Fabiana, a luziense bi-campeã olímpica

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  • 17 de março de 2018
Fabiana, a luziense bi-campeã olímpica
A luziense de 1,93 m do mais puro talento

O Dentil Praia Clube, de Uberlândia, no qual joga a bi-campeã olímpica luziense Fabiana Claudino, 33, derrotou o Sesc-Rio neste domingo, 22 de abril, e conquistou o título inédito de campeão da Superliga de Vôlei 2018. Fabiana foi um dos destaques da partida, realizada em Uberlândia. Conheça melhor a luziense que brilha nos estádios do mundo inteiro, neste artigo do portal G1, publicado em julho de 2016, pouco antes das Olimpíadas do Rio.

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A cidade inteira ouviu quando foi batizada Fabiana. Em Minas Gerais, a riqueza do passado ainda está diante dos olhos, nos casarões e nos altares. Em Santa Luzia, Fabiana aprendeu que o ouro vale menos do que o carinho da família.

“Nos momentos que eu mais preciso eles estão comigo, nos momentos mais felizes também eles estão comigo. Então, eu acho que eu poder ter essa ajuda, esse suporte, pra mim não tem coisa melhor. Eu saí daqui uma meninona, uma criançona”, conta Fabiana.

Partiu ao lado da mãe pelas ruas que quase não mudaram desde o século 18.

E 300 anos depois, a moradora de Santa Luzia reencontrou o caminho do ouro. E ele começa numa viagem de ônibus, que sai de Minas Gerais, passa por vários continentes e termina no alto do pódio olímpico.

Para Fabiana, andar de ônibus é bem mais do que ir daqui até ali. Ela só existe porque 38 anos atrás, a passageira Maria do Carmo encontrou o motorista Vital.

“É, era uma coisa que estava mesmo pra ser escrito, né”, diz Vital Claudino, pai da Fabiana.

“A gente espera o cupido num cavalo branco, de repente veio de ônibus”, conta Maria do Carmo Claudino, mãe da Fabiana.

Nasceu assim uma família alta. Com quase 1,80 metro, Maria do Carmo é a baixinha da casa.

Com os pais, Vital e Maria do Carmo, a baixinha da família: quase 1,80m

“Aí me chama de tampinha”, diz a mãe.

Os filhos Fabiana e Bruno pegam fruta no pé sem escada.

A atleta de 1,93m herdou também a grandeza da avó. Aos 80 anos, dona Rita é gigante no pensamento.

“Eu não gosto de ficar diminuindo, não. Gosto de sonhar alto”, diz a avó.

Aos 13 anos, Fabiana percebeu que altura era destino. Já tinha 1,85m. Era perfeita para o vôlei. Um esporte que desde criança ela detestava.

“No início eu não queria fazer de jeito nenhum. Falava: ‘Ai, mãe, não quero ir’, chorava, enfim”, revela.

A menina alta só não desistiu por insistência da mãe e persistência da primeira professora, Yara Ribas, um nome para guardar.

“Eu não sabia nada, não sabia movimento, eu não tinha noção de nada e ela sempre me pegava no cantinho, me ensinava toque, me ensinava manchete. Posso dizer que ela foi uma professora e que ela construiu uma jogadora”, diz Fabiana.

Horas e horas de bola na parede e solidão. Manchete, cortada, toque. O bê-á-bá do vôlei. A recompensa de todo esse esforço pode ser uma única bola. Um único ponto de Fabiana calou os críticos que ela teve de aguentar durante anos e anos.

“Foi um time que a gente sempre foi tachada de amarelona, que a gente batia na trave e não chegava a lugar nenhum”, lembra.

Na Olimpíada de Atenas, em 2004, a seleção brasileira teve seis chances de fechar o jogo contra a Rússia. Desperdiçou todas e acabou fora da decisão.

“Ah, não chega à final, porque vocês amarelam. Isso foi a pior parte”, conta a mãe.

Em 2008, em um inédito ouro em Pequim, essa história parecia ter ficado para trás. Mas, nos jogos de Londres, vieram derrotas inexplicáveis, quase ninguém acreditava na medalha. Veio então o jogo contra a Rússia, a grande favorita.

Quando ainda nem sonhava que o vôlei a tornaria famosa no mundo inteiro

“Então tem hora que até eu paro para pensar, falo assim: ‘Gente, como que eu saí daquele momento’? Tipo, ontem eu estava chorando, uma noite sem dormir, e no outro dia tinha que estar jogando 100% com um sorriso na cara”, diz Fabiana.

A avó tem uma explicação bem simples: “Índio não tem medo de nada, não. Ela carrega essa tradição”.

Assim como o Brasil em 2004, dessa vez foi a Rússia que teve seis chances de fechar o jogo com o último ponto e não conseguiu. O Brasil teve uma só, nas mãos de uma filha de negros, neta de índios. A Rússia conheceu Fabiana do Brasil.

“Hoje ela passa para essas jogadoras, principalmente para as mais novas, tudo o que significa vestir a camisa da seleção brasileira e representar o nosso país”, explica José Roberto Guimarães, técnico da seleção brasileira.

Essa história podia terminar nas lágrimas de felicidade no ginásio de Londres. Fabiana nunca poderia imaginar que um choro bem mais amargo estava por vir. No dia 27 de janeiro de 2015, a bicampeã olímpica foi jogar em Belo Horizonte como visitante, pelo time do Sesi. No mesmo lugar onde aprendeu a jogar e a amar o vôlei, ela demorou a acreditar no que estava ouvindo.

“’Macaca, joga a bola pra macaca’”, lembra a atleta.

A família estava na arquibancada e também ouviu.

“Ah, machucou muito”, lembra o pai.

“Pobre de espírito”, resume a mãe.

“Querendo ou não é uma coisa que fica na cabeça da gente, então é difícil ter que passar por isso. Acho que quem passa por isso um dia vai entender”, lamenta.

“Não sabe que vai machucar a mãe, o pai, mas eu pedi a Deus por ele, depois. E passou, graças a Deus. Mas no momento machucou muito”, contou o pai.

A agressão atingiu a jogadora mais querida da seleção.

Em 20 de novembro de 2017, ela postou esta foto no Facebook, com os seguintes dizeres: Hoje, no dia da Consciência Negra, fico com a célebre frase de um grande homem;
“Se soubesse que o mundo se desintegraria amanhã, ainda assim plantaria a minha macieira. O que me assusta não é a violência de poucos, mas a omissão de muitos. Temos aprendido a voar como os pássaros, a nadar como os peixes, mas não aprendemos a sensível arte de viver como irmãos.” (Martin Luther King)

“Fabiana foi escolhida pela equipe como capitã. E ela foi escolhida por unanimidade”, diz Zé Roberto.

E quem melhor do que a líder de um time com duas medalhas de ouro para ser a primeira atleta do Brasil a receber a tocha olímpica no país?

Antes de ir pela quarta vez a uma Olimpíada, Fabiana faz questão de mostrar o lugar onde tudo começou. Ela quer falar sobre Yara Ribas, lembram? A primeira professora, a que ensinou tudo.

“O papel dela, eu falo que sempre foi a minha segunda mãe, porque ela que teve a paciência, ela que me ensinou todos os movimentos, ela acreditou, ela fez eu confiar e acreditar cada vez mais no que eu podia fazer, do que eu era capaz”, diz.

“Estou muito emocionada de ver a Fabi”, conta a professora.

“Acho que eu não tenho nem palavras para agradecer todo amor, todo carinho, toda a dedicação que ela teve comigo, toda paciência que ela teve de me ensinar tudo, eu não sabia nada. Acho que até o andar ela me ensinou”, conta Fabiana.

Os jogos vão começar.

Em Santa Luzia, todo mundo aprendeu a esperar o futuro com paciência e fé. Os sinos estão sempre prontos para soar o toque de festa. Afinal, já faz tempo que o povo daqui conhece o caminho do ouro. (Fonte: Portal G1 19/07/16)

Veja esta reportagem sobre a estrela luziense:

Fabiana Claudino foi o destaque da série "Atletas Olímpicos" do Jornal Nacional desta terça-feira, 19/07 #FabianaClaudino #Atleta #OlimpíadasRio2016 #Ouro #ApaixonadosPorVôlei #WCBNews

Publicado por WCB News Vôlei em Terça-feira, 19 de julho de 2016

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