Reflexões de um luziense sobre os reais benefícios, físicos e espirituais, do karatê

Reflexões de um luziense sobre os reais benefícios, físicos e espirituais, do karatê
Os karatecas, em total silêncio, praticando meditação, antes de iniciar o treino físico

Foi depois de participar da Vessaka que Paulo Giovannini produziu este texto. Paulo pratica karatê há muitos anos. Anualmente, no mês de maio, o mais próximo possível da lua cheia, ele e seus colegas karatecas se reúnem e, juntos, em total silêncio, sobem até o pico de uma montanha, perto da Serra da Moeda. Lá em cima, em meditação e contemplação, aguardam o surgimento da lua, quando então é realizada a ceminônia – Vessaka -, com a recitação de sutras japoneses. A experiência transcendental é profundamente transformadora, como relata Paulo.

Luzias

Vivemos períodos críticos de nossa história. Ao nos reportarmos à história propriamente dita, ficamos perplexos com o desprezo a ela dedicado. Se refletirmos sobre a história atual, se analisamos friamente o que fazemos aqui e para que ou quem o fazemos, dói constatarmos que nos tornamos impotentes para provocar uma transformação significativa no estado de coisas que nos rodeia e do qual somos parte.

Em momentos como esses é que descobrimos vias diferentes de conduta, para que possamos adquirir equilíbrio e harmonia, meios indispensáveis para obtermos munição que nos permita combater o bom combate, mostrando, com nossa conduta, que há, sim, soluções viáveis para derrotar os males que nos assolam, incluindo entre as vítimas, o homem, a natureza e o universo.

Aos incrédulos, mostramos que essa não é tarefa a ser executada só por um grupo de sonhadores e visionários. Não, é tarefa a ser assumida por todos. Um pequeno gesto, uma atitude virtuosa, um pensamento positivo que brote de uma mente vazia de preocupações inúteis, podem provocar um verdadeiro tsunami de transformações. Incautos, aproveitadores serão aniquilados, uma vez que não mais encontrarão tronco vivo ou morto para parasitarem.

Como se fosse uma pedra, a pose da caminhante ilustra a harmonia entre os elementos que compõem a natureza

De minha parte e do grupo ao qual pertenço há uma crença comum: o que praticamos no recolhimento, mudará, sim, os rumos da humanidade. E aquilo que nosso esforço não conseguir mudar nos deixará um importante aprendizado, qual seja, a virtude da aceitação. Veremos, então, que o torto continuará torto, mas, não o valorizaremos mais, encarando-o como um problema a ser resolvido. Se não há solução, não é, mais, um problema. Sim, nós adotamos, há muito, um caminho que nos leva ao aperfeiçoamento físico e mental. Praticamos a tolerância, a serenidade, o entendimento e a compaixão através do contato com a natureza, pois, somos caminhantes.

Praticamos o esvaziamento de nossas mentes através do exercício diário da meditação e da contemplação.

Cuidamos do nosso corpo físico, mente e espírito exercitando as artes marciais, especialmente, o Karatê estilo Wadô-Ryu.

Esse conjunto de atividades, temos certeza, é o caminho correto para a solução dos conflitos internos a que somos submetidos, fazendo contraponto com as práticas desonestas, burras e, pior, propositais por parte daqueles que se julgam acima do bem e do mal.

No alto da serra, a beleza da noite chegando, engolindo os últimos raios de sol

Mantivemos discrição ao longo de décadas, a respeito de nossas práticas. No entanto, concordamos ser este o momento certo para divulgá-las, pela necessidade de contermos tantas mazelas que se alastram, sem controle, por todos os lugares e em todas as áreas. Não almejamos apenas uma mudança pessoal, mas, uma outra, maior e mais importante: aquela que nossa postura pode provocar no coletivo.

Ao invés de ficarmos lamentando decisões tresloucadas, ao invés de nos recolhermos em nosso canto, buscando proteção contra a violência, partimos para o enfrentamento.

Entendam como enfrentamento, mostrar que podemos, com nossas atitudes, mudar o rumo dos acontecimentos, pois, não há nada que seja definitivo. Tudo é transitório.

Podem os céticos e ignorantes, duvidarem da força de uma caminhada na montanha, de uma meditação bem conduzida e da prática de uma arte marcial ligada aos mosteiros budistas.

Já explicamos, de forma simplificada, o potencial transformador dos caminhos que trilhamos.

Paulo admirando a mágica lua cheia, na noite fria de maio

É importante esclarecer que tolerância não é sinônimo de passividade. Pelo contrário, a tolerância nos indica o exato momento em que devemos agir e, ainda, quando agimos significa colocar em prática uma ação já amadurecida correta e necessária.

Quer seja na caminhada ou em momentos de meditação ou, ainda, no Dojô (local de prática do Karatê), estaremos sempre unindo nossas energias para que se espalhem por todos os lugares. Procuramos através do “caminho”, a transformação necessária para harmonizar o íntimo de nós e de todos.

Ao nos prepararmos para uma das práticas propostas, deixamos para trás todo o apego, seja ele material ou não. Livramo-nos de nossas preocupações, vícios, ansiedades, invejas e de todos os sentimentos que só se prestam para cobrir o que há de bom dentro de nosso ser. Sentimos, então, a leveza de uma alma pura.

Creiam, são experiências das mais gratificantes. Caminhantes, meditadores e praticantes de artes marciais, em especial, os que exercitam Karatê, estilo Wadô-Ryu, em sua plenitude, formam uma unidade capaz de modificar o mundo.

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1 Comentário

  • Nenez
    7 de junho de 2019, 16:03

    Que ótimo texto! Que vida bonita!!

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