Aos 71 anos, Teatro São Francisco, em Taquaraçu, vive em completo abandono

Aos 71 anos, Teatro São Francisco, em Taquaraçu, vive em completo abandono
Prefeitura diz que vai restaurar essa preciosidade, construída na década de 1950. Vamos aguardar. Foto: Gustavo Werneck:

Gustavo Werneck

Estado de Minas

Minas Gerais tem tradição nas artes cênicas – basta ver o Teatro Municipal Casa da Ópera, em Ouro Preto, o mais antigo em funcionamento nas Américas. Desde o século 18, as cortinas se abrem para peças, shows e outras atrações que encantam o público. Em outras regiões do estado o palco cresce e aparece, como ocorre agora em Simão Pereira, na Zona da Mata, onde um antigo galpão se transforma na primeira sala de espetáculo do município. Serão 180 lugares, fruto de iniciativa da prefeitura com recursos próprios e do governo estadual. A expectativa é de término das obras no segundo semestre.

“Teremos dois camarins com banheiros para os artistas, palco, coxia, banheiro público, ‘foyer’ (área onde o público aguarda o início da apresentação), copa e bilheteria, enfim, toda a estrutura. Em anexo, haverá uma biblioteca, completando o espaço cultural”, conta o secretário Municipal de Cultura e Turismo, Geraldo Nascimento. Simão Pereira tem cerca de 3 mil habitantes e o objetivo é fomentar atividades culturais no município distante 285 quilômetros de BH.

O outro lado da história está na zona rural de Santa Luzia, na Grande BH, onde se encontra um dos únicos teatros dentro de um curral – isso mesmo! – no mundo. Espaço  pelo qual a comunidade de Taquaraçu de Baixo, que fica a 25 quilômetros do Centro da cidade, tem verdadeira paixão, o São Francisco está digno de dó: em completo abandono, tomado pelo mato e de porta sempre fechada. Com as chuvas, a deterioração é inevitável.

Em maio, o Teatro São Francisco completará 71 anos, e recorremos a uma pesquisa do Iepha-MG para conhecer o início. Tudo começou quando, então seminarista, o padre Raimundo Nonato, hoje com 94 anos, passava férias na casa de seu irmão, Expedito Costa Moreira, na fazenda da família às margens do Rio Taquaraçu. Ali, ele resolveu reunir alguns jovens para fazer teatro.

Como não havia lugar onde se pudesse improvisar um palco, Raimundo Nonato, sempre muito criativo, sugeriu a cocheira do curral de Nelson Gonçalves Marques, o “Tio Nelson”, que consentiu em ceder o espaço. Assim, o palco foi montado onde prendiam o bezerro, e a plateia ficava onde tiravam o leite das vacas. Já o lugar onde o leite era desnatado, foi improvisado um camarim para as mulheres.

A primeira apresentação ocorreu em 31 de maio de 1955, com a peça “Mundo velho tá sem Quintino”. O sucesso foi tal, que a comunidade formou um mutirão para construir uma casa de teatro. “Tio Nelson” doou o terreno, os materiais de construção, desenhou a planta e, como era o único que conhecia um teatro, acompanhou a obra mesmo depois de ter ficado cego. Após um ano de trabalho, o Teatro São Francisco estava pronto, mas, com as primeiras chuvas, desabou. No entanto, o desejo de representar continuou firme, e Nelson e comunidade fizeram construção mais resistente, só ocorrendo reformas em 1992 e no fim da década de 2000.

Procuramos a Prefeitura de Santa Luzia, que enviou a seguinte nota: “O setor de arquitetura da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo concluiu a atualização do projeto arquitetônico de restauração do teatro, etapa fundamental para a continuidade do processo de recuperação do imóvel. No momento, o processo se encontra na fase de elaboração dos projetos complementares de engenharia, necessários para o completo detalhamento técnico da intervenção e a instrução das etapas subsequentes de aprovação junto aos órgãos competentes”.

Após a conclusão desses projetos e obtenção de aprovações institucionais, “o Município dará prosseguimento às etapas necessárias para viabilização da execução da obra, incluindo a captação de recursos destinados à restauração do equipamento cultural.”

Estamos aqui de olho para ver, finalmente, o teatro em funcionamento.

 

 

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