Da Itália, Alexandre da Frimisa fala da convivência com o medo do vírus corona

Da Itália, Alexandre da Frimisa fala da convivência com o medo do vírus corona
Alexandre mora em Turim, cidade no norte da Itália, a região mais afetada pelo novo vírus

Júnia de Oliveira, de Avignon, França, para o Estado de Minas

Com os 27 países da União Europeia tomados pela ameaça do coronavírus, dois dos principais destinos de brasileiros são também os mais afetados no Velho Continente. Juntas, Itália e França somam quase 12 mil casos confirmados e 664 mortes, tornando-se ilhas de incerteza para mineiros que escolheram essas nações para viver em família ou estudar. Sob o peso de medidas drásticas ou na expectativa de novas condutas nos próximos dias, filhos das Gerais e de outros estados brasileiros relatam a rotina de apreensões, além do temor pela família que ficou no Brasil, onde já há 34 casos confirmados e 893 suspeitos.

Eventos estão sendo cancelados e fronteiras vêm se fechando, bem como escolas de vários países, como Espanha (em Madri), Grécia e Itália. Com 10.149 casos confirmados, a Itália é o país mais afetado depois da China. São 631 mortes, tendo ontem à noite batido o recorde: 168 novos óbitos num período de apenas 24 horas. Anteontem, o governo endureceu as regras e determinou o confinamento em todo o país. Os estabelecimentos de ensino já estavam fechados até o próximo dia 15.

“pessoas começam a ter uma certa desconfiança”
Natural de Belo Horizonte, o especialista em bioética Alexandre Resende (conhecido como Alexandre da Frimisa), de 53 anos, vive há mais de 30 na Itália e pela primeira vez se vê diante de restrições. Ele mora em Turim, próximo à Lombardia, região mais afetada pela doença em território italiano. Antes desfrutando da rotina em uma cidade cuja situação era considerada tranquila, agora ele enfrenta a condição de sair só mesmo para o trabalho. “Essa medida foi a mais correta. O problema é que muitos italianos não absorveram ainda algumas regras importantes, como evitar saídas desnecessárias. Se o gráfico (da doença) não diminuir ou se estabilizar, as regras poderão ser ainda mais severas.”

Resende conta que o cotidiano já havia sido alterado, por mais que os moradores queiram manter um tom de normalidade. “As pessoas começam a ter uma certa desconfiança. Você vê no seu próximo um potencial transmissor do vírus”, afirma. Ele se emociona com as cenas que viu na televisão, nas zonas do país onde ninguém entra, ninguém sai. “Vi situações chocantes, como um pai levando comida para a filha e sendo obrigado a deixar tudo numa linha vigiada pela polícia, para ela pegar na sequência”, diz.

Diante do quadro, Alexandre Resende acha que as medidas básicas, como lavar as mãos regularmente, não podem ser esquecidas. “Evito apertos de mãos, mas, às vezes, instintivamente você faz. Estão cancelando todos os shows. Não podemos ir ao cinema. Aglomerações estão proibidas”, conta. “E em meio a tudo isso, a Itália vive um momento delicado em nível político e social, que complica ainda mais a situação”, relata.

Na França
Estudante da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Felipe Cerqueira Lyra, de 23 anos, também originário de Belo Horizonte, está no fim do curso de engenharia elétrica e faz intercâmbio pela universidade numa instituição de ensino em Paris há um ano e meio. Ele acha que uma certa paranoia começa a tomar conta da população, mas sem mudança radical de hábitos. “As medidas tomadas pelo governo e pela universidade são apropriadas. Tendem a diminuir a possibilidade de a doença se espalhar, embora não a impeça”, diz. “Eu já tinha o hábito de lavar as mãos várias vezes, então não mudei nada. Triste é o que tem ocorrido, sobretudo, com os asiáticos. Tenho colegas chineses que reportaram terem presenciado pessoas se afastarem de asiáticos ou mesmo insultá-los.”

Brasileiros que vivem na França assistiram aos casos começarem a explodir na última semana de fevereiro e, de um dia para o outro, os números aumentam numa proporção impressionante. A advogada franco-brasileira Manuela Cambe Diniz, de 42, que deixou o Rio de Janeiro há oito meses com o marido e os dois filhos para morar em Avignon, na Região da Provença, no Sul do país, onde vive sua família materna, já sente o peso do coronavírus. Ela trabalha no Tribunal de Justiça da cidade, onde cartazes foram afixados proibindo abraços e apertos de mãos. Frascos de álcool em gel também foram disponibilizados para os funcionários. “Festejamos na semana passada o aniversário de uma colega na hora do almoço. Demos presentes, mas nenhum beijo nela”, conta.

Uma temporada do filho em Londres, programa da escola previsto para maio, foi cancelada. A mãe dela, que está no Brasil, tinha viagem marcada para a França e Itália. Já suspendeu os planos. “Apesar de tudo, tenho muito mais medo pela família e os amigos que estão no Brasil que por nós. Aqui, as respostas estão sendo dadas. Lá, o sistema público talvez não consiga fazer as barreiras sanitárias”, considera.

O país da alta gastronomia acumulou, em 2017, segundo os últimos dados disponibilizados pela Agência de Desenvolvimento Turístico da França (Atout France), 1,93 milhão de entradas e 700 mil turistas brasileiros. A Latam, que suspendeu seus voos para Milão (Itália), tem uma rota diária entre São Paulo e Paris, ainda não tomou medida semelhante em relação à França, mas informou, por meio da assessoria de imprensa, que “está atenta ao cenário de propagação do vírus e segue operando seus demais voos programados para outros destinos”.

213 suspeitos em Minas
Subiu para 213 o número de casos suspeitos de infecção pelo novo coronavírus (COVID-19) investigados pela Secretaria de Estado da Saúde em Minas – um aumento de 52 em relação ao levantamento de anterior, de segunda-feira. De acordo com o informe epidemiológico, foram descartadas 29 suspeitas da doença. O estado tem 42 cidades com casos suspeitos, de acordo com o balanço da SES. O acompanhamento dos mineiros com suspeita da enfermidade mostra que a maioria apresenta histórico de viagem para países com circulação do novo coronavírus, como Itália, França, Inglaterra e Portugal.

Na porta da escola, os pais não se cumprimentam mais com abraços e apertos de mão
“Cheguei com a família à França no fim de dezembro. Confesso que só comecei a me preocupar com o coronavírus na última semana de fevereiro, quando os casos começaram a aumentar drasticamente de um dia para outro por aqui. As crianças estavam em férias de inverno, e aí, já não mais saí para o parque de diversões, praças nem cinema, mesmo estando no Sul do país, na região da Provence, ‘longe’ das cidades foco. Lavar as mãos ao voltar da rua sempre foi uma obsessão minha. Agora, se pudesse carregar a pia comigo, o faria. A cada vez que entro no elevador ou abro a porta do prédio tenho a impressão de confrontar o vírus.

Na volta às aulas, vi de perto a medida tomada em todas as escolas e universidades do país: bilhetes reforçando as condutas de higiene e pedindo a quem tivesse viajado para alguma zona endêmica, dentro ou fora do país, que informasse imediatamente. E o medo de algum coleguinha dos meninos ter viajado e, mesmo assim, estar em sala de aula? Na porta da escola, os pais não se cumprimentam mais com abraços e apertos de mão. Minha vizinha de frente e a corretora de imóveis adotam a mesma postura. Acompanho as coletivas de imprensa morrendo de medo das novidades, sobretudo por ter duas crianças em casa.

Queríamos comprar máscaras, mas, depois de percorrer cinco farmácias, desistimos. Há uma espécie de paranoia, mas é interessante como, apesar do medo, todos conseguem levar a vida normalmente. As medidas do governo me passam segurança. Tenho achado eficaz a barreira sanitária – logicamente, ela não impede a propagação do vírus, mas diminui muito os riscos. Diante de uma epidemia iminente, acho incrível como ainda estão conseguindo segurar a situação. Sobretudo, diante de uma crise de médicos.

A França, um dos países mais avançado em termos de saúde, não tem profissionais suficientes para atender à população (e isso não tem nada a ver com o coronavírus). Ocorre porque há uma geração de médicos se aposentando agora e o número de formandos não é suficiente para cobrir o território. Na França, o ensino de medicina é público. O privado é proibido por lei. Em 2019, foi autorizado aumento no número de vagas nas faculdades, mas os efeitos só serão sentidos daqui a anos. Por causa do coronavírus, horas-extras foram autorizadas ao pessoal de saúde e aposentados talvez sejam convocados. Os hospitais estão preparados para o pior, sem esquecer as outras doenças. Por isso tanto zelo: não ter como tratar os pacientes é algo impensável por aqui.” (Júnia Oliveira)

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