Nossa História: os primeiros vestígios da presença humana em território luziense

Nossa História: os primeiros vestígios da presença humana em território luziense

Luzias

Na semana em que a cidade comemora seus 327 anos, o promotor da 6ª Promotoria de Justiça de Santa Luzia, Marcos Paulo de Souza Miranda, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais(Cadeira nº 93. Patrono: Orville Derby), divulga um artigo inédito sobre as mais antigas ocupações da nossa região, o que mostra a relevância e a oportunidade para novas e importantes descobertas arqueológicas na cidade. O artigo aponta para a necessidade de a comunidade se conscientizar de sua ancestralidade pré-histórica e cobrar das autoridades medidas que garantam sua preservação. Episódios como o da destruição do patrimônio arqueológico da Fazenda da Baronesa pela construtora Tenda S/A, no bairro Belo Vale, não podem se repetir.

Leia o artigo sobre nossa ancestralidade:

De acordo com a historiografia tradicional, o povoamento de Santa Luzia, conforme amplamente difundido, teve início nos últimos anos do Século XVII, com a corrida pelo ouro empreendida por dissidentes da famosa Bandeira de Fernão Dias Paes e Manoel de Borba Gato, entre os quais estaria José Correa de Miranda, responsável pela construção da antiga Capela de Santana, na região conhecida como Bicas, às margens do Rio das Velhas (nas proximidades do atual portal da Avenida das Indústrias), por volta de 1692.

Com efeito, teria sido esse o marco da chegada dos povoadores brancos à região de Santa Luzia, situada na Região Metropolitana de Belo Horizonte, inaugurando o denominado “período histórico” da cidade.

Contudo, muito antes do surgimento da febre do ouro, que atraiu os primeiros paulistas e europeus para estas plagas, toda a região já era ocupada por antigos povoadores nativos que viviam em aldeias às margens do Rio das Velhas (chamado pelos indígenas de Guaicuí) e de outros ribeirões seus afluentes, como o Vermelho, Taquaraçú, da Mata e o Baronesa.

Ferramentas de pedra polida e lascada (machados, pontas de projétil, soquetes e bigornas), vestígios de utensílios de cerâmica (vasilhames utilitários, urnas funerárias e fusos para tecer), bem como pinturas rupestres gravadas em abrigos rochosos já foram localizados em Santa Luzia e ajudam a contar a história dos verdadeiros pioneiros do território luziense: os indígenas.

Tivemos a oportunidade de registrar a ocorrência de artefatos líticos, mais especificamente lâminas de machado, com acabamento picoteado e polido, descobertos na região denominada Candão, nas proximidades da Avenida Frimisa, e também na Fazenda da Lapa, divisa com Taquaraçu de Minas.

Já nas Chácaras Santa Inês (região do São Benedito), na década de 1970, quando eram abertas as ruas do antigo chacreamento, foram encontrados muitos artefatos pré-históricos como potes cerâmicos de variados tamanhos, machados, soquetes, pontas de projétil, bigornas, fusos, lascas de quartzo e centenas de cacos de cerâmica que comprovam que ali provavelmente existiu um grande aldeamento pré-histórico. Uma parte dos vestígios foi recolhida por antigos moradores e outra por arqueólogos da Universidade Federal de Minas Gerais, onde estão recolhidos.

O conjunto é expressivo e tem potencialidade para constituir uma mostra importante da arqueologia luziense.

Pesquisas arqueológicas esparsas também já tiveram a oportunidade de encontrar vestígios arqueológicos pré-históricos na região de Pinhões (Sítios Rio Vermelho), na Fazenda Milged (entre o Novo Centro e o Mega Space) e nas proximidades de Taquaraçu de Baixo (Sítio Barreiro).

No interior do Refúgio da Vida Silvestre de Macaúbas há um abrigo rochoso em calcário com dezenas de pinturas rupestres nas cores vermelho e preto. O sítio, integrante da Tradição Planalto, ainda não foi objeto de pesquisas arqueológicas sistemáticas, o que, se realizado, poderá trazer informações valiosas sobre os antigos povos que habitavam o município e eventuais conexões com os conhecidos e famosos sítios da região de Lagoa Santa, depositários de vestígios pré-históricos que remontam a doze mil anos, considerados os mais antigos de Minas Gerais e do Brasil.

Enfim, o passado de Santa Luzia retrocede para muito além do período da descoberta do ouro. A cidade está situada nas proximidades da Área de Proteção Ambiental Carste de Lagoa Santa, que abriga um dos mais numerosos e expressivos conjuntos arqueológicos do país. O potencial para novas e importantes descobertas arqueológicas na cidade é muito grande.

É preciso que a comunidade local se conscientize sobre sua ancestralidade pré-histórica e cobre das autoridades constituídas maior empenho para a preservação, conhecimento e divulgação dos primeiros vestígios da presença humana em solo luziense, adotando providências para que esse patrimônio não seja destruído sem sequer ser pesquisado.

Referências

JUNQUEIRA, Paulo. MALTA, Ione Mendes. Sítios Cerâmicos da região de Lagoa Santa. Arquivos do Museu de História Natural. Vol. III. Belo Horizonte. 1978. p. 117-170.
Projeto de Diagnóstico Arqueológico Interventivo nas Áreas Diretamente Afetadas pelo Loteamento Milged. Arqueólogo Coordenador: Márcio Walter de Moura Castro. Processo IPHAN N 01514.001835/2010-30.
SCIENTIA. Projeto de Arqueologia Preventiva na Área de Intervenção da LT 500 kV Neves 1 – Mesquita. São Paulo, Scientia Consultoria Científica, 2007.
SCIENTIA. Arqueologia Preventiva na Área de Intervenção da LT 500 kV Neves 1 – Mesquita. Prospecções arqueológicas: Relatório Final. São Paulo, Scientia Consultoria Científica, 2008.
SCIENTIA. Arqueologia Preventiva na Área de Intervenção da LT 500kV Neves 1 – Mesquita, MG – Segunda Etapa: Resgate Arqueológico.São Paulo, Scientia Consultoria Científica, 2008.

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