História de Chica da Silva passa pelo Mosteiro de Macaúbas

História de Chica da Silva passa pelo Mosteiro de Macaúbas
Chica da Silva teve uma relação estável com o português João Fernandes, com quem teve 13 filhos. Foto: Reprodução/Internet

Gustavo Werneck

Estado de Minas

Há muito ainda para se conhecer sobre a vida de dona Francisca da Silva de Oliveira, a mineira que entrou para a história do Brasil, nem sempre em relatos fiéis a sua trajetória real, e se eternizou com o apelido e o primeiro sobrenome: Chica da Silva. No próximo dia 16, serão lembrados os 230 anos da morte da célebre mulher, uma escravizada alforriada que viveu, e se tornou poderosa, no auge da exploração de diamantes no Arraial do Tejuco ou Tijuco, atual Diamantina, no Vale do Jequitinhonha. Para reverenciar sua memória, será celebrada missa no dia seguinte (17/2), às 15h, na Igreja Nossa Senhora do Carmo, no Centro de Diamantina.

O templo barroco, importante ressaltar, foi mandado construir pelo contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, um dos homens mais ricos e influentes do império português. Ele e Chica viveram juntos durante 15 anos, em Diamantina, e tiveram 13 filhos. Na cidade e região, como também em Belo Horizonte, há descendentes orgulhosos da antepassada, considerada “rainha” em sua época, e de vida extravagante, na palavra de detratores ao longo dos séculos. Segredos familiares, passados de geração a geração, são agora revelados.

Livros já foram escritos, outros são lançados, uma ópera inédita está a caminho, com estreia marcada para 12 de setembro, em Diamantina, enquanto há documentários, filmes, canções, novelas de tevê, enredos de escola de samba, peças de teatro e várias manifestações culturais contando, e algumas vezes recriando a seu gosto, a história de Chica, filha da negra Maria da Costa e do português Antônio Caetano de Sá. Nascida escravizada, em data incerta entre 1731 e 1735, teve alforria concedida por João Fernandes, em 1753. Há registro do seu batismo, em 1734, na Igreja Nossa Senhora dos Prazeres, no distrito de Milho Verde, no Serro, também no Vale do Jequitinhonha.

Autora da obra “Chica da Silva e o contratador dos diamantes – O outro lado do mito” (Companhia das Letras), a professora de história da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Junia Ferreira Furtado, mergulhou fundo nas pesquisas para traçar um perfil da mulher e sua época. E, claro, não poderia faltar a história do casal. Quem “encantou” quem? “Eu diria que Chica encantou o português, porque ele chega ao Arraial do Tijuco em agosto, e em dezembro a Chica já lhe pertence. Ele a alforria e em abril do ano seguinte já nasce a primeira filha dos dois, a Francisca de Oliveira. Então, acho que Chica encantou o João Fernandes.”

Gerações guardam o legado de Chica da Silva

As histórias escritas em livros e aquelas só contadas mesmo em ambiente doméstico unem as várias gerações de uma família residente em Belo Horizonte e com origem em Diamantina, no Vale do Jequitinhonha. São todos descendentes de dona Francisca da Silva de Oliveira, a Chica da Silva, e sobre ela fala, com alegria, a médica Luciana Parisi, moradora do Bairro Funcionários, na Região Centro-Sul da capital: “Tenho muita honra em pertencer a essa família e descender de Chica, que enfrentou muitos preconceitos e marcou um espaço que não era comum nas colônias portuguesas”, diz Luciana, mãe de Ana Catarina Parisi Pinheiro, de 44 anos, e Beatriz Parisi Pinheiro, de 33, e pertencente à sétima geração. “Sou de um lado da família com presença maciça de mulheres, com exceção de apenas um homem, o Franklin Amador, filho de Frutuosa, neta de Chica”.

Para entender as conexões familiares, será necessário puxar o fio do tempo. A médica conta que sua mãe, Maria Neide Rocha Parisi, falecida em 2012 aos 82 anos, e residente a vida toda em Diamantina, conheceu a bisavó, Maria Amadora, a quem chamava de Iaiá Cota. “Veja só: a bisavó da minha mãe, portanto minha trisavó, era bisneta de Rita Quitéria, a terceira filha de Chica da Silva e João Fernandes”.

 

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