Vereador e revolucionário, José de Oliveira Campos é exemplo para luzienses

Vereador e revolucionário, José de Oliveira Campos é exemplo para luzienses
No canto esquerdo da foto, o casarão, em frente da Igreja do Rosário, onde o revolucionário morou

*Marcos Paulo de Souza Miranda e Gustavo Villa

Em 1788, no arraial de Santa Luzia, faleceu o próspero comerciante português Domingos Vieira de Mattos, aos 86 anos de idade. A dolorosa notícia provavelmente foi encaminhada em uma carta aos familiares e demorou alguns dias percorrendo a precária estrada que ligava a Capitania de Minas ao Rio de Janeiro, de onde foi direcionada em um navio para a cidade portuária de Lisboa, capital do Império português.De Lisboa, a carta percorreu uma distância de 400 km até o pequeno povoado de Ancede, às margens do Rio Douro, bispado do Porto, onde viviam os familiares do Domingos.

Passado o luto, os sete sobrinhos do finado abriram um processo de habilitação de herança em um tabelionato de Lisboa, três anos depois do falecimento. Este documento, de 314 páginas, em perfeito estado de conservação, está no Arquivo Nacional da Torre do Tombo e revela informações valiosas a respeito da ascendência paterna do luziense José de Oliveira Campos, uma vez que o seu pai, João de Oliveira Campos, era o mais novo dos sete irmãos e havia partido para o Brasil juntamente com o Domingos Vieira de Mattos.

João de Oliveira Campos nasceu numa sexta-feira outonal, em 22 de outubro de 1745, num lugar chamado Campos, topônimo que foi agregado ao sobrenome, como era comum na época. Filho de Manoel de Oliveira e Catherina Ribeira, foi batizado aos seis dias de vida, no Convento de Santo André de Ancede, cuja construção antecede ao ano de 1120 d.C.

Este é o mosteiro, em Portugal, onde João de Oliveira Campos foi batizado

A vila de Ancede, no norte de Portugal, é conhecida pelo milenar cultivo dos vinhedos e pelo marcante associativismo e engajamento político de seus habitantes, traços de caráter que podem ter sido herdados pelo luziense José de Oliveira Campos como veremos a seguir.

Seguindo o fluxo imigratório promovido pelas promessas de oportunidades na Colônia, Domingos Vieira de Mattos e o seu sobrinho João de Oliveira Campos se mudaram para o arraial de Santa Luzia, na segunda metade do século XVIII. João de Oliveira Campos se estabeleceu como comerciante, o que fica comprovado a partir de um documento de 1798 da Câmara Municipal de Sabará, que consta no Arquivo Público Mineiro como “Registro do Real Subsídio Voluntário das Vendas de Sabará, Roça Grande e Santa Luzia”.

Em Santa Luzia, João se casou com a senhora Josefa Thomazia de Jesus, nascida em 1763. Até o momento, o único documento que faz referência à Josefa é a sua certidão de óbito, que menciona o seu sepultamento em 10 de março de 1852, no interior da Igreja Matriz de Santa Luzia, além de revelar que o seu marido, nesta época, já havia falecido.

A certidão de óbito de Josefa Thomazia de Jesus, falecida em 1852

O português João de Oliveira e Josefa Thomazia tiveram 3 filhas: Maria, Anna Severa e Joaquina, sobre as quais existem escassas referências até o momento. Em 1787, o casal trouxe ao mundo José de Oliveira Campos, luziense de destaque, de quem trataremos a seguir.

As pesquisas realizadas deixam claro que, ao contrário do que já foi sustentado por alguns historiadores, o Tenente-Coronel José de Oliveira Campos não era filho da conhecida Joaquina do Pompéu.

José de Oliveira Campos nasceu em 1787 no arraial de Santa Luzia. Com o passar do tempo, tornou-se um respeitado comerciante e boticário, tendo recebido o título de farmacêutico pela fisicatura-mor, no ano de 1827. Homem de negócios, José de Oliveira Campos é citado em 29 de abril de 1840 na edição de número 49 do periódico “O Universal”como acionista de uma fábrica de tecelagem na Comarca de Sabará. Dentre os demais acionistas, seu companheiro na batalha de Santa Luzia, José Pedro Dias de Carvalho e, por ironia do destino, o Presidente da Província, contra o qual ambos combateriam dois anos depois, Bernardo Jacintho da Veiga.

Assinatura de José de Oliveira Campos em documento do ano de 1824

O dinamismo de José de Oliveira Campos se estendeu por diversas atividades. Além de militar, boticário e comerciante, ingressou na política exercendo três mandatos como vereador, representando o arraial de Santa Luzia na Câmara Municipal de Sabará nas legislaturas de 1833-36, 1841-44 e 1845-48, sendo o vereador mais votado no segundo mandato. José não completou o último mandato em função do seu falecimento no ano anterior. Em 1837, participou de uma comissão provincial que atuou na regularização do processo de criação da fábrica têxtil supracitada, da qual se tornou acionista posteriormente.

No âmbito militar, José de Oliveira Campos recebeu patente do posto de Capitão da 2ª Companhia de Ordenanças de Santa Luzia em 07 de janeiro de 1829. Em 1833, tomou destacada parte no combate à Sedição Militar, lutando contra os caramurus sediciosos. O periódico “O Vigilante, Jornal da Sociedade Pacificadora” não poupou elogios ao Vereador José de Oliveira Campos na edição de 8 de junho de 1833:

“… O Sr. José de Oliveira Campos sendo vereador da Municipalidade, e estando a servir o cargo de Juiz de Fora pela lei, sendo de mais Capm. de um dos exctintos corpos sedentários, achou que na crise actual seria mais útil a salvação da Provincia empregando a sua bem merecida influencia em acompanhar os Guardas Nacionais da sua Parochia, que nelle depositavao a maior confiança: então o Sr. Campos pondo de parte os seos previlegios, e abandonando a sua Casa, e o seu negocio de grande lotação, vestiu a farda nacional, e tomando a clavina entrou nas fileiras como simplez Guarda, e partio com os seus irmãos d’armas a participar da gloria de rebater a fúria dos sediciosos: e de facto expoz-se aos rudes trabalhos da guerra, e com os seos braços coadjavou as obras de fortificação na bocaina, as quaes merecerão o elogio do Sr. Marechal Comandante em Chefe…”

Certidão de casamento de José de Oliveira Campos e Dona Mariana Joaquina da Ressurreição

O mesmo periódico em sua edição de nº 248 de 30 de setembro de 1844 tornou a destacar o caráter elevado do luziense:

“…hum outro Vereador de igual firmesa, e decidido aferro a Liberdade, cujo nome só basta para excitar por elle o amor, e a estima d’aqueles que o conhecem, o Sr. Jose de Oliveira Campos, reunindo qualidades, que dão mais relevo ao Patriotismo, depois de ter partilhado na Camara com o Sr. Moura e Castes a mesma gloria de se oppor ao Governo Sedicioso, embraçou huma arma, e marchou nas fileiras dos defensores da Legalidade, postergando os interesses do seu negocio, expondo-se as fadigas da jornada, aos rigores da estação, e aos perigos de hum encontro inimigo…”

A carreira militar se tornou promissora em face dos atos de heroísmo e o luziense chegou ao topo da hierarquia ocupando o posto de Tenente-Coronel. Em 08 de julho de 1842, José de Oliveira Campos, chefiando um contingente de 200 soldados, entrou na cidade de Sabará, tomou a frente da Câmara Municipal e declarou ali instalado o governo do novo Presidente da Província, o rebelde José Feliciano Pinto Coelho. Em sua casa, na Rua Direita de Santa Luzia, ficaram hospedados os principais líderes revolucionários, incluindo Teófilo Otoni, sendo ali presos pelo Exército de Caxias em 21 de agosto.

O Cônego José Antônio Marinho destaca em seu livro a atuação do luziense no comando das tropas: “… No dia 3 de agosto, estava o arraial da Lagoa Santa ocupado pelos insurgentes. Desse lugar, resolveu José de Oliveira Campos, comandante da guarnição deixada no Sabará, procurar a Vila de Santa Bárbara, a fim de se reunir à coluna de Manuel Ferreira, por isto, ou porque se temesse de que a coluna desfalcada pelas deserções, e desmoralizada pelas retiradas não se sustentaria um ataque, e então sacrificar-se-ia sem utilidade alguma essa porção de Guarda Nacional, ou porque quisesse aumentar com esse contingente a coluna de Santa Bárbara, o que entendia ser mais proveitoso do que arriscar choques parciais sem um certo e infalível resultado…”.

O casarão de José de Oliveira Campos, na Rua Direita, no Centro Histórico, onde ficaram hospedados os principais líderes revolucionários, incluindo Teófilo Otoni, sendo ali presos pelo Exército de Caxias em 21 de agosto

Na vida pessoal, o luziense casou-se com Mariana Joaquina da Ressurreição, irmã do Barão Quintiliano da Rocha Franco, portanto cunhada da Baronesa de Santa Luzia no dia 7 de Fevereiro de 1812 . Além do Barão, Mariana, que era neta do Capitão português José Machado da Rocha Franco, teve mais dois irmãos que se destacaram na sociedade luziense: o Reverendo Cônego Antônio da Rocha Franco e o Tenente Francisco de Sales Rocha sogro de Francisco de Paula Fonseca Vianna, Barão do Rio das Velhas.

A esposa de José de Oliveira Campos, Mariana Joaquina faleceu em 13 de maio de 1824 e foi sepultada no interior da Igreja Matriz de Santa Luzia. O sobrinho de Mariana, Modestino Carlos da Rocha Franco (1822-1894), foi citado no diário do Imperador D. Pedro II na ocasião de sua passagem por Santa Luzia em 9 de Abril de 1881:

“… Fiquei em excelente casa que foi dos barões de Santa Luzia e agora pertence a filha do segundo barão, casada com o deputado Frederico de Almeida. Recebeu-me o tio, desembargador aposentado Antônio Roberto de Almeida, sua mulher e família. O doutor Modestino é filho do segundo barão. Saí às 2 e pouco conversando com Roberto de Almeida; Modestino, presidente da Câmara, e João Alves dos Santos, tio de José Alves dos Santos….

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Cópia da certidão de óbito de José de Oliveira Campos

Ao que parece, o casal teve apenas uma filha chamada Ana Carolina de Oliveira que se casou em 8 de agosto de 1822 com Quintiliano Gonçalves de Lima, fundando o clã dos Oliveira Lima em Santa Luzia. Como testemunhas do casamento estavam os dois futuros Barões de Santa Luzia, Quintiliano Rodrigues da Rocha Franco (tio da noiva) e Manoel Ribeiro Vianna. Os 12 filhos de Ana e Quintiliano destacaram-se na comunidade luziense como médicos e políticos.

Apenas cinco anos depois de cumprir a sua missão como cidadão luziense, protagonista no Movimento Liberal de 1842, José de Oliveira Campos deu seu último suspiro aos 60 anos de idade, no dia 11 de Setembro de 1847, sendo sepultado no interior da Igreja Matriz de Santa Luzia, outrora palco dos turbulentos acontecimentos da década de 40. A sua mãe, Josepha Tomazia, faleceu em 10 de março de 1852 e foi sepultada ao seu lado, dentro da dita Igreja onde também estavam o seu pai e a falecida esposa.

Com suas raízes paternas na pequena vila de Ancede em Portugal, famosa pelo ativismo político de seus habitantes, José de Oliveira Campos fez da sua existência um exemplo de cidadania e luta incessante pelos direitos e liberdades dos luzienses, sendo o seu caráter amplamente elogiado em todos os documentos da época que narraram os seus feitos.Em homenagem póstuma, a prefeitura de Santa Luzia batizou um espaço de eventos no Recanto dos Bravos, com o nome do Tenente-Coronel José de Oliveira Campos.

* Marcos Paulo de Souza Miranda é promotor de Justiça e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais

Gustavo Villa é historiador e escritor

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