Aranhas carangueiras espalham medo em Santa Luzia e na Região Metropolitana

Aranhas carangueiras espalham medo em Santa Luzia  e  na Região Metropolitana
Depois de tentar afastar a aranha com vasoura, o luziense Márcio Valério Costa teve que fazer um tratamento. E ficou com uma coceira terrível. Foto: Gustavo Werneck

Gustavo Wernec, Estado de Minas

A boa notícia, logo de cara, é que elas não têm veneno letal – podem causar alergia devido aos pelos, mas sem levar à morte -, desempenham papel ambiental importante e, contra todas as crendices, não “pulam” em ninguém. O lado ruim, no entanto, é que assustam a maioria das pessoas, afastam algumas que as encontram pelo caminho e “matam” de medo, jovens e adultos, quando entram em suas casas. No início do período de reprodução, que vai até setembro, as aranhas caranguejeiras (Oligoxystre diamantinensis) vêm tirando o sossego de moradores da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Em tempos de pandemia, com as famílias em quarentena, os aracnídeos aparecem, sem pedir licença, em salas, quartos, jardins e quintais.

O administrador Márcio Valério Costa sofreu na pele os efeitos de uma baita caranguejeira, quase do tamanho de um prato. Estava no sítio em Jaboticatubas, com muitos familiares, incluindo crianças, quando viu o animal no chão da casa. “Naquele momento, sem óculos, pensei que fosse um morcego. Mas aí cheguei bem perto e vi a aranha “, conta Márcio, que pegou uma vassoura e bateu para espantá-la. O resultado foi uma crise de tosse imediata, como se tivesse inalado muita poeira, e, na sequência, uma coceira intensa no pescoço, peito e braços. “A partir daqui, começaram as erupções na pele em decorrência da alergia, e tive que fazer tratamento durante 15 dias.” O administrador ainda está com coceira no braço, conforme mostrou à equipe do EM.

Residente numa casa recém-construída, a profissional de TI Ana Alice Costa tremeu, na noite de sábado, ao ver a caranguejeira no piso claro do corredor de seu imóvel, no município vizinho de Santa Luzia. “Não nego que tenho pavor a esse tipo de aranha, e minha primeira providência foi pegar uma vassoura para expulsá-la. Acredita que, de tanto pavor, a foto que fiz com o celular saiu toda tremida?”, afirma com bom humor, lembrando que estava na sala, vendo tevê, com o marido, a sogra e a avó dele.

Em outro bairro de Santa Luzia, uma moradora não esconde o pânico: “Fico paralisada. Sei que nós invadimos o habitat delas, mas sinto verdadeiro horror de ver a aranha se movimentando no chão ou nas paredes”, confessa a moradora que pega o tiver na mão para pôr o bicho para fora de casa.

MITOS – Fã incondicional de todo o mundo animal, a bióloga, pesquisadora e professora da PUC Minas, Cristiane Lafetá Furtado de Mendonça, explica que, desde criança, por uma questão cultural, “aprendemos a ver certos animais como monstros, perigo e ameaça, o que não corresponde à verdade”. No caso das caranguejeiras ou tarântulas, Cristiane informa que esses animais são fundamentais ao meio ambiente pelo controle que fazem especialmente de insetos. “Não podemos matá-los sem motivo. Basta colocá-los para fora de casa com uma pá ou vassoura”, orienta.

Todas as aranhas produzem seda para tecer as teias e o veneno usado para paralisar a presa (moscas e mosquito), que, na sequência, lhe serve de alimento. “No mundo, há milhares de espécies, e no Brasil apenas três são venenosas: a marrom (gênero Loxosceles), a armadeira (Phoneutria) e a viúva negra (Latrodectus), essa abundante no litoral.”

Com cerca de 20 cm de diâmetro e muitas cerdas no corpo, a caranguejeira, ao se sentir acuada, lança esses pelos no ar para se defender. “Mas não são agressivas. Assim, ao expulsá-las de casa, o mais indicado é usar uma vassoura, sem ficar muito perto. Também não se deve tocar nos animais”, avisa a bióloga.

Aranhas enormes como, esta estão, entrando nas casas, assustando moradores. Reprodução/Redes Sociais/Flávia Prado

Na atual temporada de acasalamento, os machos se tornam mais visíveis à população, pois, caçadores por excelência, saem por aí atrás das fêmeas e acabam invadindo espaços urbanos e casas de sítios. O desmatamento, a limpeza de terrenos e o fogo no mato, na época seca, afugentam os bichos.

Para evitar acidentes domésticos, vai a dica: colocar anteparos sob as portas a fim evitar que as aranhas entrem nas casas e, atrás delas, venham predadores, a exemplo de roedores e cobras. Outros inimigos naturais são vespas e pássaros.

Cristiane destaca que as aranhas gostam de ambientes escuros e tranquilos, sem movimentação, e por isso estão presentes no porão de casas antigas. “Sempre concientizo meus alunos para a importância ecológica desses invertebrados. E é bom que a população entenda esse papel. As aranhas ficaram com má reputação, embora sem motivo”, afirma a professora. O EM verificou que, em Sabará, firsm registradas queixas de moradores.

OCORRÊNCIAS – O Hospital João XXIII (HPS), registra acidentes com Phoneutria – conhecida como armadeira (responsável por 70% das ocorrências) e 30% distribuídos entre as espécies Lycosa (tarântula) e Loxosceles (aranha marrom). “O acidente mais grave é causado pela Loxosceles, que pode causar a necrose no ponto de inoculação do veneno, insuficiência renal e distúrbio de coagulação”, diz o
coordenador do Centro de Informação e Assistência Toxicológica de Minas Gerais (Ciatox-MG), médico Adebal de Andrade Filho. o
coordenador do Centro de Informação e Assistência Toxicológica de Minas Gerais (Ciatox-MG), médico Adebal de Andrade Filho.

O hospital atendeu cerca de 30 casos com suspeita de Loxosceles nos últimos anos – “ou seja, não é tão frequente”.

TRÊS PERGUNTAS PARA…

Adebal de Andrade Filho, coordenador do Centro de Informação e Assistência Toxicológica de Minas Gerais (Ciatox-MG)

1) A aranha caranguejeira é venenosa?
São as maiores aranhas em nosso estado. Causam medo, mas não possuem veneno de importância médica. Se acuadas podem picar, causando dor local, mas sem envenenamento. Além de picar, as caranguejeiras podem liberar pelos que causam coceira e vermelhidão na pele em contato.

2) Causam alguma irritação à pele?
Podem causar irritação por contato com os pelos. Às vezes, pode ser necessário o uso de antialérgicos. Geralmente são quadros benignos, exceto para pacientes previamente muito alérgicos.

3) Há ocorrências no HPS de ataque? Os casos aumentam nessa época do ano, qdo começa a reprodução?
Essas aranhas não atacam, elas só se defendem quando se sentem acuadas ou são molestadas. Os acidentes ocorrem durante todo o ano, não observamos a concentração desses acidentes em determinada época do ano.
Importante lembrar que o Ciatox oferece atendimento remoto para orientar em casos de acidentes com qualquer agente de intoxicação. O contato do plantão 24 horas é 0800-722-6001 ou diretamente no (31) 3239-9224.

FIQUE DE OLHO

Dicas para evitar acidentes com aranhas e outros animais peçonhentos:

– Manter jardins e quintais limpos. Evitar o acúmulo de folhas secas, lixo doméstico e material de construção nas proximidades das casas, e também folhagens densas (plantas ornamentais, trepadeiras, arbustos e bananeiras) junto a paredes e muros da casa.

– Manter a grama aparada e limpar limpar periodicamente terrenos baldios vizinhos, pelo menos numa faixa de 1 a 2 metros perto da casa.

– Sacudir roupas e sapatos antes de usá-los, pois as aranhas podem se esconder neles e picar ao serem comprimidos contra o corpo.

– Combater a proliferação de insetos para evitar o aparecimento das aranhas que se alimentam deles.

– Verificar a presença de aranhas em hortifrutigranjeiros.

– Vedar frestas e buracos em paredes, assoalhos e vãos entre o forro e a parede para impedir o trânsito de aranhas pela casa.

FONTE: INSTITUTO VITAL BRAZIL

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