Prefeita eleita Roseli Pimentel renuncia. Santa Luzia terá eleições em até 90 dias

Prefeita eleita Roseli Pimentel renuncia. Santa Luzia terá eleições em até 90 dias
Roseli Pimentel, 44, foi presa em 7 de setembro de 2017 e cumpre prisão domiciliar

Em um desdobramento surpreendente na trepidante política de Santa Luzia, a prefeita eleita Roseli Pimentel renunciou ao cargo na tarde desta quinta-feira, 24 de maio. Ainda não eram 17h, quando chegou à Câmara Municipal um procurador tendo em mãos o ofício enviado por Roseli para comunicar a sua decisão. Assim, a cidade terá que realizar novas eleições em até 90 dias. De acordo com o professor Abraão Gracco, autor do pedido de cassação, “pode ser até em um mês ou dois meses.” Com a renúncia, o processo administrativo para a realização do pleito é regulado pela Lei Orgânica do município, o que significa que o Tribunal Regional Eleitoral(TRE) é que vai determinar a data em que os eleitores luzienses retornarão às urnas para eleger outro prefeito, cujo mandato irá até 2020.

A renúncia da prefeita, eleita em 2016, aconteceu num momento em que o processo de cassação contra ela movido pelo professor Abraão Gracco se encaminhava para o final. E surpreendeu porque a própria Roseli havia solicitado, através de seu advogado, para participar da audiência em que as testemunhas de acusação e de defesa seriam ouvidas. A audiência deveria ter sido realizada nesta quarta-feira, mas foi adiada para sexta, 25 de maio, atendendo o pedido dela, que foi presa em 7 de setembro de 2017 e, no momento, cumpre prisão domiciliar. Segundo o ofício protocolado pelo advogado de defesa, a prefeita decidiu renunciar com o intuito de “concentrar forças para provar sua inocência.”

Quem é Roseli Pimentel

Barbosa Chaves

Roseli Ferreira Pimentel nasceu em 19 de agosto de 1973 sob o signo de leão. Segundo os adeptos da astrologia, os leoninos são ambiciosos e dificilmente se contentam com pouco. Costumam também ser dominadores e defendem seus interesses com unhas e dentes. Impulsivos, às vezes tomam decisões precipitadas. Mesmo para os que não acreditam na influência dos astros, essa caracterização parece feita sob medida para a ex-prefeita de Santa Luzia, cuja meteórica carreira política, aparentemente, chegou ao fim nesta quinta-feira com a renúncia ao cargo de prefeita. Mas o tombo pode ser ainda maior. Na esfera criminal, Roseli cumpre prisão domiciliar enquanto aguarda julgamento sob acusação de homicídio.

Roseli nasceu em uma casa humilde de São Benedito e quem a conheceu ainda criança diz, sem meias palavras, que ‘ela sempre foi um capeta’. A própria mãe, D. Tita, teria reclamado da filha em várias ocasiões. Chegou a confidenciar a amigos que ‘sofria muito com a filha rebelde e desbocada’. Vizinhos da época comentam que Roseli agredia a mãe quando confrontada. Confirmam também que ela era uma menina inteligente, muito atenta e extremamente ambiciosa. O contato com a política aconteceu ainda na infância. A mãe foi cabo eleitoral de Dr. Oswaldo Ferreira, prefeito da cidade por duas vezes nas décadas de 1960 e 70.

Estudou como bolsista na Escola da Comunidade onde, mais tarde, seria professora. Colegas que conviveram com ela lembram que a então adolescente era péssima aluna, tirava notas ruins e ‘comandava a turma da bagunça’. No seu currículo, consta que a ex-prefeita tem curso superior completo. Mas há quem sustente que os diplomas apresentam informações conflitantes. Um observador mais atento sugere que, pelas datas, um dos cursos superiores que a ex-prefeita ostenta em seu currículo teria durado apenas 15 dias.

Com Carlos Calixto, o prefeito na chapa de quem se elegeu vice

Carreira política
Quando foi convidada para integrar a chapa do ex-prefeito Carlos Calixto, Roseli era diretora da Escola Municipal Professora Siria Thebit, em São Benedito, onde iniciou como professora. Entre os colegas, tinha fama de arrogante. Foi nessa época que surgiu a suspeita de que seu currículo teria sido maquiado. Em 2012, Calixto venceu as eleições e Roseli tornou-se vice-prefeita. Com a morte do prefeito em janeiro de 2016, assumiu a prefeitura e, com o cofre cheio, concentrou-se em terminar a toque de caixa as obras iniciadas por Calixto, entre elas, a do fatídico viaduto do complexo viário de acesso ao Novo Centro, que continua interditado.

Na esteira de uma sequência de inaugurações de obras vistosas, foi eleita prefeita pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) em 2016, com 35.995 votos, pouco mais de cinco mil à frente do segundo colocado. Na dianteira de uma coligação de partidos nanicos batizada com o exótico nome de ‘Fé de quem faz com o coração’ que, grosso modo, reflete a composição atual da Câmara Municipal, tornou-se a primeira mulher a ser eleita para comandar o executivo municipal de Santa Luzia. Logo seria também a primeira prefeita encarcerada na história da cidade.

Na campanha, declarou à justiça eleitoral um patrimônio de R$ 416 mil, incluindo um apartamento em São Benedito, um carro e uma conta bancária na Caixa com R$ 30 mil. Entre os opositores, era considerada ‘vaidosa, temperamental, agressiva e vingativa, além de detestar quando a imprensa falava mal dela’. Já os apoiadores destacavam a “caridade e pulso firme” da candidata.

Durante as comemorações da vitória, no melhor estilo Roseli, tomou microfone e aos gritos se dirigiu aos correligionários: “Tem uma coisa que está aqui (ela mostra a garganta enquanto fala). Pode ser sem ética, mas vou falar. Posso falar?”. O povo responde que pode e ela dispara:. “Chupa, Delegado!”, em referência ao candidato derrotado, Cristiano Xavier. Observadores da política local viram nesse ato desrespeitoso um sinal do que estaria por vir. Apesar da euforia inicial e dos insultos aos adversários, Roseli não completaria nem um ano de mandado, classificado de meteórico e catastrófico por um ex-funcionário da prefeitura.

A agora ex-prefeita foi presa menos de um ano depois de ter sido eleita

Roseli cercou-se de secretários e assessores praticamente desconhecidos da população do município, muitos deles ligados ao grupo político do ex-prefeito de Belo Horizonte e atual candidato ao governo de Minas, Márcio Lacerda. Mas os revezes começariam poucas semanas depois das eleições e se intensificariam nos meses seguintes com capítulos dramáticos, como a queda da cabeceira do viaduto recém-inaugurado. Era o início da derrocada vertiginosa que culminaria com sua inesperada prisão.

Crime eleitoral e assassinato

Antes mesmo de ser empossada, o Tribunal Regional Eleitoral cassou o registro eleitoral da chapa formada por Roseli e pelo vice, Fernando Cesar, por abuso econômico e uso indevido dos meios de comunicação durante a campanha. Entre outros crimes, o TRE citou a tentativa de coagir professores da rede municipal a convencer os pais de alunos a votarem na chapa. Mas Roseli recorreu e conseguiu retomar a tão cobiçada cadeira de prefeito. Daí em diante foi uma sequência bizarra de cassações e recursos até que em agosto de 2017, o TRE confirmou a cassação, mas o Tribunal Superior eleitoral (TSE) permitiu que ela recorresse da sentença no cargo.

Novas eleições foram marcadas, remarcadas e, finalmente adiadas, reforçando a impressão de paralisia no executivo municipal. Em meados do ano, entre lágrimas e fogos de artifício, em um espetáculo coreografado para a mídia local, Roseli retornou novamente à prefeitura nos braços de um grupo de garis que a aguardavam com apitos e corações de papelão. O espetáculo surtiu pouco efeito e a prefeita mal teve tempo de esquentar a cadeira. O pior ainda estava por vir.

Roseli numa cerimônia, cercada de assessores

Na manhã do dia 7 de setembro, a prefeita foi presa em casa, sob suspeita de envolvimento em assassinato. A notícia teve ampla repercussão na imprensa de todo o país. E deixou perplexos e envergonhados os moradores da cidade. Foi a primeira vez que um chefe do executivo luziense foi para a cadeia. Segundo as investigações da Polícia Civil de Minas, Roseli é suspeita de ser mandante do assassinato do fotógrafo Maurício Campos Rosa, dono do jornal O Grito, que apoiava a candidatura da ex-prefeita, supostamente em troca de R$ 100 mil.

Os investigadores acreditam que Maurício tentou chantagear a prefeita, exigindo mais dinheiro. E teria ameaçado trazer a público escândalos como o do desvio de R$ 80 milhões da saúde municipal, apurado pelo Departamento de Falsificações e Defraudações da Polícia Civil. Segundo delegado César Duarte Matoso, do Departamento de Homicídios,parte dos recursos teria sido usada até para pagar o aluguel da casa da prefeita.

Pior ainda, segundo a polícia, a prefeita teria pago R$ 20 mil pela execução do assassinato e as investigações apontam que o dinheiro saiu da prefeitura, por meio de uma nota fiscal que simulou a compra de três toneladas de mamão para merenda escolar. O pistoleiro que executou o crime está foragido.

Maurício Rosa, assassinado a tiros, em agosto de 2017

Pouco menos de um mês depois da prisão, os advogados de Roseli, do escritório de José Eduardo Cardoso (que defendeu Dilma no processo de impeachment) conseguiram o Habeas Corpus para que ela aguarde o julgamento em prisão domiciliar por ter um filho menor, fruto do segundo casamento com um policial militar – ela tem outros dois do primeiro casamento que não moram com ela. Consta que os honorários desses advogados tenham superado os R$ 2 milhões. Recentemente, circularam informações que ela havia trocado de advogado.

Usando tornozeleira eletrônica onde antes costumava ostentar uma correntinha de ouro, Roseli foi transferida para sua casa no bairro Colorado. Segundo corretores imobiliários da cidade, o imóvel vale cerca de R$ 1,2 milhão no mercado. A polícia investiga se a casa foi adquirida através de laranjas. Há poucos dias, a Justiça suspendeu o uso da tornozeleira para que a ex-prefeita acompanhasse as oitivas do processo de cassação, que começou a tramitar na Câmara Municipal em novembro de 2017, por iniciativa do advogado e professor universitário Abraão Soares Gracco.

Antecipando-se à provável decisão desfavorável dos vereadores – ou, talvez manobrando para não se tornar inelegível – , Roseli renunciou nesta quinta-feira. Seria o fim do furacão Roseli Pimentel? Não há consenso. Alguns criminalistas acham que o inquérito da Polícia Civil foi bem elaborado e são escassas as chances de ela ser absolvida e voltar à vida política. Os advogados de defesa argumentam que, apesar de estar sob sigilo, o inquérito vazou para a imprensa. A ex-prefeita nega peremptoriamente qualquer participação no assassinato do jornalista. Os que a conhecem há muito tempo alertam que Roseli tem fôlego para a briga e uma ambição tão grande que dificilmente caberiam na cela de uma prisão.

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2 Comentários

  • Fritz
    24 de maio de 2018, 21:45

    Excelente texto;leitura fácil e agradável;completo. Parabéns.

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  • Elzira Divina Perpétua
    26 de maio de 2018, 11:49

    Excelente texto! Retoma de forma clara os fatos recentes que envolvem a biografia da ex-prefeita.
    E nos traz a informação preciosa sobre a nova eleição, esperança de luz no fim do túnel escuro em que a cidade se encontra no momento. Parabéns pela matéria!

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