Cidade celebra Semana Santa há quase três séculos

Cidade celebra Semana Santa há quase três séculos
Altar Mor da igreja Matriz coberto de roxo para a Quaresma – fotos CMagno

Rituais combinam a fé católica com as manifestações artísticas do barroco mineiro

Barbosa Chaves

A Semana Santa é a mais antiga e tradicional celebração religiosa de Santa Luzia. Ao longo de quase três séculos, na última semana da Quaresma, a população do centro histórico repete o ritual de fé católica que combina religiosidade e arte, com todo requinte e beleza do barroco mineiro. É nesta época que se encontram parentes há muito sumidos, amigos distantes e luzienses que voltam à cidade para reviver as tradições locais.

Não há dados precisos sobre as primeiras procissões e cerimônias religiosas realizadas para celebrar a paixão e ressurreição de Cristo na cidade. Mas os Motetos dos Passos, cantados até hoje pelo Coro Angélico, foram compostos pelo maestro Francisco de Paula Marinho para a Semana Santa de 1798. Já as imagens usadas nas celebrações são ainda mais antigas e sugerem que o ritual é repetido em Santa Luzia há bem mais de 250 anos.

Senhor dos Passos na procissão do Depósito – Fptp: CMagno

– O Senhor dos Passos, o Cristo Morto e a Nossa Senhora das Dores são, provavelmente, de origem mineira e datam de meados do século 18 – afirma Marco Aurélio Fonseca, mestre em Patrimônio Cultural pela Universidade Complutense de Madri e atual responsável pelo setor na Prefeitura de Santa Luzia. – Infelizmente, os arquivos da igreja desapareceram e, por isso, não temos dados precisos sobre as imagens – lamenta.

Segundo Beto Mateus, do Instituto Estadual do Patrimônio Artístico e Cultural (IEPHA/MG), quase todos os documentos eclesiásticos de Santa Luzia foram destruídos no século 19 por razões ainda desconhecidas.

– Pesquisadores locais, como Japhet Dolabella, nos trouxeram importantes relatos sobre essa destruição, mas sem apontar autores e datas específicas – comenta ele. E ressalta que, apesar das origens incertas das imagens, o alto padrão artístico das obras é reconhecido pelos especialistas. – A pesquisadora Myriam Ribeiro, umas das maiores autoridades em barroco e em rococó no Brasil, destacou a qualidade da imaginária da Matriz no parecer para justificar o tombamento estadual em 1976.

Imagem de Nossa Senhora das Dores desce o adro do Rosário para o Encontro com Cristo – CMagno

Santo de roca

A imagem de Nossa Senhora das Dores é do tipo ‘santo de roca’. Apenas o rosto, as mãos e os pés são esculpidos em madeira e o resto do corpo é coberto por vestimentas. Já a imagem do Senhor dos Passos, considerada uma das mais belas de Minas, tem braços e pernas articulados e também é coberta por uma túnica de tecido roxo.

– Há séculos os santos são vestidos pelas irmandades com a igreja fechada. Só reabrem as portas com as imagens já prontas, ao som do repicar dos sinos. E tem ainda aquele cheiro no ar de rosmaninho e manjericão (espalhados no chão do igreja para perfumar o ambiente), os cartuchos de amêndoas e os motetos. São tradições que estão no sangue do luziense – lembra Marco Aurélio.

O Cristo Morto, imagem de origem mineira do século 18 – CMagno

Entre as procissões que saem pelas ruas do centro histórico, a do Depósito é uma das mais emblemáticas. Tradicional em algumas cidades antigas de Minas, em Santa Luzia o cortejo sai na segunda-feira e leva a imagem do Senhor dos Passos envolta em um baldaquino de tecido roxo da Matriz até a capela do Carmo. Na quarta, a imagem, já descoberta, se junta à de Nossa Senhora das Dores na procissão do Encontro. Essa mesma imagem sai em procissão novamente na Sexta-feira da Paixão, acompanhando o esquife do Senhor Morto na solene procissão do Enterro.

Nos últimos anos, a comissão que organiza as solenidades não tem conseguido que os carros sejam retirados das ruas por onde passam as procissões, como acontece em Ouro Preto e São João Del Rey. Apesar de o trânsito ser interrompido ao tráfego de veículos, os carros permanecem estacionados ao longo das ruas, o que diminui o efeito visual e atrapalha o andamento do cortejo.

Coro Angélico

O Coro Angélico foi criado em 1952 e ainda se apresenta na Semana Santa – foto de autoria desconhecida

Além das imagens que representam o mais fino do estilo barroco, as músicas executadas durante a Semana Santa também revelam o talento dos músicos mineiros dos séculos passados, alguns deles luzienses. Juntamente com os Motetos dos Passos, cantados durante as procissões nos Passos da Paixão, o Coro Angélico também executa durante as cerimônias outras peças sacras, como o Moteto das Dores, composto no século 19 pelo luziense Eduardo da Silva Castro.

– Esse moteto é cantado apenas em Santa Luzia – assinala o tenor do grupo, Edison Tiburcio, que aos 43 anos, segue a tradição musical da família. – Tem outras peças muito bonitas, como o Tantum Ergo, do músico luziense Francisco de Paula Cândido, composto no século 19 – destaca ele.

O moteto é um gênero de música sacra, geralmente composto para vozes, muito popular no período barroco. Em Minas, são cantados ao longo das procissões, em pequenas capelas que simbolizam a Paixão de Cristo. Em Santa Luzia, restam apenas três Passos originais: o do Solar da Baronesa, o da antiga residência do Barão de Catas Altas e o da casa de Juêta Diniz.

Igreja matriz preparada para a Semana Santa – Foto: CMagno

O Coro Angélio foi criado em 1952 e, até os anos 70, foi regido pelo maestro Francisco Julião, que conservou as partituras antigas, hoje um tesouro para musicólogos que estudam a produção musical em Minas durante o Ciclo do Ouro. São 20 vozes e oito instrumentos, entre eles um bombardino e duas clarinetas, instrumentos típicos de orquestras barrocas mineiras.

– No século 18 e início do 19, era muito comum, por exemplo, duas clarinetas em lugar de flauta e clarineta porque não havia flautista disponível e isso deu lugar a formações muito características desse período – explica o maestro Rodrigo Tofollo, PhD em música antiga mineira pela Universidade Livre de Lisboa e regente da Orquestra de Ouro Preto.

As músicas, imagens e rituais da Semana Santa fazem parte do acervo cultural e histórico de Santa Luzia. Sua preservação deve-se, em grande parte, à dedicação e perseverança de um grupo de luzienses que se esforça para transmitir essas tradições para as novas gerações. Graças a eles, a cidade mantém essa celebração que ultrapassa o aspecto religioso. É nesta época do ano que Santa Luzia revive o melhor da produção artística dos séculos passados. E mantém viva a rica herança cultural que herdamos dos nossos antepassados.

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