Famílias luzienses celebram as alegrias e os desafios de ser Professor

Famílias luzienses celebram as alegrias e os desafios de ser Professor
Daiana (primeira à esquerda, de vestido), Bárbara (blusa preta), Ana Carolina (conjunto marrom), Letícia (calça branca), Márcio e Andréa. Foto: Jair Amaral D.A. PRESSss

Gustavo Werneck

Estado de Minas

Em família, todos os professores falam a mesma língua. E compartilham desafios, somam experiências, subtraem dúvidas, multiplicam conhecimento, celebram a profissão escolhida.  Neste dia de homenagem aos docentes, o Estado de Minas conta a história de homens e mulheres de várias gerações, unidos por laços do casamento ou pelo sangue, que se dedicam a ensinar, indicar caminhos, formar cidadãos.

No tricentenário Quilombo de Pinhões, em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), os primos Márcio, Daiana, Ana Carolina, Bárbara, Letícia e Andréa mostram porque os laços de família e afeto os tornam singulares em escala plural: se a educação tem poder transformador, querem ser agentes de boas mudanças. 

Também em Santa Luzia, Truman e Piedade, casados há 40 anos, garantem que, mesmo aposentado, professor é sempre professor. “A base do nosso ofício, está no entendimento, no diálogo, então em casa um compreende o outro, pois vive praticamente as mesmas situações”, ressalta Piedade.

Família de muitos professores

Foi na Festa de Nossa Senhora do Rosário no Quilombo de Pinhões, em Santa Luzia (RMBH), na Região Metropolitana de Belo Horizonte, que a equipe do Estado de Minas teve a bela oportunidade de conhecer uma família com muitos professores. “E ainda estão faltando parentes de outras gerações. Neste momento, posando aqui para a foto, só estamos nós, cinco primas e um primo”, conta, num misto de orgulho e satisfação, a pedagoga Letícia Júnia Araújo Carvalho, de 27 anos, que trabalha na Escola Municipal “Ceçota Diniz”, em outro bairro da cidade.

“Sou professora de apoio e supervisora, atuando em dois turnos”, explicou Letícia, para quem a profissão exige amor e muitas horas pensando em alunos, estudos, sala de aula e conteúdo das matérias. “Portanto, não é só transmitir conhecimento”, resume a jovem docente, que acalenta um sonho: mais valorização para o ofício e o crescente interesse dos estudantes.

Ao lado, fazendo coro às palavras da prima, Daiana Cristina dos Santos Carvalho, de 37, vê a educação como agente transformador de toda a sociedade: “Sou ‘quilombola de raiz’, cultuo as tradições e quero passar às próximas gerações as histórias que herdei dos meus pais e avós”. Também fazendo jornada dupla, Daiana lembra da correria no dia a dia ao conciliar vida familiar e profissional, pois trabalha na biblioteca da Escola Estadual “Padre João de Santo Antônio”, em Pinhões, e na Escola Municipal “Dona Quita”, no Bairro Adeodato. Casada com Gustavo Carvalho, que não é da área da educação, ela tem dois filhos: Bernardo de 13 e Maria Luíza, de 6.

Na escola, os alunos aprendem que Pinhões surgiu em 1708 com os escravizados que foram trabalhar na construção do Mosteiro de Macaúbas, distante 5 quilômetros. Depois, ficaram morando no local entre as antigas sesmarias de Macaúbas e Bicas. Em março de 2017, a comunidade foi reconhecida como quilombo pela Fundação Cultural Palmares, vinculada ao Ministério da Cultura. “Nossa história é muito rica, está no nosso sangue”, ressalta Daiana.

PODER TRANSFORMADOR Para homenagear o dia 15 de novembro, Ana Carolina Rosária Barbosa, de 27, escreve na cartolina branca “Família de Professores”, juntando o desenho de um casal com uma criança e o nome Quilombo de Pinhões. “Você tem letra de professora, daquelas bem desenhadas!”, comenta o repórter, que recebe como resposta um sorriso agradecido de Ana Carolina. Docente de educação especial na “Dona Quita” e na Escola Estadual “Gervásio Lara”, no Bairro São Benedito, Carol, como é chamada pelas primas, tem uma teoria para a tradição familiar pela educação. “Sinceramente, penso que está no nosso DNA. O amor pela educação passa de geração em geração. Minha mãe e minha tia são professoras. Somos muito felizes neste vasto campo que é o ensino”.

Ouvindo as palavras, o único homem presente neste grupo, Márcio Eustáquio Diniz, de 45, revela que nunca teve dúvidas sobre a importância da carreira escolhida. Ainda mais por trabalhar com a educação especial (estudantes com deficiências física, auditiva ou intelectuais, Transtorno do Espectro Autista-TEA e superdotação). “A educação tem realmente o poder de transformar”, acredita piamente Márcio, casado com a supervisora de ensino Sara Araújo Diniz.

Em família, as conversas do casal, que tem dois filhos, costumam girar em torno das atividades profissionais cotidianas. “Mas a gente sempre arranja um jeito de falar sobre outros assuntos”, brinca o professor das escolas “Padre João de Santo Antônio” e “Dona Quita”.

PEDIDO DO PAI Ao ouvir Márcio sobre a “importância da educação”, Andréa do Carmo Diniz, de 38, casada, mãe de Felipe, de 17, e Gustavo Henrique, de 2, nascida e criada em Pinhões, acrescenta: “A educação é a base de todas as profissões. São os professores que ensinam àqueles e àquelas que, futuramente, vão estudar direito, medicina, engenharia e outros cursos superiores”. E quem te incentivou a seguir esse ofício?, quer saber o repórter. Sem pensar duas vezes, Andréa cita seu pai, Eugênio Pascoal Diniz. “Ele me disse, na maior tranquilidade, para eu ser professora”, recorda-se.

Já a mais jovem do grupo, Bárbara Alves, de 23, se viu estimulada pelo filho Miguel Henrique, de quatro anos, a estudar pedagogia. “A vida é cheia de desafios e quero um mundo melhor para ele”, afirma Bárbara, enquanto abraça a criança. Trabalhando na Escola Municipal “Cônsul Antônio Cadar”, em Belo Horizonte, a jovem tem certeza de que o professor “faz a diferença na vida das pessoas”.

Os professores Truman Soares dos Santos e Piedade Henrique Machado dos Santos. Foto: Gustavo Werneck/EM/D.A PRESS

LUZ DA SABEDORIA Mesmo com os altos e baixos naturais do ambiente familiar, a convivência diária só traz benefícios aos professores, assegura Piedade Henrique Machado dos Santos, casada há 40 anos com Truman Soares dos Santos, residente no Bairro Carreira Comprida, em Santa Luzia (RMBH). “Estamos aposentados, mas professor é sempre professor. Somos voluntários na Organização não governamental “Solidariedade – Todos juntos sempre”, com ações em vários setores, incluindo a educação.

“Lá em casa, somos três da área educacional. Já na família toda, há tios, primos e cunhados. Fui professora de língua portuguesa, em escolas pública e particular, e meu marido, Truman, lecionou química. Ele trabalhava numa grande empresa de bebidas, em BH, e o incentivei a dar aula. Caroline, nossa filha mais nova, começou dando aulas de inglês, depois se formou em direito e trabalha como advogada. Já a Gabriela é fisioterapeuta.

Satisfeita com sua jornada na área do ensino, Piedade se considera realizada. “Sempre sonhei em ser professora, orientar crianças e jovens, buscar a luz da sabedoria. Os mestres são sempre referência, modelo, exemplo, enfim, um espelho para os estudantes. Portanto, além da vocação para o ofício, se torna fundamental ter responsabilidade para ensinar, principalmente no mundo de hoje com tantas informações, velocidade de notícias e apelos no universo virtual”.

Origem da celebração

Há quase 200 anos, em 15 de outubro de 1827, o imperador dom Pedro (1798-1834) decretou a criação do ensino elementar. Com isso, todas as cidades, vilas e lugarejos do Brasil deveriam ter suas escolas de primeiras letras. Está nesse decreto imperial uma das origens da celebração do Dia do Professor. Bem mais tarde, em 1947, portanto 120 anos depois, ocorreu a primeira homenagem aos docentes, com um dia específico para eles. Numa pequena escola de São Paulo (SP), quatro professores sugeriram uma pausa nas atividades para congraçamento e conversa com os pais dos alunos. Assim, foi escolhido o 15 de outubro, que entrou para o tradicional calendário dos estabelecimentos de ensino. No país, a data se tornou oficialmente feriado escolar pelo Decreto Federal 52.682, do presidente João Goulart, de 14 de outubro de 1963.

 

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