Coro Angélico e Orquestra Sacra tornam-se patrimônio imaterial dos luzienses

Coro Angélico e Orquestra Sacra tornam-se patrimônio imaterial dos luzienses
O Coro Angélico, coral mais antigo da cidade ainda em atividade, foi fundado em 15 de Agosto de 1952

Glaucon Durães da Silva Santos*

Após dois anos fatídicos, em que mais de 500 luzienses foram vitimados pela pandemia da Covid-19, o Coro Angélico e a Orquestra Sacra de Santa Luzia retomam as suas atividades musicais e iniciam uma nova fase da sua história, com a chegada de novos membros e o reconhecimento pelo poder público municipal da sua importância para a cultura luziense. A retomada se deu com os ensaios e a execução da peça litúrgica “Missa Solene de José Maria Lopes”, à meia-noite do dia 12 para o dia de 13 de dezembro de 2021, por ocasião da abertura do Jubileu de Santa Luzia. Neste ano de 2022, o coro e a orquestra participaram dos ritos do Setenário das Dores de Nossa Senhora e da Semana Santa da Paróquia Santa Luzia.

O Coro Angélico e a Orquestra Sacra de Santa Luzia são grupos musicais tradicionais da cidade, que executam juntos, desde 1952, peças do vasto repertório musical luziense dos século XVIII, XIX e XX, em ocasiões festivas, como a festa de Santa Luzia e as celebrações da Semana Santa. Ambas as instituições dispõem de inquestionável valor histórico, social, cultural, artístico e religioso não só para Santa Luzia, mas para Minas Gerais e para o Brasil.

É possível que a Orquestra Sacra de Santa Luzia exista desde o final do século XVIII, tendo em vista que parte do seu acervo musical data da última década desse século. Existe registro de atuação da Orquestra em 1901, como mostra este trecho da reportagem Participação da Orquestra Sacra de Santa Luzia na Semana Santa, publicada pelo jornal Diário de Minas, em 25 de abril daquele ano:

Coro Angélico e Orquestra Sacra de Santa Luzia na matriz de Santa Luzia por ocasião do Setenário das Dores de Nossa Senhora de 2022. Fonte: Pastoral da Comunicação da Paróquia Santa Luzia

“[…] O que foi a semana Santa de 1901 em Santa Luzia do Rio das Velhas só o pode dizer quem pessoalmente a assistiu de princípio a fim. Alguns amadores do lugar, tendo à testa o hábil músico luziano Sr. Aurélio Dolabella e coajuvados graciosa e espontaneamente pela maioria dos amadores e professores que compõem a orchestra organizada nesta Capital sob a competente direcção dos professores Nicodemos e Vicente do Espírito Santo, conseguiram organizar uma valente e disciplinada orchestra, que interpretando escrupulosamente as produções sacras dos immortaes maestros padres José Maria,  João de Deus e dos festejados compositores Jeronymo de Sousa e José Joaquim, fez por esse modo as delícias da festa, conquistando o applauso geral. […].

O Coro Angélico, coral mais antigo da cidade ainda em atividade, foi fundado em 15 de Agosto de 1952, pelo então pároco da paróquia de Santa Luzia, Pe. Cristiano Frederico Portela Araújo Pena, juntamente com um grupo de jovens paroquianos, após o encerramento do Coro da família do Sr. Antônio Marçal Ramos. O corista Edison Tibúrcio, destaca como motivação do encerramento do Coro da Família Ramos o fato de o seu regente, maestro Francisco Julião da Silva, ter se mudado para o interior de Minas Gerais. Assim, o Coro Angélico assumiu a incumbência de cantar os diversos motetos e peças sacras em latim, anteriormente executados pelo Coro da Família Ramos, que dispunha de acompanhamento instrumental de músicos da cidade, os quais formavam uma orquestra sacra. Dentre esses, músicos oriundos da Banda de Música Benício Moreira. 

Diferente do Coro Angélico, a Orquestra Sacra de Santa Luzia não é um grupo fixo de músicos, mas sim uma função, qual seja, a função litúrgica de executar motetos (peças musicais), produzidos por maestros luzienses, acompanhada pelo Coro (anteriormente, o Coro da Família Ramos e posteriormente, o Coro Angélico). Cabe ressaltar que a Orquestra Sacra de Santa Luzia é composta, principalmente, por instrumentistas das bandas de música luzienses Benício Moreira e Estrela de São João, que se alternam na função.

Festival de Inverno de 1973. Coro Angélico. Coristas: Maria Angélica, Afonsina, Preta, Birica, Maria Terezinha, Marta, Maria Geralda, Luzia, Maria José, Arlete, Nenem e Imelda

Até 1997, Coro Angélico costumava ser acompanhado por um órgão eletrônico, na matriz de Santa Luzia, nas ocasiões em que não havia a presença da Orquestra Sacra. Antes do órgão eletrônico, o coro era acompanhado por um Harmônio. 

Entre 2018 e 2019, o Coro Angélico e a Orquestra Sacra de Santa Luzia enfrentaram sérias dificuldades estruturais e financeiras, correndo o risco, inclusive, de desaparecer, como mostra este trecho da reportagem Patrimônio musical de Santa Luzia, Coro Angélico corre risco de deixar de existir, do site Luzias, publicada em 2019:

“É, sem dúvida, um golpe para a cultura de Santa Luzia. Depois de trabalhar mais de um ano sem receber, o Professor João Carlos Rosolini, maestro há 10 anos do Coro mais antigo da cidade, o Angélico, decidiu deixar a função, por puro “desgosto”. A má notícia chega quando o Coro Angélico está prestes a completar 67 anos de vida, em agosto. O regente reclama que “as pessoas não estavam levando o trabalho a sério”, faltavam aos ensaios. Muita gente abandonou o Coro, porque “ele não funciona mais. É o caos total,” lamenta o músico, que ficou sem receber salário a partir de janeiro de 2018, porque a Prefeitura deixou de destinar ao coral a verba, como era feito antes.”

O problema da falta de um regente para o Coro Angélico e para a Orquestra Sacra foi resolvido ainda em 2019, com a contratação do dinâmico e experiente professor de música Kássio Alves Mendes. Ambos os grupos musicais, no entanto, continuaram enfrentando dificuldades, tendo em vista a ausência de uma fonte mantenedora e o fato de não terem uma sede própria. Essa situação se agravou com o surgimento da pandemia da Covid-19, no início de 2020, que impôs a paralização geral das suas atividades.

Orquestra Sacra e o Coro Angélico se apresentando no interior da Igreja Matriz de Santa Luzia. Fonte: Pastoral da Comunicação da Paróquia Santa Luzia

O Coro Angélico foi declarado de Utilidade Pública pela Lei Nº 4.180, de 20 de maio de 2020, de iniciativa do então vereador José Cláudio dos Santos (PV), pelos relevantes serviços prestados à sociedade. Era necessário ainda aprofundar a elaboração de políticas para a proteção, manutenção e pleno desenvolvimento do coro e da orquestra, de forma viabilizar a destinação de recursos por meio de editais de fomento à cultura.

Em 2022, quando o Coro Angélico completa 70 anos, o Conselho Municipal de Patrimônio Cultural (COMPAC) de Santa Luzia aprovou a solicitação feita por mim de abertura do processo de Registro Imaterial do Coro e Orquestra, na reunião ordinária realizada em 11 de abril. A Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Santa Luzia informou que o inventário do coro e da orquestra será realizado após a Festa de Santa Luzia, em dezembro próximo.

O Plenário da Câmara Municipal de Santa Luzia aprovou, em segundo turno, no dia 3 de maio, o Projeto de Lei N° 064/2022, apresentado pelo vereador Paulo Henrique de Assis, o Paulo Cabeção (PL), que declara o Coro Angélico e a Orquestra Sacra parte do patrimônio cultural de natureza imaterial do povo luziense[3]. O projeto de lei se tornou a Lei Municipal N°4.430, de 27 de maio, sancionada pelo Prefeito Luiz Sérgio Ferreira Costa (PSD).

E em18 de maio, foi protocolado na Assembleia Legislativa de Minas Gerais o Projeto de Lei N° 3.730/2022, de autoria da deputada estadual Beatriz Cerqueira (PT), que reconhece como de relevante interesse cultural e como patrimônio imaterial do Estado de Minas Gerais o Coro Angélico e a Orquestra Sacra.

São conquistas importantes para a proteção das duas instituições enquanto patrimônio imaterial de Santa Luzia e do estado de Minas Gerais, que garantem assim todos os direitos culturais assegurados aos bens protegidos no âmbito da Política Municipal de Cultura. O registro imaterial contribuirá também para a elevação da pontuação de ICMS Cultural da cidade, favorecendo diretamente a vinda de recursos para a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Santa Luzia.

*Doutorando em Ciências Sociais pela PUC Minas, conselheiro municipal de Patrimônio Cultural de Santa Luzia, membro do movimento Salve Santa Luzia e corista do Coro Angélico.

 



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3 Comentários

  • Marlene Moreira dos santos
    18 de junho de 2022, 19:13

    Sou coralista do coro Angélico há mais de 35 anos. Fico muito alegre por nosso coral ser reconhecido.

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  • Lopes al'Cançado
    24 de junho de 2022, 14:25

    Meus conterrâneos. Que tristeza saber dessas dificuldades de ordem materiais e do desinteresse do público em geral. Tenho Fé e Esperança que o Coral e a Orchestra vão renascer e voltar a seu esplendor! Estou disposto a ajudar em qualquer mutirão. Abraços do escritor e compositor Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano.

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