José Correia de Miranda, o bairro onde Santa Luzia nasceu e a Capela de Santana

José Correia de Miranda, o bairro onde Santa Luzia nasceu e a Capela de Santana
Imagem de Santana: retorno da primeira padroeira das terras luzienses é grande desejo da comunidade de Santa Luzia

*Adalberto Andrade Mateus
Marcos Paulo de Souza Miranda

A historiografia que se formou sobre os primórdios de Santa Luzia tem repetido, ao longo dos anos, que o povoamento da localidade decorreu da chegada à região do bandeirante paulista José Correia de Miranda, que aqui teria se estabelecido.

De acordo com a Enciclopédia dos Municípios Mineiros , por exemplo: A história da cidade, que está próxima a dois famosos incidentes geográficos mineiros – Serra da Piedade e rio das Velhas – começa com José Correia de Miranda, que partiu de Taubaté com a bandeira de Antônio Dias de Oliveira e o Padre Faria, responsáveis pela descoberta do ouro na região Ouro Preto. Motivado pela febre do ouro, o taubateano se embrenhou pelos sertões do rio Guaicuí em busca de novas descobertas e foi às margens desse rio, que mais tarde ganharia o nome de rio das Velhas pelos colonizadores, que teve início um núcleo populacional em função do metal descoberto por José Correia em fins do século XVII.

Contudo, descobertas recentes decorrentes de pesquisas realizadas em arquivos nacionais e portugueses, conquanto confirmem o pioneirismo de José Correia de Miranda no território luziense, traz novidades sobre as suas verdadeiras atividades econômicas (nunca foi bandeirante) e sua real origem (procede de Portugal).

A chegada de José Correia de Miranda à região de Santa Luzia tem estreita relação com a figura de Artur de Sá e Menezes, português que foi Governador do Maranhão entre os anos de 1687 e 1690. Quando se dirigiu ao Brasil, Artur de Sá e Menezes trouxe consigo pessoas de confiança, entre as quais estava João Teles de Miranda, que assumiu o posto de secretário do governador em terras maranhenses.

Batizado de José Correia de Miranda em Oeiras, Portugal,no ano de 1670

Em 1697, época dos primeiros descobertos do ouro, Artur de Sá e Menezes foi nomeado Governador e Capitão General das Capitanias reunidas do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas, assumindo o posto em 02 de abril daquele ano. Mais uma vez, Artur não deixou de trazer em sua comitiva o amigo João Teles de Miranda, homem de sua estrita confiança, que recebeu Alvará Real provendo-o no posto Escrivão da alfândega e almoxarifado do Rio de Janeiro em 08 de novembro de 1698.

João Teles de Miranda e Mariana Soares foram pais de Luis Teles de Miranda (casado e residente na região de Loures, em Portugal); Sebastião Correia de Miranda, casado em Oeiras com Mariana Pacheco, passando posteriormente a Angola e às Minas Gerais; João Soares de Miranda, casado no Rio de Janeiro com Urbana de Azevedo Coutinho e, por fim, José Correia de Miranda, povoador pioneiro de Santa Luzia do Rio das Velhas e considerado como um dos fundadores da cidade.

Segundo Maria da Graça Menezes Mourão, Os Correa de Miranda, proveniente dos Teles de Miranda, eram “portugueses de conhecida nobreza”, assim cognominados por D. Braz Baltazar da Silveira, governador de Minas Gerais (1717-1721). Os filhos se tornaram homens de confiança acompanhando os quatro primeiros governantes da Capitania de Minas Gerais, começando por Artur de Sá e Menezes. O progenitor da família no Brasil, João Teles de Miranda se tornou seu homem de confiança desde a sua vinda como governador do Maranhão, em 1695, vindo para as “minas antes das Minas”

GENEALOGIA DA FAMÍLIA CORREIA DE MIRANDA
O português José Correia de Miranda nasceu na cidade portuguesa de Oeiras, onde foi batizado em 05 de janeiro de 1670. Durante a infância fez estudos de gramática e latim com o Padre Antônio de Oliveira Ribeiro, adquirindo elevado grau de educação para os padrões da época. Posteriormente, veio ao Brasil na companhia de seu pai, vivendo inicialmente no Maranhão e, posteriormente, no Rio de Janeiro, sempre amparado pela autoridade de Artur de Sá e Meneses, amigo de seu genitor.

Assinatura de José Correia de Miranda em 1730

É possível que José Correia de Miranda tenha chegado à região do Rio das Velhas em fevereiro de 1702, data em que aportou ao Arraial de Sabará o Governador Artur de Sá e Menezes e sua comitiva, com o fito de adotar providências em benefício da melhor administração das minas.

Fato é que, nos primeiros anos do século XVIII, José Correia de Miranda estabeleceu-se na margem esquerda do Rio das Velhas, entre Sabará e Macaúbas, onde instalou um importante serviço de extração de ouro, que contava com maquinaria (engenho) e avultado número de escravos. Além de atividades minerárias, José Correia de Miranda também trabalhava com atividades rurais, inclusive obtendo uma sesmaria na região em 29 de julho de 1718.

Em razão da pujança das atividades econômicas ali desenvolvidas, secundadas pelo comércio de gado vindo da Bahia realizado pelo boiadeiro Sebastião Correia de Miranda(nascido em 1672), irmão de José Correia, no local logo surgiu um arraial em que foi erguida uma capela dedicada a Santana, considerada a protetora dos mineradores.

O mais antigo registro documental que encontramos sobre a Capela de Santana de José Correia data de 14 de janeiro de 1725, ocasião em que o Padre Paulino Pestana de Souza batizou Manoel, filho do Capitão José Vieira de Viveiros e de Dona Francisca Maria Correia de Miranda, sendo esta filha de João Soares de Miranda. Figurou como padrinho Sebastião Correia de Miranda.

Em 1738 João Soares de Miranda, nascido em Nossa Senhora da Purificação de Oeiras em março de 1667, lavrou seu testamento de última vontade, deixando assentado que “meu corpo será sepultado na Capela de Santana, de que sou administrador adido”. Naquela época o capelão do templo de Santana era o Padre Antônio Álvares Pugas.

Documento de 1742 mencionando o Padre Antônio Álvares Pugas como “Capellão na Capella do Coronel José Correa de Miranda”

Em paralelo a suas atividades como minerador, José Correia de Miranda, que gozava de grande consideração e respeito na administração colonial daqueles tempos, foi alcançando cargos públicos de relevo.

O mesmo ocorreu com os irmãos dele, Sebastião Correia de Miranda e João Soares de Miranda, que também viviam no entorno do arraial de José Correia, centro minerador e comercial, onde residiam importantes autoridades da administração colonial da Capitania de Minas Gerais.

Em 1720, no lançamento de impostos sobre a propriedade de escravos na Vila do Sabará, José Correia de Miranda figura como o maior proprietário de mão de obra escrava do local, com setenta e dois cativos.

Conquanto não existam documentos que comprovem a data exata da morte de José Correia de Miranda, as informações indicam o seu falecimento por volta de 1748. É provável que tenha sido sepultado no interior da Capela de Santana, por ele fundada.

A documentação pesquisada não esclarece se José Correia de Miranda se casou e se deixou descendência, mas seu nome ficou gravado na história de Santa Luzia e na memória do povo luziense como o pioneiro povoador desta abençoada cidade.

O POVOADO DE JOSÉ CORREIA NO SÉCULO 19
Durante o século XIX, o povoado que ficou conhecido pelo nome de seu pioneiro foi diversas vezes citado em diferentes fontes de documentação. Além de ser nominado nos recenseamentos apresentados por religiosos, como é o caso de Dom Frei José da Santíssima Trindade(1762-1835), e da Corografia Histórica da Província de Minas Gerais publicada, em 1837, por Raimundo José da Cunha Matos (1776-1839), o povoado também foi descrito por viajantes.

Elementos artísticos provenientes da antiga Capela de Santana são da primeira fase do barroco em Minas Gerais

Uma descrição que ganha destaque pela importância do observador, é a feita pelo Imperador Dom Pedro II, em sua célebre viagem à então província de Minas Gerais, em abril de 1881. Ao descer o rio das Velhas na barcaça Cônego Santana, o imperador registrou a sua passagem pela povoação, localizada à margem esquerda, e fez a anotação de que se tratava de um “bonito lugar”.

Com relação aos números de moradores e residências, os dados nos mostram um decréscimo verificado no curto prazo de pouco mais de dez anos. No relatório de dom Frei José da Santíssima Trindade, de 1822, são apontadas 553 almas (pessoas) e 133 fogos (moradias). Já nos dados de Cunha Matos, cujo levantamento é publicado 15 anos depois, são apontadas 407 almas morando em cerca de 70 moradias.

A FÉ EM SANTANA
A mencionada Capela de Santana construída no povoado segue a tradição da implantação do culto religioso de tradição católica simultaneamente à ocupação e povoamento dos territórios no processo da colonização portuguesa. A devoção à padroeira dos mineradores era crescente nos arraiais mineiros, tanto pelas razões de seu patronato nas regiões de exploração aurífera quanto às diretrizes da Igreja Católica ao reafirmar o papel da mãe de Nossa Senhora em contexto pós-Concílio de Trento.Além, é claro,de considerar o seu papel de intercessora para a proteção dos lares e das mães de famílias.

Podemos considerar a Capela de Santana de José Correia no grupo das primeiras capelas construídas na zona de povoamento de Sabará. E, mais uma das evidências de sua antiguidade são os ornamentos filiados ao estilo Nacional Português, que vigorou entre os anos de 1675 e 1725. É o mesmo estilo que se verifica em outras capelas da região do Vale do Rio das Velhas, como atesta o pesquisador Alex Bohrer, que se dedicou ao estudo da talha do Estilo Nacional Português na região em sua tese de doutorado.

“Contudo, salta aos olhos, pela quantidade e qualidade artística, a confecção deste tipo de peça [do Nacional Português] na Bacia do Rio das Velhas. Há retábulos afins em Sabará (Matriz de Nossa Senhora da Conceição, Igrejinha de Nossa Senhora do Ó e Capela de Santo Antônio de Pompéu), Raposos (Matriz de Nossa Senhora da Conceição), Caeté (Capela de Nossa Senhora do Rosário), (…)”. Bem próximo ao núcleo de povoamento implantado por José Correia, cujos ornatos remetem ao mencionado estilo, encontramos, ainda, a capela rural dedicada a Nossa Senhora da Soledade, à margem da estrada que liga Santa Luzia e Sabará, com seus ornamentos também filiados ao mesmo estilo.

Tudo indica que, em meados do século XIX, o povoado de José Correia começou a entrar em um período de estagnação econômica. O historiador Edelweiss Teixeira informa para esse período o arruinamento da capela primitiva e a trasladação da imagem da padroeira para nova capela erguida no centro da vila de Santa Luzia do Rio das Velhas. O padre Augusto do Espírito Santo, residente em Santa Luzia entre 1891 e 1912,em carta datada de 1895, confirma a transposição da capela, por motivo de arruinamento, e a manutenção de seu título de “Igreja de Santana de José Correia”, agora localizada na Rua de Trás (atual rua Floriano Peixoto).

Capela de Santana construída na rua Floriano Peixoto (já demolida) acolheu os elementos artísticos e a imagem da padroeira do primeiro povoado luziense. Foto: Wilson Baptista

Os elementos artísticos da capela de Santana, incluindo a imagem da padroeira, e parte da talha dourada com motivos fitomorfos (folhas de acanto, cachos de uva e folhas de parreira) foram transpostos para a nova capela no centro da cidade e, posteriormente, em 1954, foram novamente remontados no interior do Hospital de São João de Deus, onde atualmente se encontram. Como trata-se de uma remontagem, alguns dos elementos podem ter se perdido ao longo das sucessivas mudanças, o que acarreta na dificuldade para uma leitura da originalidade da composição do retábulo primitivo.Já a imagem da padroeira, que teria sido comercializada na década de 1960, está sub-judice.

O povoado de José Correia, mesmo sem a sua capela original, continuou existindo no início do século XX, com agricultura de subsistência sendo desenvolvida por seus moradores quese aproveitavamdas terras férteis do vale e da proximidade com o rio das Velhas. Em 1924, foi erguida uma nova capela no povoado, desta vez sob o patronato de Santa Rita de Cássia.

O povoado de José Correia continuou sendo mencionado em mapas no século XX como no Album Chorographico Municipal do Estado de Minas Geraes, de 1927, e na carta Santa Luzia, elaborada pelo Departamento Geográfico de Minas Gerais (integrado ao IBGE), em 1950.Com a chegada das atividades industriais na região do José Correia, e mais especificamente com a implantação da unidade fabril da Klabin Irmãos e Cia. a partir de 1965, o povoado foi definitivamente transferido para o alto do morro, com a nova denominação de Vila Santa Rita.

*Associados do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais

Deixe um comentário

Mantemos a privacidade de seu e-mail. Os campos obrigatórios estão marcados com *

Cancel reply