Josefa Franco Carneiro de Mendonça: sob o véu da história da Revolução de 1842

Josefa Franco Carneiro de Mendonça:  sob o véu da história da Revolução de 1842
Foto da família de Josefa: na frente, da esquerda para a direita, Josefa Carneiro de Mendonça; o marido, João José; a filha Ana Luisa e o marido, Antonio Paulino Limpo de Abreu. atrás, da esquerda para a direita, os filhos Eduardo e Joaquim Carneiro de Mendonça (foto: Arquivo pessoal)

Com muita imaginação e pesquisa, a escritora Ana Luísa Escorel reconstitui a vida de Josefa Franco Carneiro de Mendonça, personagem pouco conhecida da Revolução de 1842

Gustavo Werneck, Estado de Minas

É como retirar um véu e, aos poucos, encontrar um desejo transformado em palavras, os pensamentos seguindo a linha do tempo, para fazer emergir pedaços da vida de alguém “formidável” que viveu no século 19. A figura de Josefa Maria Roquete Batista Franco Carneiro de Mendonça povoou por muitos anos o imaginário de Ana Luisa Escorel, escritora paulista residente no Rio de Janeiro (RJ). Na sala de casa, ela se acostumou, desde criança, a contemplar um pequeno retrato da mulher nascida em Goiás e nome pouco conhecido da Revolução Liberal de 1842 – o movimento começou em São Paulo, irradiou-se por Minas e teve a última batalha em Santa Luzia (antiga Santa Luzia do Rio das Velhas), na Região Metropolitana de Belo Horizonte. As conversas dos adultos no aconchego doméstico, um século depois da morte de Josefa, evocavam, segundo a escritora, “a força da personalidade da senhora de classe dominante, talvez a única no Brasil, em seu tempo, a ter ficado presa por mais de dois meses em consequência da participação como líder de uma revolta política”.

Com base em pesquisa bibliográfica e sem perder o voo nas asas da imaginação, Ana Luisa escreveu e lança, no próximo dia 13, o livro Dona Josefa, no qual conta a trajetória da mulher nascida em 1780, na Vila de Santa Luzia de Goiás (GO) e que viveu e lutou no Oeste da então província de Minas para depois se transferir com a família para Petrópolis (RJ). Morreu na cidade fluminense em 1855. Após o período numa “solitária úmida e escura” na Câmara de São Domingos do Araxá, já com mais de 60 anos, foi julgada e inocentada graças ao seu defensor, que, com habilidade, fez convergir para um dos filhos, também chefe revolucionário, todas as acusações atribuídas a ela.

Nascida em família influente e dona de terras e de escravos, dona Josefa fez o que pôde para dar suporte aos revoltosos. E tudo encantou a escritora, certa de que as razões do seu apego a ela se prenderam a motivações de caráter estético e afetivo – “basicamente à admiração pela força interior de uma mulher e sua capacidade de ação política, num período em que o gesto feminino se circunscrevia ao espaço doméstico”. Assim, a construção do romance surgiu de propósitos literários, não da necessidade de indagação histórica. “Mesmo porque, na minha maneira de ver, Josefa não pode ser vista como vulto expressivo da história brasileira.”

Primeira mulher a ganhar o Prêmio São Paulo de Literatura, Ana Luisa Escorel procurou fazer da personalidade de Josefa o centro de uma narrativa na qual passado e presente se alternam. “O que parece extraordinário não foram os objetivos do levante revoltoso de 1842, mas a oportunidade para que tenha sido possível, por meio dele, entrar em contato com a força da personalidade dessa senhora, cujas iniciativas e atitudes traduzem valores muito distantes dos limites impostos às mulheres de seu tempo em qualquer parte do mundo, não apenas no Brasil”.

A seguir, a entrevista com a autora e um panorama do movimento de 1842, que opôs os liberais liderados por Teófilo Otoni e o Exército imperial comandado pelo Barão de Caxias, mais tarde Duque de Caxias.

Por que o interesse por Dona Josefa, mulher pouco conhecida na história do Brasil e dificilmente citada em livros?

Josefa era uma figura presente na casa em que nasci não apenas por causa da pequena reprodução fotográfica de um daguerreótipo em que ela aparece – pendurada na parede do hall de entrada pelo qual circulei durante perto de 14 anos – como porque, volta e meia, ela surgia na conversa dos mais velhos ainda tomados, 100 anos depois da morte dela, pela força da personalidade da senhora de classe dominante, talvez a única no Brasil em seu tempo, a ter ficado presa por mais de dois meses em consequência da participação como líder de uma revolta política. A fotografia, verdadeiro primor de composição, mostra um grupo familiar disposto em dois triângulos para o registro, feito em 1840, no qual, além de Josefa, aparecem três dos 11 filhos do casal – dois rapazes, uma moça – e o marido, político eminente do Segundo Império.

Desfeita a casa da minha infância, o retrato foi levado para outra, em Poços de Caldas (Sul de Minas) e, dali, quando essa também desapareceu, voltou a São Paulo, para o último apartamento em que meus pais moraram, onde ficou até recentemente como presença constante, diante da qual eu continuava passando – entrasse ano, saísse ano – sempre atraída pelas várias camadas de sentido contidas na imagem.

Que outros aspectos foram importantes para seu “encontro” com a história dessa personagem do século 19?
Mais dois aspectos vieram justificar a razão do meu apego ao registro do grupo familiar. Minha mãe, Gilda de Mello e Souza, utilizou-se dele na tese de doutoramento – A moda no século 19, defendida em 1950 – com uma série de outros retratos, entre os quais o do grupo familiar se destacava dada a força da composição, a postura peculiar dos componentes e a intensidade das expressões de cada um. Assim – e em torno das digressões de meus pais e dos amigos acerca da tese sobre a moda, tema inédito naquela altura, na universidade –, mais uma vez o retratinho e seus personagens integravam conversas recorrentes, ouvidas na infância, exemplificando os interesses de minha mãe e a capacidade que ela tinha de, partindo da observação do concreto, construir cadeias de reflexão de grande originalidade. E essa movimentação passava incessantemente pelo filtro da menina atenta aos adultos que sempre fui.

Outro aspecto desse interesse está situado em terreno diferente. Jorge Andrade, o dramaturgo, amigo e frequentador da nossa casa, no texto da peça Pedreira das almas se inspirou em Josefa para traçar o personagem da matriarca (Urbana), ocasião em que o retratinho foi apresentado a Darcy Penteado, artista plástico, cenógrafo e figurinista de prestígio em São Paulo, que partiu dele para conceber as roupas do espetáculo. E mais uma vez minha experiência de menina foi tocada pelo poder de expansão do retratinho que eu via projetado no palco de um espetáculo teatral.

Portanto, as razões desse apego a Josefa se prenderam a motivações de caráter estético e afetivo, basicamente, à admiração pela força interior de uma mulher e sua capacidade de ação política, num período em que o gesto feminino se circunscrevia ao espaço doméstico. Ou seja: a construção do romance surgiu de propósitos literários, não da necessidade de indagação histórica. Mesmo porque, na minha maneira de ver, Josefa não pode ser vista como vulto expressivo da história brasileira.

Conte-nos um pouco da história de dona Josefa, principalmente quanto às origens em Goiás, a vinda para Minas e depois o estabelecimento em Petrópolis (RJ).
Pouco se conhece de Josefa Maria Roquete Batista Franco Carneiro de Mendonça (1780-1855), além da ascendência próxima, da numerosíssima descendência e de que, com a derrota liberal em Minas, ela e a família se deslocaram para o Rio de Janeiro, mais precisamente Petrópolis, onde compraram novas propriedades, passando a viver.

Sabe-se também que, no ano seguinte à prisão, fraca e doente, foi julgada com outros revoltosos no processo que se estendeu de 4 de janeiro de 1843 a 1º de março de 1844. E mesmo registrada nos autos como a liderança principal e inconteste do movimento no Araxá e imediações, o defensor conseguiu inocentá-la fazendo convergir para um filho – moço e solteiro – todas as acusações atribuídas a ela. Quanto a esse filho – como acontecia e continua acontecendo no Brasil em praticamente todos os arranjos ajustados entre os membros das classes dominantes – livrou-se também de qualquer pena graças à anistia concedida por dom Pedro II aos revoltosos em 14 de março de 1844.

O que a senhora viu de mais fascinante na história dela? Como floresceu nela o gosto pela política e luta a favor dos liberais?
Não existe nenhuma informação, do meu conhecimento, que possa levar ao desenho de um perfil pautado nos gostos e nas preferências reais dessa mulher tão peculiar. Por isso o livro se permitiu grande carga de invenção, sem outro compromisso que não fosse a coerência interna da trama literária no que toca aos atos da personagem principal em sua movimentação no interior do texto. De qualquer forma, os autos do processo registram Josefa como senhora de uma vontade firme e combativa, que não hesitou em usar esses traços de caráter para defender a causa política na qual acreditava, mesmo consciente dos riscos pendentes que, de fato, acabaram caindo sobre ela.

Como foram as pesquisas para escrever o livro? A senhora viajou aos lugares onde dona Josefa viveu, conheceu campos de batalha, conversou com descendentes da personagem enfocada no livro?
Para escrever Dona Josefa, a primeira providência foi entrar em contato com uma bibliografia que apoiasse a verossimilhança ficcional, já que a narrativa tinha saltado perigosamente para a vida nem bem o tema do romance surgira, antes até de qualquer contato com o dado histórico. O que se pretendeu foi dar à invenção o espaço principal juntando a ela apenas uma pequena dose de realidade histórica. Quanto às viagens, as únicas feitas por mim foram as da imaginação, próprias de qualquer ficcionista, e se limitaram ao espaço físico do apartamento onde vivo, no Rio de Janeiro.

Qual era a visão de mundo de dona Josefa? Tinha contato com viajantes, sabia ler e escrever?
Josefa sabia ler e escrever, mas não era, de maneira alguma, mulher culta. Daí o apelo constante da personagem, no livro, às lembranças e às conversas com outro preso, com licença para ter com ela, na solitária, pelo menos uma vez por dia, e a quem acabou ficando muito ligada. Sem isso, sempre nos mantendo no plano do romance, os efeitos da reclusão teriam sido avassaladores.

Ela foi presa aos 60 anos e ficou encarcerada por mais de dois meses. Onde ficou presa?
Josefa ficou, o tempo todo, presa na Câmara de São Domingos do Araxá.

Dona Josefa
. De Ana Luisa Escorel
. Editora Ouro sobre Azul
. 192 páginas
. R$ 49
. A partir de 13 de abril nas livrarias

Detalhe da tela de Célio Nunes, do Combate no Córrego das Calçadas , em Santa Luzia

Trecho do livro

“Sozinha de novo comeu por comer o almoço frio sem apetite nenhum: o tempero era bom e seu conhecido, ela mesma tinha ensinado às escravas. Mas andava muito sem vontade, mantida só pelas lembranças e, reconhecia, pelas conversas com Salvador. Então, trazendo pelos veios da memória fatos que haviam dado interesse à longa sucessão dos dias vividos, chegou ao centro de um confronto dois anos antes, nessa Araxá encravada numa região onde até bem pouco nem o governo da província nem os poderosos da Corte tinham criado caso ou posto interferência grave em nada decidido pela política local. Nesse rumo lembrou de uma história, de algum modo já apontando para a prisão do genro, de outros insurgentes e a dela própria, ao antecipar o quadro sacramentado com a vitória legalista sobre os rebeldes, tinha perto de dois meses, na povoação de Santa Luzia do Rio das Velhas. Quando o marido mais uns quarenta entre parentes, amigos, conhecidos, impediram o julgamento do Antonio Herculano, caboclo sisudo, pontaria certeira sempre à mão para ajudar em qualquer assunto ferindo a autonomia dos liberais daquela zona. O que ele tinha feito Josefa costumava dizer não vir ao caso embora fosse certo tivesse sido a mando de alguém: Herculano era bom de mira mas não decidia nada por si. Então na hora do julgamento, logo na abertura da sessão do júri, chegou aquele tanto de homem a cavalo. Apearam em comitiva tilintando alto as esporas e, já dentro da sala, o marido foi dizendo no grito para soltarem o Herculano ou a coisa ia ficar preta. Tempos depois contava como tinha sido ver o juiz interino – enfiado pela Corte goela abaixo dos liberais, no Araxá – balançar, mais os escrivães, feito canavial na ventania. E quando o doutor, a muito custo, buscando domínio sobre si tentou impor autoridade com um palavrório enroscado, o grupo dos quarenta firmou a vista olhando duro no meio da testa dele.

Ecos de uma revolução

O cenário é 1842. De um lado, as tropas imperiais comandadas por Luis Alves de Lima e Silva (1803-1880), de 39 anos, futuro Duque de Caxias. Do outro, as forças chefiadas pelo mineiro Teófilo Otoni (1807-1869), E, no meio, a defesa dos princípios constitucionais e da liberdade. Os mineiros lembram sempre em 20 de agosto o fim da Revolução Liberal, cuja última batalha se deu em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Quem explica mais sobre o episódio que ainda ecoa em São Paulo e Minas Gerais é o desembargador e integrante do Instituto Histórico e Geográfico/MG Marcos Henrique Caldeira Brant, desde 2003 imerso em pesquisas sobre o tema: “Fazemos um resgate dessa página da história do Brasil, que envolveu nos campos de batalha 5.460 homens, sendo 2.460 do Exército e 3 mil liberais”.

A Revolução de 1842, diz Caldeira Brant, foi um movimento armado que ocorreu de forma simultânea nas duas mais importantes províncias do império – São Paulo e Minas Gerais. “Ela resultou das paixões exaltadas e das divergências dos dois únicos partidos políticos existentes, o Conservador e o Liberal, tendo como causa maior a defesa da Constituição de 1824, que tinha princípios violados pelos dirigentes do Partido Conservador, no poder administrativo do império, por meio de edições de leis reacionárias”, explica o desembargador. “Na verdade, os dois partidos políticos pouco diferenciavam quanto aos métodos e processos de fazer política.”

Em Minas, “terra do culto à liberdade e com vocação para as tradições”, a Revolução Liberal pode ser considerada o acontecimento político e histórico mais significativo do período imperial (1822 a 1889), devido “à sua forte consistência e expansão por todo o território mineiro e caracterizado pela grande participação das elites dominantes polarizadas”, afirma Caldeira Brant, lamentando que o assunto ainda seja pouco explorado nos livros didáticos.

Medidas enérgicas
Falar da Revolução de 1842 é também compreender o ambiente, os homens e o Brasil da época. “O plano dos liberais era reivindicar o poder político e administrativo pela força, certos de que a primeira ação armada seria suficiente para intimidar os conservadores. Mas o movimento foi visto como golpe contra o Estado e o regime monárquico. Então, a corte imperial, temerosa de que o movimento se irradiasse para as outras 16 províncias, tomou rápidas e enérgicas medidas”, conta o integrante do Instituto Histórico e Geográfico. Em São Paulo, o movimento durou um mês, enquanto em Minas, então constituída por 42 municípios, dos quais 15 declaradamente revolucionários, se estendeu por 73 dias.

Na época, o primitivo arraial de Santa Luzia pertencia a Sabará. Passados quase 177 anos, a história continua viva na cidade, por ter se tornado palco do fim da revolução e da chamada “ação pacificadora do Exército imperial”. De acordo com as pesquisas de Caldeira Brant, a luta derradeira durou das 8h às 20h”. O desembargador destaca que Caxias, patrono do Exército, teria experimentado a primeira derrota de sua carreira militar se não fosse o socorro de seu irmão. “O coronel José Joaquim de Lima e Silva Sobrinho pode ser considerado o verdadeiro herói legalista da batalha de Santa Luzia.” Santa Luzia guarda marcas do conflito com buracos de bala nas janelas do Solar Teixeira da Costa, sede do Museu Aurélio Dolabela/Casa de Cultura (atualmente fechado), que serviu de quartel primeiro para os revoltosos e depois para Caxias. Já a Igreja Matriz serviu de sentinela e prisão para os liberais ou “luzias”.

Muitos já escreveram sobre a Revolução Liberal e a obra considerada referência é História do movimento político de 1842, publicada em 1844 e de autoria do cônego José Antônio Marinho (1803-1853). Muitos luzienses também se preocuparam em registrar a tradição oral, a exemplo da professora Inês Gonçalves Diniz, já falecida, no livro Aqui nascemos. Há histórias que arrepiam: “Uma mocinha subiu em uma jabuticabeira para ver a tropa que avançara pela Rua da Lapa. Um soldado legalista atirou na mesma que caiu morta”. E outras passagens mostram os moradores em apuros. “Como minha bisavó estava grávida e tinha uma filha pequena, antes do batalhão chegar, saíram de casa e esconderam-se na mata do Morro do Pião, levando com eles as escravas e as crianças. Aos escravos, deu ordem para se esconderem na mata”. (GW)

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