Em Santa Luzia, tradição de coroar Nossa Senhora continua mais viva do que nunca

Em Santa Luzia, tradição de coroar Nossa Senhora continua mais viva do que nunca
O padre Felipe Lemos, pároco do Santuário Arquidiocesano Santa Luzia, mantém viva a tradição da coroação (foto: Stainer Elmer Da Silva Junior/Esp. Em/D.A Press)

Gustavo Werneck, Estado de Minas

Uma singela tradição do mês de maio se renova nas cidades do interior de Minas e ganha formas criativas para homenagear Nossa Senhora. Devido à pandemia causada pelo novo coronavírus, que levou ao fechamento de igrejas e capelas aos fiéis, a fim de evitar aglomeração, as coroações da imagem da mãe de Jesus são feitas não por crianças, mas por adultas. Mas, para não ficar de fora deste delicado costume do mês mariano, há cidades como Pirapora, na Região Norte de Minas, onde meninos e meninas católicos montam o altar dentro de casa ou no quintal para colocar o véu, a coroa, a palma, o terço e demais “atributos” na santa de devoção.

Hoje, dia consagrado a Nossa Senhora de Fátima, a Arquidiocese de Belo Horizonte anuncia que, até o fim de semana, estará disponível no seu site (arquidiocesebh.org.br) uma cartilha virtual para orientar as famílias sobre como fazer a coroação em casa. Desde o começo do isolamento imposto pelas autoridades sanitárias, a orientação do arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, dom Walmor Oliveira de Azevedo, também presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), é para que as pessoas acompanhem as celebrações religiosas pela televisão, internet ou rádio, e rezem em casa, como faziam os cristãos nos primórdios, quando não havia templos.

Em Santa Luzia,a tradição de coroar Nossa Senhora continua mais viva do que nunca, informa o titular do Santuário Arquidiocesano Santa Luzia, padre Felipe Lemos. Desde o início do mês, sempre às quartas, sextas, sábados e domingos, após a missa das 19h30, com as portas fechadas, ele dá início à coroação da imagem barroca de Nossa Senhora do Carmo.
Como se trata de um grupo restrito de mulheres participantes nesta ocasião, a imagem fica na lateral da capela-mor do santuário, e não no altar da padroeira. A coroação, a exemplo da missa, é transmitida pelas redes sociais da Paróquia Santa Luzia. “Incentivamos as pessoas a seguirem este caminho, enquanto mantemos uma tradição centenária da cidade”, explica o pároco.

Na noite de domingo, Dia das Mães, quem coroou a imagem de Nossa Senhora do Carmo foi a aposentada Regina Lúcia Gonçalves, moradora do Bairro Córrego das Calçadas. Ela se declarou “emocionada” ao receber o convite do padre Felipe. “Nunca tive a oportunidade de participar da coroação, mas sempre ajudei na igreja. Estou muito feliz, é uma honra”, disse Regina, que preparou os famosos cartuchos com amêndoas, enfeitados com papel crepom de várias cores. “O cartucho não podia faltar, não é mesmo? É uma tradição desta época”, afirmou.

Os versinhos dos “atributos” foram passados pelo padre às participantes, via WhatApp, para que fossem ensaiados em casa. Veja o que Regina cantou: “Esta coroa que te ofertamos/Com muito amor e com devoção/Oh, mãe querida, nós te amamos/Com todo o amor do coração”. Para o próximo mês, padre Felipe planeja a coroação do Sagrado Coração de Jesus e, para tanto, serão convidados os homens católicos que atuam na igreja ou aqueles que se interessarem.

NO QUINTAL Já em Pirapora, na Região Norte de Minas, a Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, vinculada à Arquidiocese de Diamantina, está distribuindo uma “cartilha familiar” a ser seguida pela comunidade – o roteiro inclui as coroações de Nossa Senhora, oração do terço e outros, informa o pároco Júlio César Morais. A Arquidiocese de Diamantina tem 34 municípios com 55 paróquias e um total de 1.561 catequistas e cerca de 30 mil crianças e adolescentes na catequese. “Esta é a oportunidade que temos, quando as igrejas estão fechadas, de fazer com que as famílias rezem juntas e participem das celebrações do mês mariano”, diz o padre.

Em Pirapora, na casa de Fabrícia Souza Rodrigues Oliveira, os filhos Davi, de 7 anos, e Alana, de 12, montaram um altar dedicado a Nossa Senhora Aparecida, no quintal. É ali que eles fazem a coroação. Davi é coroinha na Paróquia Sagrado Coração de Jesus e, segundo a mãe, não vê a hora de as igrejas reabrirem para poder comparecer às missas.

No distrito de Passagem de Mariana, em Mariana, na Região Central, a coração de Nossa Senhora não passará em brancas nuvens, diz a coordenadora da Pastoral da Comunicação, Débora Santos Guimarães. Para o último domingo do mês (31) está programada a coroação virtual, gravada em vídeo. Enquanto isso, uma vez por semana, com música de fundo, uma pessoa coroa a imagem de Nossa Senhora da Glória, da Paróquia Nossa Senhora da Glória.

MÊS MARIANO Tradicionalmente, maio é dedicado às mães, e a Igreja Católica dedica o mês a Maria, mãe de Jesus. Em muitas paróquias, é costume realizar as coroações a Nossa Senhora, tradição antiga na Igreja, que vem do século 13.

Na Europa, o mês é primavera, são colhidos os frutos da terra e as flores do campo são cheias de cores e de perfumes. E isso remete a Maria, “que é considerada a flor mais bela”, dizem os estudos. A tradição chegou ao Brasil com os portugueses e, desse então, os devotos realizam coroações da imagem de Nossa Senhora neste mês.

A tradição se solidificou no século 14, em Paris, onde a figura de Maria ganhou destaque. A mãe de Jesus era simbolizada por uma flor adornada de joias, dando origem às coroações. Foi São Felipe Neri quem começou a dedicar o mês de maio a Maria, fazendo a ela homenagens com flores. Cada elemento que as crianças oferecem a Nossa Senhora tem um significado. A palma representa a pureza de Maria; o véu, sua virgindade; a coroa, a realeza; e as flores remetem à homenagem feita por São Felipe Neri.

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