De vacina a respirador, as iniciativas em Minas para enfrentar o novo coronavírus

De vacina a respirador, as iniciativas em Minas para enfrentar o novo coronavírus
Debruçada sobre a máquina de costura, Hilda Carla, de Santa Luzia, chegou a produzir, no primeiro semestre de 2020, cerca de 2 mil máscaras. Foto: Gustavo Werneck

Gustavo Werneck, Estado de Minas

Da vacina desenvolvida pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) aos ventiladores pulmonares, passando pelas máscaras, tótens de álcool e outras iniciativas que ajudam a salvar vidas. Com pesquisas de ponta e serviços avançados, Minas cria, produz, faz e acontece para enfrentar os tempos de pandemia e a devastadora COVID-19, que não para de fazer vítimas.

Cientistas, empresários, artesãos e outros profissionais de setores variados se desdobram desde o início da pandemia (em março do ano passado) para atender à demanda de hospitais, levar segurança à população e garantir algum conforto, proteção individual e higienização de ambientes.

Em cada depoimento, nesta página, há uma ação para reduzir impactos, encarar o inimigo letal e, principalmente, destacar o esforço coletivo. A epidemia marca a história da humanidade, e os mineiros, a seu modo, escrevem capítulos com muito trabalho e esperança.

LUZ NO CAMINHO – Bem no início da pandemia, quando o mundo se trancava em casa e as informações sobre a COVID-19 eram sempre tenebrosas, um empresário belo-horizontino teve boa ideia e, com os sócios, desenvolveu um projeto juntando tecnologia, solidariedade, amor à vida. Resultado: benefício para 328 hospitais brasileiros e muitas pessoas salvas com a produção de ventiladores pulmonares (respiradores) e participação decisiva da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), que bancou o projeto a partir de um fundo no valor de R$ 20 milhões proveniente de empresas associadas.

“Foi um período desesperador, principalmente pela falta de ventiladores pulmonares”, lembra Marco Antônio Tonussi, da Tacom, empresa com tecnologia de ponta no setor de transportes. Preocupado com a situação, e ainda sem entender nada sobre os equipamentos conhecidos popularmente como respiradores, Tonussi, técnico em eletrônica e graduação em direito, estudou o assunto e foi adiante, conseguindo em 30 dias pôr o protótipo em funcionamento. No final das contas, e três meses depois, foram produzidos pela empresa – e doados ao estado pela Fiemg – 1,7 mil ventiladores pulmonares para hospitais públicos e filantrópicos.

No escritório da sua empresa, na Região Oeste de BH, Tonussi mostra o equipamento produzido na unidade de Itajubá, no Sul de Minas. E volta ao passado recente: “O momento era tão difícil, com o comércio fechado, sem poder comprar equipamentos, pessoas em casa, que acredito termos sido guiados por uma luz. Conseguimos colocar o ventilador pulmonar funcionando em um mês. Só para comparar, a Nasa (agência espacial norte-americana) gastou 47 dias”. Nessa caminhada, teve também a contribuição de médicos e da Escola de Veterinária da UFMG, onde foi feito o primeiro teste. “Nós nos concentramos muito no projeto. O que demorou muito foi a homologação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Para se ter uma ideia do nível de exigência, foram feitos quase mil testes. A elaboração de um ventilador pulmonar é de alta complexidade. Com sinal verde da Anvisa e patrocínio da Fiemg, foram produzidos, em 2020, os 1,7 mil equipamentos, dos quais 1,5 mil doados ao governo de Minas para distribuição em hospitais públicos e filantrópicos e os demais ao governo federal.

Marco Antônio Tonussi mostra orgulhoso os respiradores desenvolvidos em intervalo de um mês, em plena crise: ”Só para comparar, a Nasa gastou 47 dias.” Foto:
Jair Amaral/EM/DA Press

Na segunda etapa do projeto, entre fevereiro e abril de 2021, em plena segunda onda da COVID-19, foram produzidos mais 2,3 mil equipamentos. Hoje, se contabilizam mais de 4 mil produzidos e disponibilizados a mais de 470 instituições de saúde e hospitais de todo o país.

Em Minas, a exemplo dessa contribuição à sociedade, há muitos projetos, produtos e serviços em andamento – de máscaras, plataformas digitais e produtos de limpeza. Só a UFMG) tem mais de 200 trabalhos relacionados à COVID-19, com destaque para a Spintec, vacina que está entre as três brasileiras em estágio mais avançado de desenvolvimento
Criatividade não falta também nas mãos de artesãos e artesãs para suprir as urgências população e novidades surgem a cada dia.

100% MINEIROS – Em Divinópolis, na Região Centro-Oeste, onde foi registrado um dos primeiros casos de COVID-19 em Minas, o empresário Vinícius Henrique Almeida Sousa, da Sul Minas Indústria e Comércio (vestuário), começou a fabricar também equipamentos de proteção individual (EPIs). “Passamos por todas as certificações solicitadas pela Anvisa para permanecer neste mercado, que sofreu grande mudança durante todo ano. Hoje concorremos com empresas tradicionais de igual para igual. Nós nos deparamos também com aventureiros (pet shops, lojas de calçados, importadores de vinho etc.) que disputam o mercado de forma agressiva , porém sem os requisitos mínimos de garantia e confiabilidade”, afirma.

O empresário, também presidente do Sindicato da Indústria do Vestuário de Divinópolis (Sinvesd), diz que a matéria-prima teve acréscimo de 30% acima do dólar durante o ano passado, além das restrições de oferta de produtos importados. “O mercado voltou ao normal em novembro e dezembro, porém com a segunda onda tivemos novamente uma corrida pela matéria-prima”.

A proteção se amplia em todo canto, pois higienizar passou a ser um ato tão necessário na vida como comer, dormir e ficar (em casa). Diante da situação assustadora para todos, a bióloga Lorena de Jesus Leite criou, em março de 2020, na capital, a empresa Assear Ambientes, especializada em sanitização (desinfecção) de todo tipo de espaço público ou privado. A partir de produtos liberados pela Anvisa, à base de quaternário de amônia, ela criou os protocolos sanitários próprios para atender a clientela que não para de crescer na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). “No ano passado, os meses de maior trabalho foram agosto, setembro, outubro. Em janeiro e março de 2021 e na última semana, também cresceu”, observa Lorena, que aguarda a definição por parte das autoridades, quanto à reabertura das escolas, para oferecer seus serviços.

MÃOS CRIATIVAS – Os primeiros meses da pandemia pegaram os brasileiros tão de surpresa, que qualquer pedaço de pano limpo servia de máscara. Mãe de Gabriella e Ana Marina e avó de Bernardo, de 7 anos, a artesã Hilda Carla Tibúrcio Mariano, moradora de Santa Luzia, na RMBH, ficou preocupada com a saúde da sua família e dos amigos. Debruçada sobre a máquina de costura, chegou a produzir, no primeiro semestre de 2020, cerca de 2 mil máscaras. “Haja coluna!”, ela brinca ao se referir às longas horas sentada. Criativa demais, Hilda Carla faz agora uma peça com uma parte visível na área da boca. “Uma amiga me disse que a filhinha dela começou a falar, e com esse tipo de máscara, pode ver os movimentos labiais”, conta satisfeita. Ouvindo dicas de conhecidos ou de olho na internet, ela produz um porta-máscaras, com dois espaços (um para a usada, outro para nova), e um chaveirinho de álcool em gel para prender na bolsa.

INVESTIMENTOS Os necessários gastos na pandemia do novo coronavírus estão altos. O presidente da Fiemg, Flávio Roscoe Nogueira, ressalta: “No país, desde o início da pandemia, Minas, por meio das indústrias, é o estado que mais tem investido em ações comunitárias”.

Representando o setor produtivo do estado, a Fiemg adquiriu 200 câmaras frias que servirão para o armazenamento das vacinas contra a COVID-19. A entrega simbólica dos equipamentos ao estado foi no último dia 26, na sede da instituição.

Desde o início da pandemia, segundo sua assessoria, a Fiemg concentrou esforços para mobilizar as indústrias do estado a se unirem em favor da vida em campanhas solidárias. Merecem destaque o apoio às pesquisas para mais opções de vacina, a doação de respiradores mecânicos e leitos de UTI, disponibilização a hospitais de cilindros para oxigênio, campanha para arrecadar fundos visando a compra de capacetes elmos, e ainda produção e doação, via Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai/Regional Minas Gerais), de 180 mil litros álcool glicerinado 70%, 1,6 milhão de máscaras cirúrgicas, 12 mil de tecido, 10 mil máscaras Face Shield e 11 mil jalecos, entre outras ações.

Projetos e Ações

Conheça alguns produtos, projetos e ações, em Minas, para doação ou atendimento às necessidades da população:

– Ventiladores pulmonares (respiradores) doados a hospitais públicos e filantrópicos.

– Produção de máscaras faciais e cirúrgicas, bem como jalecos e aventais para profissionais de saúde.

– tótem para álcool em gel, presente em locais públicos

– A diversificação é grande: há máscaras de todos os tipos, porta-máscaras com espaço duplo e chaveirinho para álcool em gel

– Os escudos faciais transparentes (face shield) também são produzidos para se evitarem a contaminação

– Na área de serviços, empresa de BH nascida em março faz sanitização de ambientes com protocolos sanitários próprios

Na UFMG

Em várias áreas do conhecimento, da produção de vacinas aos impactos econômicos e sociais, mais de 200 estudos estão sendo realizados na universidade, desde o início da pandemia, em parceria com outras instituições e fundações de fomento. Veja alguns:

– Desenvolvimento de sete vacinas contra a COVID-19, sendo uma, a Spintec, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)

– Desenvolvimento de tecnologia inédita para o diagnóstico da COVID-19 por meio de amostras de urina, mais simples, mais barata e menos invasiva do que os exames realizados por meio de coleta de sangue

– Desenvolvimento de uma plataforma portátil para identificar a COVID-19 de forma mais rápida e barata do que os testes atualmente disponíveis. O trabalho do Centro de Tecnologia em Nanoterapia tem apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig)

– Desenvolvimento, em conjunto com a iniciativa privada, do Nanoativ, composto químico de ação antiviral capaz de proteger superfícies do Sars-Cov-2 por até 28 dias. As fitas adesivas com o Nanoativ já estão disponíveis no mercado, e o composto químico também pode ser aplicado em loções gel sem álcool, espuma antisséptica e creme para as mãos

– Impactos sanitários e ambientais: monitoramento do novo coronavírus no esgoto, primeiramente em Belo Horizonte e já em outras cinco capitais brasileiras – Brasília, Recife, Rio de Janeiro, Fortaleza e Curitiba. A pesquisa é desenvolvida em parceria com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), com apoio da Copasa, Secretaria de Saúde de Minas Gerais e Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam)

– Impactos na saúde em geral e projeto de telessaúde; sobre saúde mental e interações sociais; e impactos econômicos e sociais

A vacina Spintec, desenvolvido pela UFMG, é uma das três em estágio mais avançado no Brasil

Spintec em estágio avançado

Desde o início da pandemia, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) se mobiliza e integra uma rede de pesquisadores dos ministérios da Saúde (MS) e da Ciência, Tecnologia, Inovações (MCTI) que trabalham no enfrentamento do novo coronavírus. Em várias áreas do conhecimento, da produção de vacinas aos impactos econômicos e sociais, mais de 200 estudos são realizados na universidade em parceria com outras instituições e fundações de fomento.

Em destaque está a vacina Spintec, uma das três em estágio mais avançado no Brasil, que terá o desenvolvimento das fases 1 e 2 dos testes clínicos em adultos saudáveis sem exposição prévia à covid-19, viabilizados pela Prefeitura de Belo Horizonte. Essas etapas, que devem ser concluídas até o final deste ano, são requisitos necessários para os ensaios de fase 3, quando é feita a testagem em massa, e aprovação da vacina pela Anvisa. Conforme termo assinado no final de maio, a PBH fará o repasse de R$ 30 milhões em parcelas que serão disponibilizadas conforme o desenvolvimento dessas fases, via Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep).

A condução dos estudos da Spintec está a cargo do Centro de Tecnologia em Vacinas (CT Vacinas), sob a coordenação dos professores da UFMG Ricardo Gazzinelli, Ana Paula Fernandes, Santuza Teixeira e Flávio da Fonseca e conta com a parceria do MCTI e da Fiocruz Minas. A plataforma tecnológica usada no desenvolvimento da Spintec consiste na combinação de diferentes proteínas para formar uma única, artificial. Esse composto, chamado de “quimera”, é injetado no organismo em duas doses e induz à resposta imune. Por não usar exclusivamente a proteína S, na qual se dá a maioria das mutações, as chances de sucesso desse imunizante no combate às novas variantes são bastante elevadas.

Quando inoculado em camundongos juntamente com um adjuvante vacinal já testado em humanos, o composto foi capaz de induzir a 100% de proteção para a covid-19. No momento, estão sendo realizados ensaios de tolerabilidade e imunogenicidade em primatas não humanos, destinados, respectivamente, a detectar possíveis efeitos colaterais e a confirmar a geração de anticorpos nas células de defesa.

A expectativa é que a fase de testes clínicos seja alcançada entre o final de 2021/22. Com isso, espera-se seguir para a fase 3, de testes em massa, no primeiro semestre de 2022. Conforme a professora Ana Paula Fernandes, uma das coordenadoras do CT Vacinas à frente do desenvolvimento da Spintec, “ainda não temos recursos disponíveis para a fase clínica 3, mas esperamos consegui-los de diferentes frentes, públicas e privadas. A depender desses recursos, concluiremos a fase 3 no primeiro semestre do ano que vem para que a vacina esteja em condições de ser produzida e chegar ao braço da população no final de 2022”.

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