia, com suas diferentes culturas, um “mini-Brasil”.

O artista plástico Paulo Nazareth, morador da região, já participou de exposições em vários países europeus

Como você enxerga o cenário cultural de São Benedito hoje?
São Benedito tem 140 mil habitantes, e é essa região que faz a conexão da parte histórica com a capital. Então nós sofremos muita influência da cultura da capital ao mesmo tempo em que vivemos nessa confluência, isso faz da música e da cultura do São Benedito algo muito peculiar. Tem gente que pensa que a cultura de São Benedito é igual à de BH, mas é muito diferente. Por mais que seja um centro comercial forte com cada vez menos verde, cada vez mais “veloz”, nós temos uma maneira diferente de olhar e praticar. Eu percebo São Benedito como uma potência na produção cultural e artísticas do Brasil, como por exemplo o Paulo Nazareth, das artes plásticas, que teve convite para expor em museus europeus e é tema de prova do Enem, além de diversos outros. É uma produção intensa e muito rica. E essa produção tem que escoar para algum lugar e Santa Luzia não absorve. Acaba sendo absorvida por Belo Horizonte e outras cidades.

E qual você acredita que é o caminho para a região na cultura?
Eu vejo como inevitável essa dificuldade com o sentimento de pertencimento dos moradores de São Benedito em relação à cidade de Santa Luzia. Mas ao mesmo tempo, como superintendente de cultura, eu pude perceber valores que não percebia antes. E, hoje, eu acho fundamental que nós, como produtores da cultura, vejamos a nós mesmos como luzienses. Mas esse é um trabalho que ainda precisa ser feito envolvendo todos os setores e a sociedade. Acho que estamos muito longe ainda.

São Benedito acaba de comemorar – em março – 64 anos. O que a região tem a comemorar neste aniversário?
O que temos para comemorar é todo esse balaio, essa panela gigante, de produção cultural e artística. É comemorar o seu povo. O problema é que como não temos a identidade com a localidade, em São Benedito, nós nos pegamos dizendo que vamos a Santa Luzia. Então é um lugar que ainda clama por uma identidade.
Como sou otimista, te digo que temos que celebrar tudo, todos os avanços, as estruturas novas, o amadurecimento dos artistas que entenderam e ainda produzem para a cidade. Celebrar os novos que estão nesse entendimento também, de produzir e alimentar a cultura de nossa cidade. Celebrar a feira do palmital, que está ai há mais de 30 anos resistindo. Melhorou com a intervenção do poder público, mas não sobrevive dele, e por isso está ai forte. Celebrar a Superintendência de Cultura, aliás, para além da superintendência, celebrar o Polo Cultural Sombra da Noite, que ajuda na descentralização da cultura, lá ocorrem aulas de violino, flauta, entre outras gratuidades para crianças.

Ensinando crianças no Polo Cultural Sombra da Noite

O que você apontaria como os principais problemas de São Benedito?
São vários os problemas da região, como falta de infra-estrutura, por exemplo. Em se tratando de cultura, falta essa identidade com a localidade e principalmente falta locais onde esses atores culturais possam se manifestar. Um cuidado maior com as praças e locais públicos, com uma utilização mais inteligente voltada para a cultura e para a família. Falta esse pensar cultura para além de eventos.
Nesse aspecto, existe sim uma ausência do poder público. Antes de tudo, é preciso que haja o entendimento de que nenhuma força vai vencer sozinha. Seria preciso haver maior interação e melhor comunicação entre todas as partes, para se chegar a algum lugar.

Você vê Santa Luzia como uma cidade dividida em duas: a parte antiga e a região de São Bené?
Não. Eu a vejo dividida em muitas partes e não apenas em duas. Isso eu percebi como gestor público. Antes, eu achava que era apenas isso: “Santa Luzia é parte alta e São Benedito”. Mas há a parte histórica, São Benedito, Frimisa, Duquesa, Pinhões e outros bairros que compõem a nossa cidade. Por ser espalhada assim, eu vejo muita dificuldade em pensar politicas publicas em Santa Luzia. Por isso eu defendia, e defendo, os polos de cultura, para ter essa descentralização. Para tentar atender a todos. Essa visão que está aí é equivocada e injusta.

Você acha que São Benedito deveria se tornar autônomo – um outro município?
Não. Eu compreendo a cidade como um todo. Essa complexidade e espaçamento da cidade são parte da beleza dela, faz de Santa Luzia um “mini-Brasil”, com suas diferentes culturas. Um espaço completa o outro. E, talvez eu não tenha competência técnica para dizer, mas acredito que São Benedito não se sustenta financeiramente, não sei até que ponto esse centro comercial daqui equivale às indústrias de outras partes da cidade. Mas mesmo que tenha condições financeiras, eu vejo e gosto da cidade como ela é, no todo.

Ajudando a educar as crianças de Santa Luzia

Os últimos prefeitos de Santa Luzia têm dado a atenção que a região necessita?
Não, não têm dado. Eu imagino o tanto que deve ser difícil governar um cidade tão espaçada, complexa, grande e múltipla, mas realmente São Benedito merece uma atenção especial. Setenta por cento da população está aqui e exatamente por isso pede uma atenção maior. Seria preciso criar algumas superintendências para ajudar a administrar a região. No governo que eu participei havia um caminho nesse sentido, mas ainda estávamos muito longe do que realmente é necessário.

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1 Comentário

  • Calos
    26 de março de 2018, 13:48

    Muito lúcido, o rapaz.

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